27.10.14

COM A COMPANHIA DE UM CÃO

Há um cachorro aqui em casa. Não é meu. Pertence à minha amiga que mora comigo. Mas não mora aqui nem morará. Está apenas por uma temporada, enquanto a mãe e o irmão dela – que cuidam dele por morarem numa casa espaçosa –, estão viajando.
Se chama Peruco. Sua dona está toda feliz, já comprou um monte de comida para ele e, mesmo trabalhando até madrugada (numa companhia aérea) – o que lhe dá o direito de dormir durante o turno da manhã –, acorda cedinho e de muito bom grado para levá-lo para passear e para que ele possa fazer cocô e xixi, pois Peruco, de fato, é bastante educado e jamais faz suas necessidades dentro de casa, nem qualquer outro tipo de sujeira e nem barulho.
Quando minha amiga está em casa, Peruco está sempre atrás dela e, mesmo ela, com um cuidado de mãe, está sempre preocupada com ele. Mas aí chega a hora dela ir trabalhar (em geral, à noite e, em alguns dias, à tarde) e Peruco fica aqui comigo. É claro que de forma bem diferente de quando está com ela. Ele parece gostar dos carinhos que lhe faço vez ou outra, mas também não pede por eles, nem parece se empolgar. Não atende quando lhe chamo. Não abana o rabo quando sou eu quem volta para casa depois de também ter saído deixando-o totalmente sozinho. Entretanto, mesmo mantendo uma certa distância, Peruco fica sempre onde estou. Se estou no quarto usando o computador ou lendo na mesa, ele fica ali, ao lado do ventilador; se vou ler deitado na cama, ele vai para o lado da cama; quando levo os livros pro sofá da sala e fico lá lendo, ele também vai e fica perto de meus pés; nos momentos em que estou na cozinha preparando algo ou lavando louça, ele também vai e fica na entrada ou logo atrás de mim. – Sempre deitado, caladinho, mas sempre comigo.
É evidente que Peruco não gosta de mim como gosta de sua dona e eu mesmo não gosto dele como ela gosta. Ainda não tivemos tempo, nem eu nem ele, para isso. Contudo, é inquestionável que diminuímos nestes momentos a solidão um do outro. E, por isso mesmo, há uma secreta cumplicidade entre nós.
Humanos ou animais, arredia que seja cada personalidade, estamos sempre de alguma maneira dependendo de uma outra vida para acalentar a nossa. Estamos sempre confirmando a nossa própria vida com a vida do outro. Pois, por mais que nos queixemos de solidão na multidão (e isso de fato é uma triste realidade para muitos), a multidão ao menos nos faz manter o equilíbrio, afugentando o desespero que seria nos encontrarmos sozinhos em meio a um deserto, ou a clausura perpétua na solitária de um presídio, ou como únicos sobreviventes de uma tragédia mundial, ou qualquer outro assustador exemplo similar. Solitária que seja quem não tem amigos, namorado(a)/esposa(o) ou família, ainda tem na mudez e indiferença das pessoas que vê nas ruas, no trabalho, faculdade, ou seja onde for, rostos vivos, de gente, de bichos, que lhes confere a paz interior da certeza de que a grande e total solidão ainda não chegou.
Tenho amigos e familiares, não me sinto solitário mesmo quando estou sozinho. Mas, ainda assim, é bem mais leve estar sozinho com uma companhia como a de Peruco.

(escrito em novembro de 2012)

12.6.14

UMA HISTORIA DE AMOR À PRIMEIRA VISTA NO DIA DOS NAMORADOS


para Ariane da Mota e Afonso Henrique Novaes


Em junho de 2009, o relacionamento mais duradouro que tive já dava sinais de que estava chegando ao fim. E dois ou três dias antes do Dia dos Namorados, após uma briga feia por um motivo bobo, eu já podia prever que passaria aquela data completamente em branco. Foi então que Ariane – minha amiga e naquela época também colega de trabalho – há pouco tempo solteira, me sugeriu, ao saber da minha situação, que trocássemos presentes na data, para que não ficássemos tristes. Topei.

Para aquele dia doze eu havia agendado com meus alunos uma avaliação. E foi exatamente no momento da prova, a sala silenciosíssima, que Ariane apareceu à porta me chamando e entregando o presente. Abri o pacote. Era um livro: Baladas, de Hilda Hilst, escritora que eu jamais havia lido, mas que já conhecia pelo nome e sucessivas recomendações de Afonso, um outro amigo que também me apresentou a outros autores que passei a admirar, e da própria Ariane. Agradeci o presente, dei-lhe um abraço, e combinei de nos encontrarmos no final da tarde para lhe entregar o seu.

Como não havia outra coisa a fazer a não ser fiscalizar os alunos em prova, decidi começar a ler o livro, para ver se de fato iria gostar dessa Hilda tão recomendada. E bastou ler a primeira página, o primeiro poema – me acertou em cheio aquele conjunto de versos. Fiquei tão completamente emocionado,  fui tão flagrado na minha sensibilidade, que não pude conter o que sempre evitei acontecer na frente dos alunos: eu chorei. Tentei disfarçar, mas, de pé à frente de umas quarenta pessoas, foi inevitável que pelo menos um ou dois estivessem olhando para mim no momento e perguntado em voz alta: está chorando, professor? Aguçando a curiosidade de todos.   Respondi: estou sim, mas não se preocupem, estou chorando de beleza, apenas de beleza... E ergui o livro para tentar ajudar na justificativa. Alguns riram, mas, ainda bem, não deram muita importância e voltaram à prova. Então li mais uns outros sem receios. E chorei ainda mais – de uma dor que só a verdadeira Beleza provoca, de comunhão profunda do meu eu com aquele outro que dizia todos aqueles versos, de um arrebatamento de amor à primeira vista, à primeira leitura. 

Desde então, apaixonadamente, percorri os passos da Hilda. No final daquele ano, já tinha quase todos os seus livros (que não são poucos) e já havia lido praticamente todos. Este amor dura até hoje, leal e como desejo que todo amor que me venha seja: me emocionando, me divertindo, me melhorando, crescendo comigo, segurando minha mão no escuro, e sendo comigo amor e morte ao mesmo tempo.

10.8.13

A DESPEDIDA

para Alexandre Valadão

Sempre que você está indo embora, você pode ficar no coração do outro.
(Hilda Hilst)

