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22.11.12

SOBREGOZO

Escuta, Antônio, se queres mesmo saber um dia o verdadeiro prazer de meter, ter uma epifania de pica, os folguedos e o gozo ao fim do Caminho da Mão Esquerda, o mahāsamādhi, Antônio, come um cu de homem, fode um rabo masculino... por que me olhas com essa cara?, tu sabes que essas burocracias da vida, macho é pra fêmea fêmea é pro macho, igreja, pecados, recalques, restrições morais, nunca foram comigo, tu sabes bem que eu Artur quarenta anos arquiteto, estou cagando pra todos esses protocolos cabrestos, sei que se pode comer cu de mulher também, Antônio, mas é diferente, é bem como a Hilda, ela mesma mulher, escreveu naquele livro lá das cartas do sedutor: mulheres têm o cu vermelhusco nádegas quase sempre volumosas meio desabadas por mais jovens que sejam que talvez só sirvam pra bons bifes em caso de acidente na neve, não te lembras da Hilda? aquela velhona que cansada de não ser levada à sério escreveu umas putarias, tu mesmo me disseste que estava lendo aquele livro dela da mulher no vão da escada com a porca... pois bem, naquele mesmo livro comentam de um certo Joca que enfiou o dedo no cu do filho do Zitinho porque dizia ser lá a boca de Deus, lembrou? então, eu já soube de mulheres que dizem gostar de dar a bunda, mas duvido, Antônio, duvido que naqueles cus molengões elas sintam o prazer que sente um homem com seus mecanismos de corpo próstata escroto sentem, o divino de meter na mulher está em meter na frente, na buceta, equipada de útero, de onde uma nova vida arrisca surgir, tem umas que choram de gozo, respingam, ejaculam como machos, já ouviste sobre ou viste alguma assim? com homem no cu dele a gente entra onde em pânico e gozo ele se descobre e se confirma humano, onde ele estremece de um prazer que seu pau desconhece, alumbramentos do divino e que no entanto lhe humilham com a certeza de sua finitude, é vida e morte se reiterando, aproveita e antes de meter lhe chupa o cu, beija na boca de deus, sente na tua boca língua dentes ele gemer sem forças, lê Bataille e sua História do Olho, e não te preocupes em entender aquela loucura só observa a convergência de todas as imagens para o cu, que foi como eu mesmo li, experimenta o cu de um outro homem, Antônio, procura um maior que tu, um que seja mais homem que tu, e descobre nos instantes de teu gozo com ele que tu pode ser, ainda que brevemente, do tamanho da vida...

6.8.10

TECENDO O LUTO

“O manto é longo, a fazenda é pesada, cheia de risos e boas lembranças que hoje causam dor, mas é necessário tecê-la, vivê-la, chorá-la para depois, como tudo que está sob o tempo, dobrá-la e guardá-la num canto da alma que nos lembra sempre que a proporção da dor do luto é a mesma que o prazer no qual foi vivida aquela história.”
 (Afonso Henrique Novaes)

"Para poder morrer
 Guardo insultos e agulhas
 Entre as sedas do luto."
(Hilda Hilst)

Embora não tivesse aberto os olhos ainda, ela já havia acordado. Por ser tão primeira hora da manhã, a luz do sol parecia não ser feita para outra coisa senão clarear o mundo. – As cortinas estavam abertas: não abrira os olhos, mas sentia a luz por cima das pálpebras, por cima do corpo; sem calor, apenas a leve e delicadíssima presença do que, apesar de impalpável, existe.

Amanhecia, mas este novo dia parecia que não seria diferente dos outros exaustivos daquele outono: imediatamente lembranças e pensamentos angustiantes se encarregavam de lhe tirar o torpor de um sono perturbado, conseguido a custo em meio à insônia que os mesmos pensamentos e lembranças provocavam. Sabendo no que isso resultaria tentou então fazer mais uma vez o que instintivamente aprendera: respirar profundamente – inflar totalmente os pulmões, prender o ar até onde suportasse, depois soltar lenta mas completamente; repetindo isso incontáveis vezes. Já haviam lhe dito que ela não sabia respirar – era mesmo possível que alguém que vive não soubesse? – e a sôfrega força que precisava empregar naquele ato parecia confirmar que era verdade o que diziam. O excesso de oxigênio lhe deixava internamente aquecida. Sentia uma espécie de tontura que lhe dissipava todas as idéias e, por alguns instantes, tinha a impressão de que tudo estava bem. – Pois se não conseguia calar os pensamentos, tê-los difusos ao menos era tolerável. Apesar de muda e imóvel, a luta consigo mesma a deixou ainda mais esgotada e, por mais alguns minutos, ela adormeceu.

Entretanto, sua mente não lhe dava trégua. E desta vez sonhos que reprisavam e recriavam cenas daquela noite em que só lhe restou calar apesar das tantas coisas que tinha para dizer lhe fizeram despertar já com a tosse característica que principiava a agonia a seguir. Tossia, tossia, tossia. Peito ardente, arfante. Ar desencontrando-se na garganta. Náusea. Agora seria inútil lutar: esticou a cabeça para fora da cama e quase a enfiou no balde de zinco que prevenidamente vinha deixando próximo à cabeceira. Contrações fortes de vômito queriam expulsar com violência o que havia dentro de si, lhe virar do avesso. Mas nada saía, a não ser sons altos de engulhos que ela intimamente sabia serem deformidades dos sons de todas as suas palavras humildes, remitivas, redentoras, benfazejas que, por não terem sido ditas, foram forçadamente engolidas, contaminadas com frustrações e decepções, lhe causando esta espécie de indigestão que perdurava por quase dois meses.

