23.8.09

O SONHO (de minha mãe)

Hoje concluí uma faxina geral que fiz em meu quarto que iniciei ontem. Tava mesmo precisando! Enquanto arrumava me vinha várias vezes à cabeça o mesmo pensamento: “como as coisas mudam”. Quantas vezes eu não já fizera a mesma coisa? E em cada uma das vezes, muita coisa era jogada fora e outras preservadas pela importância que tinham ou ante a previsão de que eu poderia precisar no futuro. E na arrumação seguinte, de meses depois, boa parte delas era jogada fora, preterida a outras. Ontem e hoje reencontrei com muitas coisas esquecidas e, como das outras vezes, algumas foram pro lixo, outras eu mantive. Mas uma dessas coisas, que nem efetivamente minha é, foi o que mais me chamou atenção: um texto da autoria de minha mãe. Aliás, o nome do texto é O Sonho. Eu havia achado esse seu texto quando ainda era criança, fuçando as coisas que ela jogava fora quando certo dia arrumava seu quarto e jogava coisas fora. Eu nem me interessava pela escrita como me interesso hoje. Mas guardei em segredo aquilo num envelope. E eis que hoje ele me reaparece. O papel envelhecido, amarelado, remendado com fita adesiva, o texto datilografado em máquina elétrica, no fim, à caneta, sua assinatura e a data: 12/12/1975. Ela nem sonhava em um dia me ter como filho. Mostrei para ela e ela disse que naquela época sonhava em ser escritora. O sonho de minha mãe acabou. Esse, o sonho do texto (que ela me assegurou ser mera ficção), outros que ela nunca me contou, mas sei que tinha sim. Em meu nome, em nome do meu irmão, com o fim de seu casamento, desapontada com a vida. Mas ela jura que ama viver e que é feliz. Minha mãe é uma das pessoas mais fortes que eu conheço. Ela, ao que parece, tinha talento sim, não devia ter deixado esse sonho passar, precisava só amadurecer. Vejam:


O SONHO

Há uma luz terna dentro do quarto. Alguns objetos simples, duas camas, a minha e a da minha irmã mais nova, um armário já usado, cartazes na parede dando um aspecto de decoração antiga. Isso mesmo, tudo lá é velho, com a saudade e as recordações. Comecei a despertar, mas era um despertar triste e vazio, durante todo o sonho passei despercebida como se fosse um animal que sai sempre por aí sem rumo. Andei entre aquela multidão. Na minha frente somente ruas desconhecidas e difíceis de atravessar, pois o trânsito era enorme, pessoas olhavam para mim como se olha para uma criança, dessas que não nos atraem. Para todos eu olhava procurando um gesto de reconhecimento, porque naquele momento eu estava perdida. Não totalmente, porque procurava alguém, alguém que não sei quem é. Em cada rua que passava tudo se tornava mais difícil. As pessoas continuavam com o semblante rígido e eu, mais triste do que nunca, continuava o meu tormento. Procurei em todos os cantos o alguém que procurava, sem ter pista certa. De repente vi alguém parecido. Segui às pressas, por cima de tudo. Alcancei, mas a decepção foi total, pois quando olhei o rosto, era muito diferente do que eu pensava. Nisso o cansaço tomava conta de mim. Minhas pernas pareciam estar sendo picadas por milhares de insetos e os olhos ardiam tanto que os fechava de vez em quando. Nunca me senti tão desesperada em minha vida. Tenho a impressão que adormeci em algum lugar daquela cidade desconhecida, sob a sombra de uma árvore, depois saí sem esperança alguma. Na frente avistei uma multidão. Algo estava acontecendo. Sem saber mais o que fazer saí para lá. O porquê não sei, só sei que algo me empurrava e eu seguia muito fraca, com as pernas bambas. Quando me aproximei senti uns olhos me fitando tanto que enfraqueci mais ainda. Depois recobrei os sentidos e compreendi que aqueles olhos pertenciam à pessoa que eu tanto procurava. Olhei para ele e não senti mais o mesmo olhar de antes. O olhar era agora compreensivo. Então não vi mais nada. Somente algo forte soava em meus ouvidos. Era a voz do desconhecido a quem eu procurava. Era uma voz suave e distante, que ficou muitos dias ecoando no meu cérebro. Depois ouvi uma música também diferente, como se fosse tocada por instrumentos não conhecidos. Foi a música mais linda que ouvi durante um tempo.

O despertar real foi triste. Senti muito quando acordei. Apesar de ter sofrido muito com a indiferença das pessoas, eu entristeci pois talvez aquele sonho tenha sido um momento muito importante na minha vida. Ainda hoje recordo aquele olhar, cheio de ternura e compreensão. Fico triste em saber que nunca mais vou ver aqueles olhos maravilhosos.

(Eliete Bezerra)

15 comentários:

Dudu disse...

Dona Eliete é igualzinha a minha mãe. São como a Dora de 'Central do Brasil'. Elas me emocionam muito.

danilo kato disse...

eu diria que entenderia a decepção dela por ter acordado. é tão triste acordar de um sonho quando se está perfeito. e quando o sonho parece mais feliz do que a realidade.

bem, também diria que você teve de quem puxar seu talento.

:)

mc disse...

que lindo! realmente, ela nao deveria ter deixado a escrita!

Criis²² disse...

muito bom o texto filipe! saudades das tuas aulas e das tuas estórias!eehhheh beijos Criis!

Anônimo disse...

tà no sangue!!!

Anônimo disse...

Menine,
tua mãe emociona.
Bom à beça.
bjim

Tâm

Douglas disse...

Parabéns aos dois.

Rodrigo disse...

Fiquei com vontade de ver uma foto, tua com a tua mãe.

Adriano Cabrobó disse...

muito interessante, gotei... realmente ela sempre supreende!

Doutora Foligata disse...

Ô Zuse, como seus textos são dengosos e cheios de uma delicadeza tão frágil ... dócil ... que coisa mais linda. Escreva sempre. TODOS os dias. Faça nossa vida doce e delicada assim ! Lov u!

Aspásia Mariana disse...

emocionada com as palavras da tua mãe.

Anônimo disse...

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barbaragoes disse...

Nossa, que legal..
manda pra algum concurso literário :P

se fosse a minha mãe eu teria o sonho de um dia realizar esse sonho dela, mesmo que adormecido.

maria silvania disse...

maravilhoso o texto de sua mãe...até me emociomnei...

Anônimo disse...

Ual.. que texto maravilhoso!