Toda despedida é um pequeno ensaio de morte. Refluxos da memória, prólogo das ausências, funduras espaçosas, ameaças de pranto, toda despedida é um sim da descontinuidade entre as vidas. E eu aqui nesta estreita cama colado ao teu corpo respirante de carne e pelos, eu aqui braços te enlaçando tu maior que eu, velando teu sono matinal enquanto observo a luz do sol fatiada pela persiana da janela na tua e minha pele, eu aqui olfato atento aos mornos olores que exalam de ti tua barba, eu aqui melancolia de uma saudade anunciada, eu Flúvio outrora crente de não ser mais capaz desses luxos de amar, depois das fodas desejando impacientemente que vão embora os homens ou eu mesmo fugindo quando gozo fora de casa, agora aqui contigo Ângelo meu amor lamentando porque tens de ir sem mesmo um assomo de data para um novo nosso encontro, então seremos de novo apenas palavra carícias verbais pensamento virtualidades telefonemas essas abstratas manutenções da existência um do outro... Por acaso não dormiste e ficaste aí me vigiando enquanto eu dormia? Ah!, Ângelo, acordou!? dormi sim claro, apenas deitei depois e acordei antes de ti. Pois é, adormeci sem ter te visto voltar pra cama, por que demoraste tanto no banho? foi aquilo de novo debaixo do chuveiro? Sim acho que sim, deveria ter me banhado mais cedo contigo, não ido sozinho. Um dia ainda vais se afogar no chuveiro e figurarás no rol das mortes estúpidas. Ah não ria, não é pra tanto, apenas esqueço de mim por alguns instantes não sei quantos: como estivesse no jorro de clepsidras e fico ali pensando não sei o quê ou não me lembro nunca enquanto a água cai me lava e leva o tempo, mas tu sabes que também me acontece isso fora dela. Sim sei não zombo, pois das poucas coisas que me deixam enciumado de ti é este teu mundo que não acesso pra onde não posso ir contigo e sei fazer parte magmática de quem tu és no teu de-dentro e mais amo, no entanto acho bonito e curioso isso e gosto de observar teu olhar alado atento a esses nadas quando estando ao meu lado vais assim pra muito longe, ontem por exemplo ficaste por quase meia hora desligado aqui na cama depois que trepamos, fiquei te olhando. Devias ter me sacodido me chamado, por que não me chamas nesses momentos? não me deixes ir assim Ângelo já é tão pouco o tempo em que podemos estar juntos não me deixes ir estando contigo pois também às vezes tenho muito medo. Medo de quê? Medo de um dia ir longe demais e não mais conseguir voltar... Mas faria diferença? é em ti que te percorres, ainda que vás muito longe é em ti que permaneces e em ti que te moves. Não não, não é simples assim, há lonjuras interiores que nos levam pra escuros vastos pra ocos pra buracos-negros que estão em nós mesmos e quando caímos somos tragados aniquilados pelo próprio âmago, tenho medo Ângelo pois já vi de perto a cara tessitura e hálito de doidos de tristes e de poetas, me assusta. Ei desafoga estes olhos flúvios olha pra mim me ajuda a arrumar as malas, falastes em poetas me empresta o livro daquela Orides que andavas lendo aquela dos gatos da estrela da tarde, grifaste e puseste anotações nele? separa outros desses que tu escreves nas páginas enquanto lês esses que tu marcas o que te chama a atenção e me deixa levar comigo, assim leio eles e tu intrinsecamente e vou sabendo como os sentes sabendo o que tem de ti neles pelos teus escritos e os do autor, talvez como mapas me levem um pouco a essas tuas paragens internas. Tudo bem, mesmo sentindo um certo constrangimento com a ideia pois sei: tu dispões de algumas chaves necessárias, tu conseguirás sim alcançar algo, nalgumas coisas mais que eu até, pois já soubeste me dar muitas vezes os espelhos certos para que eu próprio a mim me visse, não poderia negar-te, mas cuida bem deles porque sei que haverá um tempo em que eu os precisarei para me guiar a mim, entretanto quero que também me faças algo: me escreve de alguma de tuas viagens desta ou outra dentro do avião enquanto voas como escreveste daquela quando regressavas pra tua casa da Europa me contando que depois de vinte anos houveste chorado quando estavas num museu e que aquilo só aconteceu porque eu passara a participar da tua vida, me escreve novamente pondo no cabeçalho "céu" antes da data, bem angelus assim, e se não souberes o que escrever escreve à maneira automática de Breton não pensas escreve o que te vier para que se te escapem os ditos porque teus olhos sempre denunciam mais mistérios em ti que os que me apontas ter, e eu de pouco disponho para acessar o que sustentam teus silêncios e erigiram as paredes que represaram por tantos tempos teus choros. Prometo que tentarei acho justo, o amor precisa dessas buscas, talvez te mande também alguns escritos antigos que guardo comigo algumas fitas em que gravava pensamentos em voz alta, se não temos um dia-a-dia tentemos uma vida-a-vida, mas vai abre agora ali a janela começa a fazer calor neste quarto e também quero ver mais uma vez a vista que tens daqui, as janelas do meu apartamento veem o mar, estas tuas um rio encontrando o mar, é mais bonito isto então aproveitas pra olhar sempre antes que construam edifícios aqui em frente que te bloqueiem a visão de tudo, um rio que encontra o mar: eterno retorno, cedo ou tarde sempre voltamos ao mar não importa em que forma seja, é preciso no entanto nos mantermos líquidos para que chegada a hora não nos demoremos tanto e nada seja tão doloroso. Tenho pensado muito nisto Ângelo às vezes me angustio minha cabeça se enche de questões, tu achas que já estás preparado? Não sei como saberia? só posso te assegurar que os ventos não fazem mais grandes ondas aqui dentro. É engraçado falares assim, pois recordo de quando vi o mar da tua casa também ele é mais calmo que os demais que conheço, acendi à sua margem cigarros sem precisar proteger o fogo. Pois bem, talvez estejamos prontos um pro outro, mas ainda há muito o que viajar ler comer meter há muito do que rir aprender e amar, não fiques pensando nestas coisas, pensa no amor, não somente o que sentes por mim por ti pelos outros, pensa no amor como Virgílio e aqueles outros: a-mors: não-morte, e ama, porque tu sabes como poucos. Não sei se sei tanto assim, já te falei que antes de ti pensava estar estragado pensava não mais ser pra mim essas coisas de amor que me contentava em foder procurando no corpo alheio como entender o meu próprio corpo, sem amigos e sufocado com a mínima exigência de atenção da família, se fosse dado à culpa talvez me mortificasse com pesares de deixar vir os outros apenas quando fosse do meu interesse, onde estou eu? me perguntava, onde deixei aquele viço aqueles frescores aquele instinto paternal do mundo? tantas noites quis saber, tu me resgataste Ângelo, trouxeste de volta tudo aquilo. Nada fiz além de segurar tua mão por saber que atrás daquela carapaça ranzinza da boca reclamona do sarcasmo sumarento estavas tu este que amo este de poucos, toma pega estas camisinhas que não usamos em nossas fodas usa-as com teus homens e libera aperfeiçoa adestra ainda mais teu corpo pra quando eu voltar, já que tu ainda tens esta paciência para encontros trepadas casuais. Ora vais me dizer que tu não? Cada vez menos, já vi provei senti demais Flúvio hoje não me interessa muita coisa, aprendi as delícias do não: há um sabor especial nas recusas quando nosso não vem por não querer e não por não poder, tenho dito muitos nãos ao mundo porque igualmente aprendi a dizer sim a mim e só e somente só ao que me diz respeito, então cuida-te porque a mim tu me interessa, o teu amor teu eu-segredo tu sem talento para os mapas das ruas tu palavras certas canto das sereias teus tropeços quando caminhas a brancura de tua pele teu cabelo enrolado tu inapto à vida prática tu sentinte perguntante suspenso em teus mistérios, esse que eu amo. Ah Ângelo me abraça, com mais força, porque também te amo, porque calculo as distâncias que estão sempre nos separando refazendo-as em novas escalas, nas maiores nas menores, e a resposta de meu amor é sempre: muito perto, me abraça para que meu corpo revise mais uma vez o teu e ele junto de meu coração estejam certos de que jamais te encontrarei nos outros homens.

22.11.12

SOBREGOZO

Escuta, Antônio, se queres mesmo saber um dia o verdadeiro prazer de meter, ter uma epifania de pica, os folguedos e o gozo ao fim do Caminho da Mão Esquerda, o mahāsamādhi, Antônio, come um cu de homem, fode um rabo masculino... por que me olhas com essa cara?, tu sabes que essas burocracias da vida, macho é pra fêmea fêmea é pro macho, igreja, pecados, recalques, restrições morais, nunca foram comigo, tu sabes bem que eu Artur quarenta anos arquiteto, estou cagando pra todos esses protocolos cabrestos, sei que se pode comer cu de mulher também, Antônio, mas é diferente, é bem como a Hilda, ela mesma mulher, escreveu naquele livro lá das cartas do sedutor: mulheres têm o cu vermelhusco nádegas quase sempre volumosas meio desabadas por mais jovens que sejam que talvez só sirvam pra bons bifes em caso de acidente na neve, não te lembras da Hilda? aquela velhona que cansada de não ser levada à sério escreveu umas putarias, tu mesmo me disseste que estava lendo aquele livro dela da mulher no vão da escada com a porca... pois bem, naquele mesmo livro comentam de um certo Joca que enfiou o dedo no cu do filho do Zitinho porque dizia ser lá a boca de Deus, lembrou? então, eu já soube de mulheres que dizem gostar de dar a bunda, mas duvido, Antônio, duvido que naqueles cus molengões elas sintam o prazer que sente um homem com seus mecanismos de corpo próstata escroto sentem, o divino de meter na mulher está em meter na frente, na buceta, equipada de útero, de onde uma nova vida arrisca surgir, tem umas que choram de gozo, respingam, ejaculam como machos, já ouviste sobre ou viste alguma assim? com homem no cu dele a gente entra onde em pânico e gozo ele se descobre e se confirma humano, onde ele estremece de um prazer que seu pau desconhece, alumbramentos do divino e que no entanto lhe humilham com a certeza de sua finitude, é vida e morte se reiterando, aproveita e antes de meter lhe chupa o cu, beija na boca de deus, sente na tua boca língua dentes ele gemer sem forças, lê Bataille e sua História do Olho, e não te preocupes em entender aquela loucura só observa a convergência de todas as imagens para o cu, que foi como eu mesmo li, experimenta o cu de um outro homem, Antônio, procura um maior que tu, um que seja mais homem que tu, e descobre nos instantes de teu gozo com ele que tu pode ser, ainda que brevemente, do tamanho da vida...

21.8.11

ÉKSÓ

Nunca me rebelei contra os uniformes escolares. Desde a escolinha, em criança, assistia às aulas trajado no fardamento completo – da camisa ao tênis. Sem qualquer tipo de customização, sem boné, sem relógios coloridos, sem jaquetas ou sem qualquer assessório que voluntariamente transgredisse a básica ideologia do fardamento – igualar. Ainda assim, jamais pude escapar da sensação de deslocamento: a cabeça ruiva, flamejante, faroleira, estava sempre em cima de mim, acima de mim. A implicância das demais crianças com meus cabelos ruivos, o espanto em perceber que sou facilmente localizável, o apontar dos outros nas ruas, os adjetivos “exótico”, “diferente” ou outros do mesmo campo semântico constantemente me sendo entregues... Mas o que fazer? Era fato: não havia outras crianças ruivas na escola, na rua, no bairro – havia na cidade? Não lembro. E assim também o foi na adolescência. Mesmo tendo vindo para uma cidade bem maior durante a primeira fase da juventude, mesmo encontrando ocasionalmente com outros ruivos em alguns lugares, em ônibus – nossos olhares sempre atentos um pro outro, talvez mais admirados conosco que os outros de cabelos de tonalidade mais comum, o silêncio que dizia espantado: um ruivo!, até o momento de sairmos de nossos campos de visão com uma levíssima estranha sensação de comunhão . Eu devia ter aprendido melhor para hoje não me deixar atingir tanto. Pois tudo isso àquela época eram, decerto, ensaios para hoje. Hoje que dentro de mim tudo é tão incandescente e magmático que suplanta qualquer brilho ígneo que meus cabelos agora um tanto esmaecidos possam radiar ao sol. Hoje é o meu de-dentro que sinto muito mais singular, exótico, diferente, tantas vezes estranho a mim mesmo, de fogo – ruivo. E em meio à mudez instaurada entre quem eu vejo e me vê por onde vou, ou a pouca palavra entre mim e os que conheço, não posso esperar que me apontem, que me localizem pelo que jorra de mim em – mim. Entretanto, ontem à noite, como em alguns sábados à noite, saí, fardado de sorrisos, de perfumes, de roupas, de amigos, desejoso de me igualar a quem sai aos sábados à noite para se divertir. Às vezes consigo. Gosto. Mas ontem falhei. Não sei o que aconteceu, estava indo bem, a música estava boa, as companhias eram agradáveis, até que desavisadamente como são os abalos sísmicos meus avessos começaram a se remexer, o âmago a se chocar contra o âmago, corri para o banheiro e vomitei. Na boca ficou, muito representativamente, um insuportável gosto amargo. Fui imediatamente ao bar, comprei uma bebida que engolia em grandes goles, enquanto engendrava conversas com quem estava ao meu redor sobre qualquer coisa para tentar disfarçar a falência de meu ânimo. Dançar já estava fora de qualquer cogitação. Tentei flertes – mas era inútil. Nada mais eu tinha a ver com as pessoas e com o local e com a música. Aquela velha sensação de garotinho na escola havia voltado, mas potencializada com a impiedosa força com que maltrato a mim próprio e, ao mesmo tempo, também com a selvageria de uma autoestima liberta, que em onda andante e flexível agora corre desaferrada, que nada mais quer deixar morrer no coração, me deixava eriçado.  Tudo ali ficou assombrosamente bobo, inferior, débil, patético. O ar de tão pesado exigia esforço para entrar nas narinas e, como se não bastasse, estava inteiramente contaminado com a fumaça de cigarros irritantes.  Estava cada vez mais difícil manter a pose. Foi então que o moço ao meu lado, moço que escreve livros pra criança, chegou mais perto de mim e do nada perguntou: você não se sente daqui, não é? Fiquei constrangido como quem é pego em flagrante. Não, agora não me sinto, respondi num sorriso nervoso. Me despedi dele num longo e forte abraço, também de quem estava mais próximo, tomei um táxi e voltei para casa, exaurido.

15.8.11

ORIDES FONTELA SEGURANDO MINHA MÃO

Não que esperasse muito do filme, mas embora minha companhia houvesse desmarcado e estivesse demasiado em cima da hora para convidar outra pessoa para ir comigo, eu precisava ir ao cinema hoje. Aliás, digo que precisava ir ao cinema porque já era o planejado – em verdade, o que eu precisava mesmo era sair de casa, sair do que é possível, do que é meu e me cerca, porque hoje eu era um perigo para mim: memórias mentindo o passado, rastros de mim dando voltas, esquecimentos desacertados... Fui sozinho.

Não havia quase ninguém na sala – que vazia, penumbrática e impessoal como se encontrava era o que eu precisava. Mas era a primeira sessão e eu havia chegado cedo. Faltavam ainda vinte minutos para começar a projeção do filme e depois de alguns minutos comecei a me impacientar com a espera. Não havia fome, sede, vontade de ir ao banheiro, nada para se fazer. Por sorte eu havia deixado dentro da bolsa o livro da Orides Fontela e, como a luz ainda permitia, folheei algumas páginas relendo poemas favoritos e retomando, com gosto de novos, poemas já esquecidos, como este que me trouxe o choro que eu precisava para me consolar comigo:

SEMEIO SÓIS
e sons
na terra viva

afundo os
pés
no chão: semeio e
passo.

Não me importa a colheita.

Não se importar com a colheita. Contentar-se em semear. Clarice Lispector também escreveu algo parecido: “nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos.” É difícil. É triste. Mas parece que para mim só isto. Olhar para trás e apenas ver os frutos. Ver os outros desfrutarem do que semeei em suas vidas. E digo isso sem arrogância, digo como diria Tistu, o menino do dedo verde, só que sem sua inocência e sem sua alegria.

Sorrisos, amizades, paixões, amores, projetos. Arregaçar mais as pernas das calças, pisar mais fundo – para semear e para passos cada vez mais largos. Não tocar nos frutos. Não amar os frutos. Não se importar com a colheita. Consolar-se ainda que pela resignação e não mais sofrer, pois a travessia, ao menos, é fecunda. E meu nome, provavelmente, aciona à muitas lembranças caminhos com sóis e sons.

O filme iria começar...

Há dias em que anos se passam.




19.6.11

SINTO MUITO

O peso de sentir! O peso de ter que sentir!
Fernando Pessoa


É tão muito tantas coisas que sinto, que eu sinto muito por mim.  Numa entrevista que li, Millôr Fernandes, ao receber a pergunta: “como vai você, profundamente falando?”, respondeu : “vou profundamente, não sei de outro jeito”. Suponho que seja assim: por muito, diverso e constante, sentir não é coisa de se aprender.  Também eu vou profundamente por não saber de outro jeito. E é preciso se esforçar bastante para pagar o preço que se cobra. 

Às vezes há sentimentos, suaves ou sofridos, que se fazem enormemente em mim sem que no entanto eu lhes saiba nomear. Houve época em que busquei empatia nos outro para, quem sabe, lhes definir ou ao menos apontar a distância entre mim e sua compreensão. Nunca obtive resposta. Hoje, resta-me aceitar, como disse a Hilda Hilst, que os sentimentos vastos não têm nome.

Mas o meu nome, esqueço. Por isso, não raro, acontecem momentos como certa vez, numa rodoviária: “o meu nome é Filipe”, eu disse – a quem? – ao moço do guichê que havia perguntado para preencher minha passagem, ou a mim mesmo transparente, refletido no vidro do guichê que se interpunha entre nós? Ele anotou. Eu notei: às vezes era como não fosse – meu nome é Filipe. É que quando preciso me chamar, me chamo: Eu. A existência pede o nome. O nome nos circunscreve. Não há como fugir: meu nome faz: Eu.

Tudo é tão capaz de ferir. Toda luz, sobretudo a lucidez, é impiedosa. Perguntei a uma prima se a resistência que ela tem em deixar de lado em alguns momentos suas onipresentes lentes de contato e usar uns óculos desses tão bonitos e modernos que a gente encontra nas óticas tinha a ver com o fato de ela, quando criança, ter sido desde cedo obrigada a usá-los e, lamentavelmente, fazerem-na usar uns horríveis, que a enfeiava. Ela me respondeu que não, que não os usava porque está tão habituada às suas lentes – que jamais comportaram o grau alto que ela realmente necessita – de modo que quando põe os óculos – estes sim com grau certo – enxerga tudo tão bem que se sente tonta e nauseada. Sim, a maior parte de nós não suporta.

A consciência demais do ser, a excessiva vivência, é tão capaz de ferir, tão agressivamente real – real que nos despedaça. Numa das vésperas de um de meus aniversários – um ano a ganhar ou um que se perdia? Sentia-me tão cheio de vida que doía: pura vida magmática em estado pastoso. Telefonei para uma então amiga que entendia desses assuntos para perguntar o que fazer.  – Como é mesmo que se desperdiça a vida, vivendo demais ou de menos? Tenho poucas histórias para contar. Tenho boas histórias para contar. São melhores as de enredo triste e final feliz ou as de enredo feliz e final triste?

Cada um com sua preferência. Sei mesmo é que haverá mais histórias. Outras findarão. E eu sentirei todas, sentirei muito, sentirei bem, porque o que há de infinito nelas, nas coisas em geral e na própria vida, é a repercussão delas em nós. 

12.6.11

SOZINHO NO DIA DOS NAMORADOS

Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.
(não se sabe quem é o autor)


Hoje, no Brasil, convencionalmente, é dia dos namorados. Nos últimos dias antecedentes, ouvi um sem número de vezes, de várias pessoas, queixas, sérias ou em chiste, de sua condição de solteira. E até o fim do dia, sobretudo nas redes sociais, se acumularão postagens com lamentações.

Todos parecem concordar: por numerosos que sejam seus amigos, por melhor que seja sua relação com familiares, ter alguém para dar e dele receber o que entendemos por amor, é significativamente diferente. 

No entanto, a busca por alguém para dividir a vida, quando agravada com a ansiedade de quem enxerga nisso condição para felicidade e somada ao inevitável desastre de conciliá-la com o egocentrismo orgulhoso que assistimos em nossos tempos, se configura em resultados mais e mais frustrantes. 

Não é bom estar só. Eu, só que estou – encarando a solteirice de outra forma após uma única, mas duradoura experiência de um relacionamento – sei. Pequenas coisas que me eram alheias passaram a ter um outro significado e, não raro, me pego sentindo falta delas: me permitir perder cenas importantes de um filme no cinema para trocar um beijo, banhos quentes na madrugada depois do sexo, o sexo sem cobranças de corpo e performance, a vontade de dar presentes advinda da mais gratuita vontade de ver estampada na cara do outro aqueles minutos de alegria ao desembrulhar o pacote, me sentir reivindicado, dizer “eu te amo” sentindo a vibração de cada letra, entre tantas outras.

Dizem que é mais fácil para quem toma a iniciativa de terminar a relação se adaptar ao seu fim. Comigo não foi. Tudo se deu por tantas nuances não percebidas, sucessões de mal-entendidos, palavras importantíssimas que jamais puderam ser ditas e tanto tempo já passado, que não vem ao caso, agora, comentar.  O fato é que, chegada a hora em que percebi que extrapolei os limites da humildade e me encaminhava para humilhação na tentativa reverter o quadro (Nunca foste tão verdadeira / como nestes últimos dias de corajosa submissão. – mas esses dois versos da Hilda Hilst sempre me ajudaram a jamais me arrepender do que fiz), fiz o que há muito, mesmo antes do relacionamento, eu precisava fazer: escolher a mim. 

Foi definitivamente a experiência mais dolorida por que passei na vida até agora, pois, se essa não era a primeira vez que eu sofria por amor, foi a vez de unir o sofrimento emocional ao físico, somatizando reações e sintomas que agrediam meu corpo. Mas como quem precisa construir um edifício onde há uma velha e abandonada casa, não podendo assim simplesmente erigi-lo por cima, adentrei ao interior da casa, fucei seus avessos, cavei e quebrei os alicerces para novamente me reconstruir – sendo ainda cedo para dizer em definitivo, decerto pelo menos mais forte; ressignificando a mim mesmo e a minha solidão.

Durante o processo apareceram algumas pessoas que, a despeito de uma certa postura arredia em que me encontrava, me deram o carinho que eu precisava e outras que me prometeram amor, argumentando, por saberem de minha fragilidade no momento, que um amor se cura com outro. Propostas estas que tive que recusar, em respeito ao sentimento de tais pessoas (uma vez que eu não poderia lhes retribuir naquele momento) e, acima de tudo, a mim mesmo. – Tal antigos guerreiros trabalhavam a resistência de seu corpo a venenos ingerindo gradativas doses do mesmo veneno, eu decidi que precisava me curar do mal estar causado pela solidão não cedendo ao que parecia ser mais fácil, me mantendo só. 

Há sempre um tanto de desespero e fraqueza nas pessoas que engatam um relacionamento no outro. Elas se iludem com o suprimento de afeto oferecido pelo novo que vai amontoando em cima das ruinas do anterior, gerando uma espécie de vício que a arrasta para um buraco negro quando ela se vê sozinha. 

Sejamos religiosos ou não – mas educados num país de cultura fundamentada no cristianismo –, acredito que o velho mito de Adão e Eva embasa nossa ansiedade na busca de reunir o par de costelas que foi separado. Ludibriadas por discursos carregados de expressões como “metades da laranja”, “tampa da panela” e “almas gêmeas”, as pessoas não toleram mais qualquer ruído ou a mais leve assimetria no outro. O mundo de cada pessoa rivaliza em tamanho com o sol no qual ele orbita. Pois elas se sentem carentes, mas estão repletas de si, de ego e orgulho inflados, postulando suas regras baseadas em sua visão e experiências particulares – se você não as ama do jeito que elas esperam, então você não as ama. Não há perdão: o próximo!

Ano passado assisti a famosa encenação do Banquete, do Teatro Oficina do Zé Celso. Uma das cenas que mais me marcou foi a que mostrava os seres humanos, outrora reunidos, macho e fêmea num corpo só, mas agora separados e distintos os sexos, reivindicando aos deuses o retorno ao estado inicial, então Eros lhes esclarece que, voltando à condição anterior, beijos, abraços, carícias, sexo e tudo o que vem junto do amor não mais existiria. 

É simples: para formar um casal é preciso duas pessoas. E duas-pessoas é a união de uma pessoa e outra pessoa, cada uma com suas diferenças, visão de mundo, personalidade, preferências, maneira de sentir, defeitos (e aqui lembro da Clarice Lispector: “Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...”), etc. Como certeiramente disse Fernando Pessoa: “Se te é impossível viver só, nasceste escravo.” Não estaremos preparados para uma vida a dois se antes não aprendermos a ser sós. Lembrando novamente Clarice: “Amor é dar de presente ao outro a própria solidão. Pois é a última coisa que se pode dar de si.”

É simples, mas nem tudo o que é simples é fácil. Eu bem o sei. Mas aprendi. Aprendi sobretudo a aprender com isso. E hoje, mesmo só, sem companhia para cinema em tardes de domingo, sem transar sempre que quero, sem banhos quentes acompanhado, sem presentes ou sem presentear em datas como a de hoje, definitivamente, não me sinto carente. Ao contrário, sinto-me completo no que sou e totalmente desejoso em me melhorar mais como pessoa. Ainda que sofra costumeiramente com oscilações de auto estima, há em mim, ao lado da severidade com que me julgo e da dificuldade de me perdoar de minhas limitações e até mesmo do que simplesmente jamais serei, a certeza do que tenho em mim de bom. Sei de minhas qualidades, de minhas capacidades, da bondade que há nos meus atos e, acima de tudo, sei que nasci para o amor, que é dele que sou feito e por ele pacientemente espero, pois estou pronto como nunca estive.

28.4.11

PARECE COM A VIDA

Saí de casa apressado, faltava menos de meia hora para a sessão do cinema começar e eu ainda precisava tomar o ônibus. Ao chegar na parada, só me restavam vinte minutos. O trânsito estava lento e depois de cinco minutos de espera impaciente, resolvi não desperdiçar a disposição que havia me feito decidir ver o filme sozinho, me arrumado e já estar ali: decidi tomar um táxi.

Não precisei sinalizar – o motorista do táxi que passava de alguma forma entendeu, ao me ver olhar para ele, que eu precisava do seu serviço e fez um gesto interrogativo com a cabeça. Como eu sinalizei que sim, ele parou um pouco mais à frente de onde eu estava.

– Desculpe ter feito o senhor caminhar, mas como eu vinha na outra faixa e com esse trânsito, só consegui parar aqui.

– Não tem problema algum, mas preciso chegar ao cinema da Fundação Joaquim Nabuco em dez minutos, no máximo, você acha que consegue?

– Pois fique tranquilo, em dez minutos você vai estar lá. Vai ver que filme?

– Poesia – falei meio vacilante, com uma ponta de vergonha em assumir para aquele taxista que o filme que eu estava com essa urgência em ver era sobre poesia, essa coisa que hoje em dia quase ninguém mais lê e que, pensei, provavelmente na vida de taxista dele fosse supérflua.

– Estou com um poeta no meu carro?

– Não, não – sorri – sou só um estudante de Letras.

– Pois eu agora sou poeta.

– Ah, é?

– Sim, como acho que todo mundo se torna quando está amando.

Olhei para ele com mais atenção: cinquentão, não era exatamente bonito, mas estava longe de ser um homem feio, alto, robusto, não parecia jamais, à primeira vista, ser do tipo que confessaria algo assim de maneira tão espontânea a um desconhecido. Mas continuou:

– É que como diz uma música que conheço, taxista nunca termina de contar uma história e passageiro fica sem entender, senão lhe contaria o que estou passando.

– Entendo...

– Mas, olhe, fui casado por vinte anos, nunca disse um “eu te amo” para minha ex-mulher. Com essa agora é diferente, eu sinto muita vontade de dizer e digo. Nossa história está complicada ainda, não estamos juntos e nem sei quando vamos ficar, mas eu digo que a amo sem esperar nada em troca.

– Legal isso, não é todo homem que tem essa coragem.

– Pois é, eu vou tentar resumir rápido para você...

Então brevemente me contou a história. Pelo que pude entender, ele conheceu essa mulher antes da que se tornou sua esposa. Ficaram algumas vezes sem compromisso. Embora desde então ele já tenha se interessado de verdade por ela. Depois de alguns meses sem se verem, ele a encontrou grávida. Perguntou-lhe de quem era o filho e ela, mulher livre que era, disse não saber. Ele se ofereceu para assumir a criança, mas ela não quis, estava de viagem marcada para algum lugar da Europa. Depois disso, cada um seguiu um rumo. Ele casou, passou um par de décadas com a esposa e há dois anos se separou. Recentemente encontrou a mulher do passado, com o filho, agora com vinte e três anos. Ela lhe confessou ter quase certeza que o rapaz é filho dele, fizeram teste de DNA e deu positivo. Ela também esteve casada, o ex-marido era muito agressivo, batia nela, no filho e agora, mesmo separados, ele ainda inferniza a vida dela, sem deixar-lhe ter mais nenhum relacionamento, ameaçando-lhe até de morte, o que a deixa com muito medo. É o que os dois buscam resolver para enfim ficarem juntos.

Achei interessante a história, com peripércias, desencontros, reencontros, contada à sua maneira de homem apaixonado. E em menos tempo ainda, já que estávamos bem próximos de onde eu desceria, contei para ele uma história que aconteceu com pessoas próximas, também cheia de elementos de folhetim, mas triste, sem amor ou reencontros no fim. Ele ficou curioso, me fez algumas perguntas, mas havíamos chegado e ao inverso do que diz a música que ele gosta, o passageiro precisava descer e o taxista ficou sem entender tudo.  Enquanto pagava, falei o que comumente se diz ao ouvirmos histórias do tipo:

– É, rapaz, acontece cada coisa na vida que parece filme ou novela...

 Suspirando ele respondeu:

– Parece com a vida.

15.8.10

QUINZE DE AGOSTO DE DOIS MIL E DEZ

Remexendo em um antigo caderno de anotações, reencontro uns escritos que, embora não lembrasse onde estavam, jamais havia esquecido do conteúdo. Porque quando eles me aconteceram, quando eu os senti, vieram como as coisas mais bonitas jamais escritas ou lidas por mim. Não anotei com nomes ou sexo de personagens. Pois independente de quaisquer que sejam seus protagonistas, continuaria bonito.

TRECHO I
Personagem1 estava no hotel dormindo. Havia saindo na noite anterior com o Personagem2 e havia sido muito bom. Queriam ter dormido juntos para aproveitar melhor o pouco tempo juntos já que não moravam na mesma cidade, mas o amor entre os dois ainda era descoberta e segredo. Personagem2 não teria como explicar a seus pais uma noite inteira fora de casa. Personagem1 não insistira, estava cheio de medos e suas fragilidades lhe perturbavam. Sabia que ainda não estava envolvido por Pernagem2 como estava por ele. Mas há muito ninguém lhe parecia valer tanto a pena. Acordou meio que de sobressalto, com batidas na porta de seu quarto. A recepção na havia anunciado ninguém. Ainda era tão cedo. Quem seria? Abriu a porta, sonolento.
 
– Personagem2??!! Já acordou? Você nem deve ter dormido, né?
 
– Não consegui não, estava esperando que amanhecesse logo para sair de casa e vim para cá. – respondeu respirando forte, quase sem fôlego.
 
– E o que aconteceu, por que você está assim, ofegante, aconteceu algo?
 
– É que eu vim de casa para cá andando, você sabe, não é longe. Mas daí eu vi que se eu apenas andasse ia perder um tempo que eu poderia estar aqui contigo, então vim correndo.
 
Personagem1 não conseguiu dizer nada. Apenas abraçou-lhe e beijou-lhe num misto de encantamento e gratidão. Nunca ninguém havia lhe feito algo tão bonito.


TRECHO II
Dois anos havia se passado. O amor dos dois não era mais segredo para ninguém. Mas Personagem1 havia escolhido aquele mesmo quarto de hotel para se encontrarem. Estavam em crise. Ele não conseguia entender por que Personagem2 estava tão intolerante. Sobretudo agora que, vencendo grande parte de seus bloqueios, tinha certeza do amor que devotava a ele(a). Não avisou a ninguém que viria. Durante o dia haviam apenas se entregado um ao outro num sexo de saudades. Mas era preciso uma conversa.  Personagem2 falava com um tom de irritação, usando verbos no passado e dizia não agüentar mais. Personagem1, segurando o choro, perguntou: 

– Então não dá mais para tocar a nossa música? – referia-se a Unison, música da Björk, que eles tanto gostavam.
 
Durante muito tempo ficaram em silêncio, até que Personagem2, também com voz de choro, responde:
 
– Dá sim, ainda dá sim para tocar a nossa música.
 
Abraçaram-se. Personagem2 por cima de Personagem1, deitados.
 
– É amor, eu te amo, isso é amor, você sente? – perguntou Personagem1, dizendo aquilo como jamais havia dito antes a ele(a) ou a ninguém.
 
– Sinto, sinto sim.
 
Personagem1 estava feliz como mesmo antes de conhecer Personagem2 não se sentia. Então amaram-se de novo.


Juro que já tentei inserir esses dois trechos numa história que eu vinha escrevendo. Não deu certo. Como já disse aqui em uma outra postagem, não sou bom escritor. Não consegui dar um final feliz à história. E eu não quero, não quero mesmo dar a essas duas passagens tão bonitas que me vieram em dias de inspiração um final infeliz. Prefiro então deixá-las assim, fragmentadas. E cada um que as ler, que recriem com elas histórias em dias de sol e com pessoas de belos sorrisos sorrindo. Principalmente no fim.

6.8.10

TECENDO O LUTO

“O manto é longo, a fazenda é pesada, cheia de risos e boas lembranças que hoje causam dor, mas é necessário tecê-la, vivê-la, chorá-la para depois, como tudo que está sob o tempo, dobrá-la e guardá-la num canto da alma que nos lembra sempre que a proporção da dor do luto é a mesma que o prazer no qual foi vivida aquela história.”
 (Afonso Henrique Novaes)

"Para poder morrer
 Guardo insultos e agulhas
 Entre as sedas do luto."
(Hilda Hilst)

Embora não tivesse aberto os olhos ainda, ela já havia acordado. Por ser tão primeira hora da manhã, a luz do sol parecia não ser feita para outra coisa senão clarear o mundo. – As cortinas estavam abertas: não abrira os olhos, mas sentia a luz por cima das pálpebras, por cima do corpo; sem calor, apenas a leve e delicadíssima presença do que, apesar de impalpável, existe.

Amanhecia, mas este novo dia parecia que não seria diferente dos outros exaustivos daquele outono: imediatamente lembranças e pensamentos angustiantes se encarregavam de lhe tirar o torpor de um sono perturbado, conseguido a custo em meio à insônia que os mesmos pensamentos e lembranças provocavam. Sabendo no que isso resultaria tentou então fazer mais uma vez o que instintivamente aprendera: respirar profundamente – inflar totalmente os pulmões, prender o ar até onde suportasse, depois soltar lenta mas completamente; repetindo isso incontáveis vezes. Já haviam lhe dito que ela não sabia respirar – era mesmo possível que alguém que vive não soubesse? – e a sôfrega força que precisava empregar naquele ato parecia confirmar que era verdade o que diziam. O excesso de oxigênio lhe deixava internamente aquecida. Sentia uma espécie de tontura que lhe dissipava todas as idéias e, por alguns instantes, tinha a impressão de que tudo estava bem. – Pois se não conseguia calar os pensamentos, tê-los difusos ao menos era tolerável. Apesar de muda e imóvel, a luta consigo mesma a deixou ainda mais esgotada e, por mais alguns minutos, ela adormeceu.

Entretanto, sua mente não lhe dava trégua. E desta vez sonhos que reprisavam e recriavam cenas daquela noite em que só lhe restou calar apesar das tantas coisas que tinha para dizer lhe fizeram despertar já com a tosse característica que principiava a agonia a seguir. Tossia, tossia, tossia. Peito ardente, arfante. Ar desencontrando-se na garganta. Náusea. Agora seria inútil lutar: esticou a cabeça para fora da cama e quase a enfiou no balde de zinco que prevenidamente vinha deixando próximo à cabeceira. Contrações fortes de vômito queriam expulsar com violência o que havia dentro de si, lhe virar do avesso. Mas nada saía, a não ser sons altos de engulhos que ela intimamente sabia serem deformidades dos sons de todas as suas palavras humildes, remitivas, redentoras, benfazejas que, por não terem sido ditas, foram forçadamente engolidas, contaminadas com frustrações e decepções, lhe causando esta espécie de indigestão que perdurava por quase dois meses.

Levantou-se vacilante. Foi até a cozinha, acendeu o fogo e sobre ele pousou uma escura chaleira de ágata com água. Enquanto esperava a fervura, moeu alguns grãos de café torrados naquela semana. Mastigava pedaços de pão dormido que rasgava com os dedos. Estava desabituada a perceber, mas tinha fome. O cheiro quente da bebida adentrou o nariz organizando-lhe o estômago. A sensação de náusea então se aquietou. O cheiro evocava-o. Ele que costumava esfregar café nas mãos quando não se convencia de que elas estavam livres do cheiro do couro que punha para curtir dos bichos que caçava. Sugava o café aspirando também o ar que o esfriava no mesmo instante em que engolia, fazendo barulho, impaciente.

Na velha e larga tina de cedro, preparou um banho com folhas de manjericão. Despiu-se e sentou-se reclinando as costas na borda. A água estava quente demais, mas procurou não se importar. Tentava concentrar-se no cheiro vaporoso que tomava conta do ambiente. Sentia o rosto e o pescoço, livre dos cabelos presos no alto da cabeça, suarem. O bico dos seios e o sexo levemente ardiam na temperatura da água e havia um misto de incômodo e prazer manso nisso. Passeava as mãos pelas pernas. Balançava para frente e para trás o corpo, vagarosamente. Precisava relaxar. Mas imagens dos banhos que haviam tomado juntos, sobretudo os das madrugadas que adentravam amando-se, se interpunham entre a visão da parede nua a sua frente. Ensaboavam-se até ficarem brancos de espuma, escorregadios; abraçavam-se com braços e mãos deslizando sem atrito nos corpos; beijavam-se com beijos que já principiavam molhados – e quase sempre o desejo se reacendia e novamente se amavam, líquidos, fluentes.

Ela queria também ter lhe falado dos banhos, mas não pôde... A náusea se anunciou novamente em forma de tosse. Respirava. Respirava. O manjericão lhe facilitava a tarefa. E engoliu de volta um engulho que se esboçou sair. Mas a ansiedade voltara. Suas têmporas latejavam. Deixou-se escorregar devagar, mergulhando inteiramente por quase um completo minuto dentro d’água. Emergiu com os cabelos soltos, caídos no rosto que formigava, pesando nos olhos que mantivera fechados: desabou no choro, rendida. Não procurou se conter, não havia por que se conter – chorou desenfreadamente. As lágrimas molhavam o banho; misturando-se àquela infusão dela mesma, salgando-lhe. Sentia-se sufocada ante a consciência que sempre tivera de que não sabia manter boas relações com o seu passado. Precisava arrumar meios de, se não esquecer, ao menos conviver com as lembranças. Depois de algum tempo as lágrimas cessaram. Com as mãos em concha levou um pouco de água ao rosto e lavou os olhos. Levantou-se. Esticou o braço para abrir a porta de uma arca onde guardava lençóis e roupas de banho. Puxou uma toalha e o movimento fez cair no chão o manto.

Enxuta, vestida numa leve combinação de cetim, estendeu o manto por sobre a cama até ao longo do chão. O fez sem muito pensar, movida pelo súbito reencontro com aquela peça que havia desesperadamente guardado desde o rompimento. Muitas e muitas vezes, acometida pelas recordações que lhe perturbavam, sentira intensa vontade de fazer o que agora, com coragem encontrada não sabia onde, estava fazendo. Mas aquele manto era justamente a única coisa que ela, firme, vinha conseguindo evitar todo esse tempo. A não ser por um minguado cheiro de guardado, estava como da última vez que o vira.  Longuíssimo, com sua trama de linhas, trabalhado em bordados – ela o olhava, perscrutando, analisando como se não houvesse sido ela mesma, fio a fio, sua artesã. Tantas eram as imagens, tantos eram os signos, mapas, poemas, receitas, tantas eram as frases, pedidos, perguntas, promessas, juras, todos gravados ao longo dos anos em sua extensão. Nódoas de doces, de sexo, respingos de sangue. Remendos, emendas. E na extremidade que ainda se fazia, a que ela arrancou com força, quase quebrando o tear, insultos, furos, franjas irregulares feitas pelo desfiar do desgaste. De que lhe serviria aqueles vastos metros de tecido agora? Eram a materialização dos fantasmas que lhe assombravam. O corpo de um amor que morria. O que não se podia era morrer também. Era preciso fazer algo. E intuitivamente, como a lagarta que pára de comer em sua infinita fome para enrijecer-se na pupa em que se transformará para uma nova vida, ela de repente soube o quê.

Arrastou o manto até a sala, sentou-se numa rangente cadeira de balanço e, munida de uma fina agulha de crochê e tesoura, pôs-se a desfiá-lo. Desentrelaçava cuidadosamente cada fio e desfazia os bordados. Levou longas horas nisso. Fazia-o não sem dor, mas com gestos decididos. Sabia que suas mágoas não sarariam depois daquilo – a ação do tempo é a única força capaz de erodir sentimentos. Entretanto, se era inevitável o sofrimento, que ele não jorrasse incontido, lhe consumindo. Sofreria bem – apenas. Ao terminar, o chão estava repleto de linhas que se amontoavam numa bucha disforme. Aquilo lhe fez lembrar do dia em que ao entrar em casa, depois de algum tempo lá fora tosquiando as ovelhas, ela se deparara com o chão da sala invadido por mechas e cachos dos cabelos dele. Cabelos que ela insistira exaustivamente que ele não levasse adiante a idéia de cortá-los. Cabelos que haviam sido umas das primeiras coisas que lhe chamou a atenção nele. Não havia ficado feio com os cabelos curtos, mas já havia algum tempo ela entendera que aquele gesto dele fora, de alguma maneira, símbolo de sua alteração de modos e maneiras para com ela. Aquele havia sido seu primeiro gesto entre outros tantos mais insolentes, ofensivos e grosseiros que se seguiram ao longo do último ano. Acima do espelho da penteadeira ela ainda guardava, amarrado em uma fita, um dos cachos que colheu do chão.

Em dois cestos carregou aquele sem fim de fios para o quintal. Acendeu uma vigorosa fogueira cercada de pedras e, acima das pedras, depositou um pesado caldeirão de estanho cheio de um preparado com pigmento negro. Cozia mechas que saiam desfibriladas da fervura e as juntava cuidadosamente para não engrenharem, estendendo-as no varal, ao sol que ainda se fazia forte. Secavam rápido. Não demorou, seu quaradouro flamulava fibras escuras, sibilantes, que ela colhia reorganizando em mechas maiores, presas com um nó frouxo numa das pontas.
Depois, a roca. Deslizando pela roda, as fibras eram torcidas refazendo-se em fio. Enrolavam-se num novelo no fuso que girava ligeiramente. O zumbido do fuso junto com o estalar do pedal invadiam a casa. Ele costumava sempre reclamar do barulho da roca, pois ela sempre costumava fiar pela manhã, quando as maçarocas de fibras pareciam mais firmes e ele dormia preguiçosamente em dias que não tinha obrigações matinais. Dizia que ainda lhe daria uma roca nova para dormir em paz.

As linhas eram guiadas pelos seus dedos, que apesar de terem as laterais engrossadas com o calejar do ofício, estavam sendo marcados por finos cortes que doíam e sangravam. Mas ela não parava. Às vezes chupava os dedos limpando-os, em outros momentos deixava que o fio levasse o sangue ao novelo. Parecia estar numa espécie de transe provocado pelo barulho da roca. Insolente. Ofendida. O novelo ganhava mais e mais forma. Parecia um enorme casulo de onde poderia sair um inseto peçonhento. E assim foi, entrando na noite que desceu sem estrelas e sem lua, passando por quase ela inteira, parando apenas quando não havia mais fibra para fiar. Então lavou as mãos com sumo de ervas cicatrizantes, envolveu os dedos em tiras de panos embebidos em ungüento e comeu algumas frutas que estavam sobre a mesa.

Fazia frio. Embrulhou-se num enorme xale que havia sido de sua mãe.  Não tinha sono, mas desta vez a razão não era apenas a insônia que vinha lhe minando. A ansiedade maior daquela noite era motivada por terminar o que havia começado. Como se não bastassem as velas já acesas, acendeu as lamparinas. As mesmas que costumavam ficar acesas durante a noite inteira quando ele voltava acabrunhado das eventuais brigas sem sentindo que travavam. Havia sempre pão e vinho em tais ocasiões.  Falavam apenas o necessário. O amor na reconciliação era sempre mais ardente, recompensando os corpos depois de alguns dias de solidão.

Sentada de frente para o tear – o resistente tear que há anos lhe auxiliava na confecção dos tecidos e tramas, delicados tecidos que secretamente carregavam também a história das pessoas que os encomendavam; que suportou sua violência no dia em que, enervada, arrancou o manto abruptamente de suas hastes. – Sentada de frente para o tear, tranquilamente esticou os fios pelos ganchos formando a urdidura, arrumou as barras e as lançadeiras. Olhava concentrada, solene, como se estivesse pronta para um discurso. Passou os dedos levemente sobre as linhas negras que se dispunham verticalmente como se tocasse uma harpa. Respirou por algum tempo, lenta, mas profundamente, como a garantir que a náusea não voltasse. E começou.

Com as lançadeiras entrelaçando a trama da urdidura, barras em sobe-e-desce, os primeiros centímetros do tecido iam se fazendo. À sua mente lhe voltavam com nitidez toda uma compilação de bons momentos compartilhados com ele. Os olhos marejavam e escorriam a cada piscada, num choro sem soluços. Ele não quis lhe escutar e a isso ela acreditava jamais conseguir perdoar. Ela que mesmo tendo tido a iniciativa de afastar-se dele – exaurida de injúrias, descrente – havia deixado as portas abertas, porque sabia que ele em alguns momentos precisaria lhe falar. Aquele homem que apesar de grande e hirsuto ainda tinha em si muito do garotinho que outrora fora.

E ele veio algumas vezes, principalmente à noite.  Ela quase sempre o recebia mais mãe que amante. O ouvia, atendia alguns de seus pedidos, recusava outros. Poucos foram os momentos em que se viu obrigada a ser rude ou perdeu a paciência. Esperou estoicamente que ele lhe desse quaisquer indícios de que realmente ainda havia amor, que sua insistência e choro não eram mero capricho de posse. Ele não sabia lutar por ela. – Ela que não necessariamente esperava que ele empreendesse alguma luta, mas que em algum canto de si sabia que se fosse tomada a força em seus braços, reivindicada, talvez reconhecesse o que antes ele podia ser e renovasse as certezas de seu amor. Ela precisava de tantas coisas.

Em épocas antes de conhecê-lo havia sido mortalmente ferida em seus sentimentos. Por isso julgava ser uma pessoa estragada. Ele havia sido o único que conseguira tirá-la da indolência em que por muito tempo esteve mergulhada. Mas no último ano ele mesmo fora responsável por fazê-la sentir toda uma sorte de coisas ruins que a custo havia esquecido. No entanto, breves dias de separação, curtas experiências com outros a quem ela precisou aplacar as febres do corpo, impossíveis cruzares de destinos e manhãs de silêncio bastaram para que ela em maravilhosa boa nova descobrisse que seu tempo havia chegado; que definitivamente não era a pessoa estragada que julgava ser – mas machucada, e que seu frescor havia retornado, lhe curando. Foi por isso que, mesmo incerta sobre se ainda dariam certo, se mesmo o amor que tinha por ele ainda era suficiente, ela quis procurá-lo. Seria preciso tentar.

Encontrou-o junto de outra, estranha, longe do que ela pensava ser o tipo de mulher que ele desejava. Mas não se importara, afinal, sabia que ele também precisava aplacar seus desejos. Havia ido lá por algo maior que julgava haver ainda entre os dois – tantas foram as promessas, tantas foram as juras. Tanto era o que ela planejava para os dois agora que sabia que podia ser-lhe completa. Não podia entregar este amor a outro. Era dele, era para ele. Porém, ele não quis lhe ouvir. Ela insistiu, em corajosa submissão, pois em nome do que reconhecia poder amá-lo nessa retomada de si, valeria a pena. Mas ele não quis lhe ouvir.

Ela ainda continuou a dormir com as portas abertas por algum tempo, acreditando que ele pudesse vir, que, em nome dos anos que viveram, ele ao menos estivesse curioso em saber o que ela tinha para lhe dizer. – Não iria lhe obrigar a nada. Não conseguiria obrigá-lo a nada. O que ela tinha para ele jamais poderia ser por obrigação. Contudo, precisava lhe fazer saber. Mas ele nunca lhe quis ouvir, sobretudo porque estava com a tal estranha não apenas para amenizar seus desejos; era para ela que agora ele fazia suas juras, era para ela que agora ele dedicava o seu amor. E para si só lhe restou engolir tudo de volta. – O que lhe revirava todos os dias o estômago e lhe punha em contrações diárias de vômito. Mas agora, com o tecido roçando em seus dedos, alongando-se com o trabalho de suas mãos, ela percebia que poderia deixar ali nas vagas da urdidura, enlaçados com a linha guiada pelas lançadeiras. De alguma forma sentia-se mais leve.

Lembrou-se que haviam lhe contado que em alguma parte do mundo pessoas acreditavam em três deusas, como ela, fiandeiras: uma muito velha, guarda o passado sempre olhando para trás por sobre os ombros; a outra, uma jovem mãe, responsável pelo presente; a última, uma virgem encarapuçada, que carrega um pergaminho com os segredos do futuro.  Em silêncio e sem fé, pedia-lhes por si: à velha, que não olhasse tanto para trás; à mãe, que lhe embalasse e alimentasse; à virgem, que deixasse que o tempo sempre viesse. O sol chegou sem ser percebido. A tarde estava prestes a tomar o lugar da manhã quando ela finalmente terminou de tecer.

Embora não tanto quanto o anterior, o novo manto também era longo, mais grosso e pesado. Depois de um novo banho e de alimentar-se, ainda nua ela envolveu-se nele e deixou-se cair na cama, de puro esgotamento, num sono profundo, sem sonhos.

Não demorou muito o inverno chegou. E com ele o frio que aumentava suas saudades, os pedidos de seu corpo que ainda o desejava e a solidão. Recebia algumas visitas rápidas. Nunca saía. Agora sentia mais fome, se alimentava com caldos fortes e quentes, com carnes, peixes e sempre tinha pão. As noites eram irregulares: algumas conseguia dormir, outras, atravessava em claro, sentada, lutando com seus pensamentos. As náuseas haviam diminuído, mas ainda lhe incomodavam em algumas recaídas que lhe acometiam e parecia que ia desesperar. Fazia muito frio.  Então aninhava-se no manto negro.

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Em uma manhã, através de frestas da janela, o sol incidiu forte em seu corpo seminu, abandonado no remexer da noite da coberta escura. O calor, embora suave, lhe fez despertar e a primeira coisa que ela viu foram borboletas que ziguezagueavam dentro do quarto. Depois de duas noites povoada de sonhos ruins, nessa última havia dormido bem, mas não sabia responder a si mesma como se sentia naquele instante. Levantou-se. Bebeu um pouco de água da jarra da cozinha, lavou o rosto e abriu a porta da frente, sumariamente vestida como estava. As nuvens estavam bem dispersas, mas parecia ter chovido na madrugada. O cheiro de terra molhada misturado ao do húmus confirmavam a primavera que se abria. Era notável a quantidade de flores que se destacavam com suas diversas cores no verde das pastagens. Ela desceu do batente de pedra, pisou os pés descalços na grama e pôs-se a caminhar ao redor da casa.

Naquela nova primavera as ovelhas estavam cobertas de lã. Os algodoeiros estavam brancos, brancos, esperando serem colhidos. As linhaças estavam agora gordas de fibras. E em algum lugar, decerto não longe dali, amoreiras nutriam com suas folhas larvas que em breve formariam casulos repletos de fios de seda.

16.6.10

PARA JOSEILDO AUSENTE

(...) você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.

(Manuel Bandeira)



Anunciaram seu triste e derradeiro ato. Meus olhos (de relance – quero só os teus sorrisos na lembrança), meus ouvidos testemunharam: A alma profunda, ainda não. Por isso não sinto agora a sua falta. Mas sei bem que ela virá (o Tempo é insistente). Vai ser assim: toda vez que tiver novidades vou querer te ligar, como era tão certo fazer – você rindo e dizendo adorar minhas histórias malucas – mas o telefone não atenderá mais. Virei ao Recife, você não virá me ver. Ainda não sinto sua falta, meu amigo (é sempre assim quando o ausente parte sem se despedir: você não se despediu, e nem disse a mim nem a ninguém os seus exatos motivos); mas irei ao Cinema da Fundação, sentarei para um café e facilmente me virá à mente aquele dia em que fomos para lá e eu insistentemente lhe repetia o quando você estava bonito com aquele cabelo e aquela barba. Alguém me perguntará em que estou pensando, sorrirei sem dizer que em você, profundamente.

Você não se despediu, mas muita gente esteve lá para te dizer adeus, para te chorar, esperançosas de uma explicação. Você não disse nada a ninguém. Quem te decepcionou? Sei que o que te angustiava eu provavelmente não pudesse resolver, mas imagino que cada passo que você deu na longa distância que percorreu até chegar em casa fez sua agonia retumbar cada vez mais alto. E pelo menos nisso, meu caro, qualquer um de nós que te amamos estaríamos dispostos e poderíamos de alguma forma resolver. Não tenho carro, mas você poderia ter ligado para que eu te ajudasse a chegar em casa. Imagino teus pés cansados... você que se dizia cansado de esperar o que se vê nos filmes e livros. Sua vida não era só sua, nós que te amamos também éramos donos dela. Mas não te repreenderei. Todos nós temos direito de desistir e de gritar. O teu grito foi ouvido por aqueles que te ofenderam, eu tenho certeza.

Há muitas flores onde escolheram para te devolver à Terra, árvores também. Bonito o local. Chovia, porque todos nós não daríamos conta de chorar a dor do momento. Sua mãe não quis guarda-chuva – entendo ela que precisava banhar-se nas grandes águas de que fala a Hilda Hilst. Mas sua cunhada levava o guarda-chuva colorido que Guigui lhe deixou e com o qual você tirou fotos lindas na Sé. Ainda te choro e não tentarei me conter até que chore tudo o que tiver de chorar. No entanto me conforta lembrar da última vez que nos vimos: quando nos despedimos te dei um beijo enquanto te abraçava e disse: te amo, meu amigo Joseildo. Era a mais pura verdade, você, sensível, eu sei que acreditava. Por isso não sinto agora a sua falta...

16.3.10

PRESENTES QUE SALVAM

Ah, por que este mundo é tão grande e Paris fica tão longe? Por que o serviço dos correios neste país é tão ruim? Para que um carnaval no meio disso tudo só para atrapalhar ainda mais?

Hoje, somente hoje, chegou aqui em casa um presente de aniversário que um amigo muitíssimo querido me enviou – como atesta a data de carimbo de postagem – desde o dia oito de fevereiro lá de Paris, onde ele tem vivido há algum tempo. Quatro dias eram o bastante para um avião, um carro e um carteiro, todos correndo, me trazerem o pacote que, se houvesse chegado naquele dia doze, teria me salvado desse que foi o aniversário mais infeliz que já tive na vida. Quatro dias bastavam! Mas só hoje chegou...

Nada materialmente caro ou raro continha o embrulho: uma carta, três cartões postais, um marcador de livro, um chaveiro com formato da França, uma bandeirinha francesa, três latinhas de balas e um pequeno realejo.

Pois foi esse realejo, uma caixinha cilíndrica com um delicado mecanismo à corda, o que primeiro me saltou aos olhos em meio àqueles despretensiosos tesouros. Girei a manivelinha sem saber que música tocaria e, para minha surpresa, com a doçura que somente um realejo pode imprimir a uma música já tão doce, escuto La Valse D’amellie. Naquele exato momento eu me transformei no próprio Dominique Bredoteau abrindo sua caixinha. Para onde fui transportado? Não sei dizer. Não foram momentos bem específicos. Era somente sentimento. Emoções dessas que não se acabam; que estão sempre a repercutir basta que qualquer centelha de passado as evoquem. O que é suficiente, pois quero que permaneça em mim essa capacidade de sentir e me emocionar independente de épocas e pessoas – toda essa intransitividade. Chorei de pura beleza, e, cada vez que giro a pequena manivela, volto a chorar. É doce e melancólica a música, sobretudo assim em realejo.

Duas das latinhas de balas são sabor rosa a outra é de menta. Abri uma das de rosa e provei: é como se cheirássemos exageradamente as pétalas da flor e o cheiro errasse o caminho dos pulmões e fosse para o estômago. Então você floresce por dentro por alguns instantes. E enquanto duram tais instantes me sinto consolado pela antiga e inconsolável frustração de um dia terem me impedido de colher uma rosa que nasceu de mim.

A carta que ele escreveu diz assim: “Meu Ruivo Lindo, Pensei em te mandar um pouco do mundo, para ver se te encorajo a me visitar. Sim, um presente com segundas intenções! Um pouco de Paris, de Bruxelas e Amsterdam, três lugares que com certeza você iria gostar muito de visitar. Mas pros teus 28 anos não te desejo somente um pouco do mundo, desejo ele inteirinho para você. E que ele venha cheio de poesia! Te amo. Manoel Júnior”. Dois postais são de Amsterdam e o outro de Bruxelas. Num dos de Amsterdam, com a imagem de uma tela de Van Gogh, ele disse assim: “Lembrar de você em Amsterdam é algo inevitável. A palavra ‘liberdade’ ganha um novo conceito nessa cidade e os museus têm algo de mágico, inexplicável. Liberdade + Magia = Filipe Bezerra.”

Júnior, meu amarelo, você que é tão valioso quando essa cor, nem a melancolia que a vida, ingrata que é, lhe deu consegue encobrir o quanto você resplandece nesse tom. Seu presente, embora tenha chegado tarde demais para me salvar do dia que o motivou, me trouxe, assim como a caixinha do Dominique Bredoteau trouxe para ele, a vontade de ser melhor para mim mesmo. Vontade de retomar coisas que eu havia deixado de lado para tentar viver uma outra vida que tenho entendido cada vez mais não ser para mim. Temos aprendido tanto, não é mesmo, meu amigo? E é lamentável que o conhecimento não traga felicidade. Mas estamos cada vez mais preparados. Seu presente não foi o único que me chegou atrasado. Afonso também só recentemente me deu um livro de poemas da Hilda Hilst. Na dedicatória assim ele escreveu: “Deus existe... na poesia”. Sim, Afonso que sempre tem razão está novamente certo. É na poesia que Deus pode existir na forma como eu fui feito para crer nele. Que o mundo venha até nós repleto de poesia. Que o Deus que nela habita nos abençoe e nos guie. Estamos cada vez mais preparados.

21.2.10

PIERROT

(crônica elegíaca de carnaval com versos emprestados do Carnaval de Manuel Bandeira)

– O meu Carnaval sem nenhuma alegria!...
(Manuel Bandeira)


Pois é, todos os caminhos levam à Roma. Por isso não se enganem aqueles que acham que podem mudar desfecho de uma história ambientada na Itália. A Literatura, o Cinema e o Teatro até hoje tentam um outro fim para Romeu e Julieta. Mas, vos pergunto: se se pode chamar Romeu e Julieta a tragédia em que o rapaz, ao encontrar sua amada desacordada, não bebe o resto do veneno; e a moça, ao ver morto o rapaz, não atravessa o ventre com a espada dele?

Mesmo os escolarizados na Comédia Dell’arte – quase sem texto, tão dada ao improviso – percorrem o mais variados percursos, embaralham a trama, criam inúmeras peripérciais, mas não têm como fugir: no carnaval, o Pierrot, no fim, chorará por não ficar com o amor da Colombina.

Mas eu – eu! –, que como o Bandeira, quis imitar Schumann e fazer um carnaval cheio de amor, tentei dar ao sonhador Pierrot um carnaval em que a quarta-feira não tivesse cor e sabor de cinza.

Começou assim: o Pierrot, que já conhecia a Colombina de outros carnavais, estava como quase sempre está, triste, pois a Colombina, teimosa e ciumenta que é, vinha o maltratando, fazendo o pobre sofrer de remorso por ter aceitado uns beijos de uma outra moça que o quis consolar nuns dias em que, num assomo de amor-próprio, resolveu tentar não mais saber da Colombina que andava muito caprichosa e briguenta com ele.

Mas quem disse que ele conseguiu? De Colombina o infantil borzeguim Pierrot aperta a chorar de saudade. Não foi por ser bobo ou gostar de sofrer. É que o coitado ama de verdade e não tem mágoa que não passe quando se ama assim. Então, naquele carnaval, todo desejoso de ser feliz, nem pôs na cara alvaiade, nem carmim, nem lágrima. Vestiu seu traje inconsútil e entre a turba grosseira e fútil passou a procurar a amada para lhe dizer coisas de amor, pedir desculpas sem ter culpa e depois seus beijos.

Um céu estrelado explodia resquícios de saudades...

Não a encontrava. Quem viu a Colombina, quem viu? E a alegria alheia das misteriosas máscaras, o torvelinho das serpentinas e as marchinhas nostálgicas faziam as ruas e pontes de Veneza parecerem um letargo insano e exaustivo. O seu delírio manso agrupa atrás dele os maus e basbaques. Este o indigita, este outro o apupa... Indiferente a tais ataques ele seguia de coração cheio de esperança.

Até que, oh!, Pierrot, me desculpe não ter conseguido, sou mesmo um péssimo escritor: lá estava a Colombina beijando o Arlequim. De peito estraçalhado o Pierrot acena chamando a Colombina pro canto. O Arlequim percebe e dele ri. Ela vem melindrosa, vingativa:

– Que queres tu?

Torna o meu leito, Colombina! Não procures em outros braços os requintes em que se afina a volúpia dos meus abraços. Os atletas poderão dar-te o amor próximo das sevícias... Só eu possuo a ingênua arte das indefiníveis carícias... Meus magros dedos dissolutos conhecem todos os afagos para os teus olhos sempre enxutos mudar em dois brumosos lagos...

A Colombina, insensível, se lhe dá, lesta, à socapa, em vez de um beijo, um tapa. E por um tempo lá fica ele, vendo-a para lá e para cá, de braços dados ao Arlequim que ainda ria, como se não o visse, como se não o conhecesse.

Hoje aminh’alma sombria é como um poço de lástimas..., chorava o Pierrot pierrotado, resignado em se convencer que, ainda que não fosse de pintura, seu rosto era lugar de lágrima.

E entre a turba grosseira e fútil um Pierrot doloroso passa. Veste-o uma túnica inconsútil feita de sonho e de desgraça... Nublada a vista em pranto inútil, dolorosamente ele passa. Veste-o uma túnica inconsútil, feita de sonho e de desgraça...

6.2.10

OPUS ODIU

Quis esconder os meus dedos
nos teus cabelos de mágoa

mas tua mágoa era grande

para fugir no meu gesto.

(Hilda Hilst)

Ainda que se pudesse dizer: “em uma hora dessas a gente diz coisas da boca pra fora”, ele bem sabia que era sério. Não foi falado, foi escrito. “A fala voa, a escrita se arrasta”, lhe aconselhou uma vez uma antiga professora de linguística. A escrita se vale do tempo, ele entendia – pode-se pensar, avaliar, corrigir e então lançá-la para que ela depois atravesse o mundo e o próprio tempo.

“Eu não tenho só raiva de você. Eu tenho ódio de você.” Era ódio sim. Ódio fecundo, porque quem havia lhe escrito ainda o amava. “Eu não tenho só raiva de você. Eu tenho ódio de você.” Ele releu mil vezes. Era ódio sim. Jorrava grosso e frio. Forte porque havia amor. E facilmente distinguível: não era raiva, mera e passageira emoção, era ódio, sentimento.

“Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” – seu pesadelo na noite.

Estava esgotado: havia, na véspera, feito um esforço tamanho tentando explicar: não fizera nada errado; havia sido sincero. E não fora nada fácil falar sobre os últimos acontecimentos da forma que contou. Importava-se sim. Sabia que o que contara era muito menos fácil de ouvir e isso também o feria. Mas não maculara nada, não profanara nada. A realidade era tão outra! E tivera de silenciar o que realmente gostaria de dizer – não houve nenhum contexto permissivo.

Não merecia ódio. Mas disse a si mesmo naquela manhã, os olhos ainda de sono, vacilante, mas lúcido: aceito. Só rejeitaria, no entanto, a culpa da forma que lhe fora imposta. Pois em nenhum lugar de si a encontrava. Estaria preparado pra expiação se tal culpa houvesse. Mas não. Mesmo Deus ele já havia rejeitado, entre outras razões, para não mais sofrer culpas que não eram suas. Não mais permitiria que o que não lhe parecia consistente, nem passível de crença sã, lhe atormentasse com culpas ancestrais pelas quais ele não se sentia responsável. Não, Deus. – Deus, não. – Não sou culpado!, repetia.

Aceitou o ódio e este lhe recaiu como maldição. Sobretudo naqueles últimos dias de um ano tão morbidamente simbólico. Havia, em criança – fora da realidade que era –, criado, numa espécie de lenda pessoal, a crendice de que morreria aos vinte e sete anos. Era aquele ano e já o tivera quase inteiro para morrer, mas nada aconteceu. Agora, aqueles últimos dias que faltavam para provavelmente não morrer e, assim, sepultar em si qualquer resquício de medo que se tem na noite do que está sobre o natural, pareciam uma tormentosa contagem regressiva.

Estava com medo sim. Deus – ele assim preferiu dizer naquela noite que parecia assombrada –, Deus, seria mais fácil acreditar em vós se não tivessem vos obrigado a ser mais que Verbo! – Pois era na palavra que ele sentia fé, devoção, medo e angustiava-se com seu mistério. Palavra, palavra, és tu e somente tu que reúnes em si mesmo significado e significante. És Alfa e Omega. A ti eu uso para ter uma modesta existência e para fazer existir. Foi me valendo de ti que tentei abençoar e salvar o amor. Mas que sou eu? Tu não me revelas a que elucida. Enfraqueci porque naqueles tempos tu me entravas em formas duras, pesadas, cortantes e gélidas nos ouvidos. Baixaste o tom com que o amor falava nas bocas. Houve muitas, desnecessárias, desferidas como tiros em corpos mortos em guerra. E tu corrias de minha boca em formas igualmente horrendas, e eu pouco pude te reter porque sou só humano e tu bem sabes o que quer dizer “humano”. E agora me vens envenenada, mal dita, maldita. Vens como vômito. Vens para contaminar mesmo o que não escuta. Estou como sujo de ti. E resignadamente aceito. Aceito porque espero que em breve tu te convertas em outras, vindas de onde quer que seja, na claridade ou escuridão, retumbantes ou em forma de murmúrio. Aceito porque entendo que as de ódio também são necessárias e não são exatamente antônimas das de amor. Compreendo que a cólera soe mais alta e abafe o que se entoa insistentemente, incomodando, sobretudo por ser a verdade intimamente preferida. Aceito todas de ódio que me vierem, mesmo as que firam meu corpo, porque uma morte pelo ódio acaba conferindo alguma santidade. Lembro-me que já tentei experimentar ativamente o ódio, mas tu me o negavas. Então aceito passivamente que agora ele recaia sobre mim. E no fim, quando eu já não puder mais, dá-me algum alívio. Faze com que eu não me perca em todas as tuas possibilidades e variantes. Ensina-me a dizer. Explica-me o caminho. Dá-me as respostas que preciso. Dá-me os significados. Dá-me as de redenção. Dá-me as de salvação. Dá-me as de paz. Deixai que eu possa ainda mais uma vez na vida dizer para alguém: eu te amo. Não me abandones. Preenche-me para que o silêncio não tome conta de minha vida e eu enlouqueça. Recebe-te de volta embotada de mim nestas orações. Amém.

23.8.09

O SONHO (de minha mãe)

Hoje concluí uma faxina geral que fiz em meu quarto que iniciei ontem. Tava mesmo precisando! Enquanto arrumava me vinha várias vezes à cabeça o mesmo pensamento: “como as coisas mudam”. Quantas vezes eu não já fizera a mesma coisa? E em cada uma das vezes, muita coisa era jogada fora e outras preservadas pela importância que tinham ou ante a previsão de que eu poderia precisar no futuro. E na arrumação seguinte, de meses depois, boa parte delas era jogada fora, preterida a outras. Ontem e hoje reencontrei com muitas coisas esquecidas e, como das outras vezes, algumas foram pro lixo, outras eu mantive. Mas uma dessas coisas, que nem efetivamente minha é, foi o que mais me chamou atenção: um texto da autoria de minha mãe. Aliás, o nome do texto é O Sonho. Eu havia achado esse seu texto quando ainda era criança, fuçando as coisas que ela jogava fora quando certo dia arrumava seu quarto e jogava coisas fora. Eu nem me interessava pela escrita como me interesso hoje. Mas guardei em segredo aquilo num envelope. E eis que hoje ele me reaparece. O papel envelhecido, amarelado, remendado com fita adesiva, o texto datilografado em máquina elétrica, no fim, à caneta, sua assinatura e a data: 12/12/1975. Ela nem sonhava em um dia me ter como filho. Mostrei para ela e ela disse que naquela época sonhava em ser escritora. O sonho de minha mãe acabou. Esse, o sonho do texto (que ela me assegurou ser mera ficção), outros que ela nunca me contou, mas sei que tinha sim. Em meu nome, em nome do meu irmão, com o fim de seu casamento, desapontada com a vida. Mas ela jura que ama viver e que é feliz. Minha mãe é uma das pessoas mais fortes que eu conheço. Ela, ao que parece, tinha talento sim, não devia ter deixado esse sonho passar, precisava só amadurecer. Vejam:


O SONHO

Há uma luz terna dentro do quarto. Alguns objetos simples, duas camas, a minha e a da minha irmã mais nova, um armário já usado, cartazes na parede dando um aspecto de decoração antiga. Isso mesmo, tudo lá é velho, com a saudade e as recordações. Comecei a despertar, mas era um despertar triste e vazio, durante todo o sonho passei despercebida como se fosse um animal que sai sempre por aí sem rumo. Andei entre aquela multidão. Na minha frente somente ruas desconhecidas e difíceis de atravessar, pois o trânsito era enorme, pessoas olhavam para mim como se olha para uma criança, dessas que não nos atraem. Para todos eu olhava procurando um gesto de reconhecimento, porque naquele momento eu estava perdida. Não totalmente, porque procurava alguém, alguém que não sei quem é. Em cada rua que passava tudo se tornava mais difícil. As pessoas continuavam com o semblante rígido e eu, mais triste do que nunca, continuava o meu tormento. Procurei em todos os cantos o alguém que procurava, sem ter pista certa. De repente vi alguém parecido. Segui às pressas, por cima de tudo. Alcancei, mas a decepção foi total, pois quando olhei o rosto, era muito diferente do que eu pensava. Nisso o cansaço tomava conta de mim. Minhas pernas pareciam estar sendo picadas por milhares de insetos e os olhos ardiam tanto que os fechava de vez em quando. Nunca me senti tão desesperada em minha vida. Tenho a impressão que adormeci em algum lugar daquela cidade desconhecida, sob a sombra de uma árvore, depois saí sem esperança alguma. Na frente avistei uma multidão. Algo estava acontecendo. Sem saber mais o que fazer saí para lá. O porquê não sei, só sei que algo me empurrava e eu seguia muito fraca, com as pernas bambas. Quando me aproximei senti uns olhos me fitando tanto que enfraqueci mais ainda. Depois recobrei os sentidos e compreendi que aqueles olhos pertenciam à pessoa que eu tanto procurava. Olhei para ele e não senti mais o mesmo olhar de antes. O olhar era agora compreensivo. Então não vi mais nada. Somente algo forte soava em meus ouvidos. Era a voz do desconhecido a quem eu procurava. Era uma voz suave e distante, que ficou muitos dias ecoando no meu cérebro. Depois ouvi uma música também diferente, como se fosse tocada por instrumentos não conhecidos. Foi a música mais linda que ouvi durante um tempo.

O despertar real foi triste. Senti muito quando acordei. Apesar de ter sofrido muito com a indiferença das pessoas, eu entristeci pois talvez aquele sonho tenha sido um momento muito importante na minha vida. Ainda hoje recordo aquele olhar, cheio de ternura e compreensão. Fico triste em saber que nunca mais vou ver aqueles olhos maravilhosos.

(Eliete Bezerra)