Levantou-se vacilante. Foi até a cozinha, acendeu o fogo e sobre ele pousou uma escura chaleira de ágata com água. Enquanto esperava a fervura, moeu alguns grãos de café torrados naquela semana. Mastigava pedaços de pão dormido que rasgava com os dedos. Estava desabituada a perceber, mas tinha fome. O cheiro quente da bebida adentrou o nariz organizando-lhe o estômago. A sensação de náusea então se aquietou. O cheiro evocava-o. Ele que costumava esfregar café nas mãos quando não se convencia de que elas estavam livres do cheiro do couro que punha para curtir dos bichos que caçava. Sugava o café aspirando também o ar que o esfriava no mesmo instante em que engolia, fazendo barulho, impaciente.

Na velha e larga tina de cedro, preparou um banho com folhas de manjericão. Despiu-se e sentou-se reclinando as costas na borda. A água estava quente demais, mas procurou não se importar. Tentava concentrar-se no cheiro vaporoso que tomava conta do ambiente. Sentia o rosto e o pescoço, livre dos cabelos presos no alto da cabeça, suarem. O bico dos seios e o sexo levemente ardiam na temperatura da água e havia um misto de incômodo e prazer manso nisso. Passeava as mãos pelas pernas. Balançava para frente e para trás o corpo, vagarosamente. Precisava relaxar. Mas imagens dos banhos que haviam tomado juntos, sobretudo os das madrugadas que adentravam amando-se, se interpunham entre a visão da parede nua a sua frente. Ensaboavam-se até ficarem brancos de espuma, escorregadios; abraçavam-se com braços e mãos deslizando sem atrito nos corpos; beijavam-se com beijos que já principiavam molhados – e quase sempre o desejo se reacendia e novamente se amavam, líquidos, fluentes.

Ela queria também ter lhe falado dos banhos, mas não pôde... A náusea se anunciou novamente em forma de tosse. Respirava. Respirava. O manjericão lhe facilitava a tarefa. E engoliu de volta um engulho que se esboçou sair. Mas a ansiedade voltara. Suas têmporas latejavam. Deixou-se escorregar devagar, mergulhando inteiramente por quase um completo minuto dentro d’água. Emergiu com os cabelos soltos, caídos no rosto que formigava, pesando nos olhos que mantivera fechados: desabou no choro, rendida. Não procurou se conter, não havia por que se conter – chorou desenfreadamente. As lágrimas molhavam o banho; misturando-se àquela infusão dela mesma, salgando-lhe. Sentia-se sufocada ante a consciência que sempre tivera de que não sabia manter boas relações com o seu passado. Precisava arrumar meios de, se não esquecer, ao menos conviver com as lembranças. Depois de algum tempo as lágrimas cessaram. Com as mãos em concha levou um pouco de água ao rosto e lavou os olhos. Levantou-se. Esticou o braço para abrir a porta de uma arca onde guardava lençóis e roupas de banho. Puxou uma toalha e o movimento fez cair no chão o manto.

Enxuta, vestida numa leve combinação de cetim, estendeu o manto por sobre a cama até ao longo do chão. O fez sem muito pensar, movida pelo súbito reencontro com aquela peça que havia desesperadamente guardado desde o rompimento. Muitas e muitas vezes, acometida pelas recordações que lhe perturbavam, sentira intensa vontade de fazer o que agora, com coragem encontrada não sabia onde, estava fazendo. Mas aquele manto era justamente a única coisa que ela, firme, vinha conseguindo evitar todo esse tempo. A não ser por um minguado cheiro de guardado, estava como da última vez que o vira.  Longuíssimo, com sua trama de linhas, trabalhado em bordados – ela o olhava, perscrutando, analisando como se não houvesse sido ela mesma, fio a fio, sua artesã. Tantas eram as imagens, tantos eram os signos, mapas, poemas, receitas, tantas eram as frases, pedidos, perguntas, promessas, juras, todos gravados ao longo dos anos em sua extensão. Nódoas de doces, de sexo, respingos de sangue. Remendos, emendas. E na extremidade que ainda se fazia, a que ela arrancou com força, quase quebrando o tear, insultos, furos, franjas irregulares feitas pelo desfiar do desgaste. De que lhe serviria aqueles vastos metros de tecido agora? Eram a materialização dos fantasmas que lhe assombravam. O corpo de um amor que morria. O que não se podia era morrer também. Era preciso fazer algo. E intuitivamente, como a lagarta que pára de comer em sua infinita fome para enrijecer-se na pupa em que se transformará para uma nova vida, ela de repente soube o quê.

Arrastou o manto até a sala, sentou-se numa rangente cadeira de balanço e, munida de uma fina agulha de crochê e tesoura, pôs-se a desfiá-lo. Desentrelaçava cuidadosamente cada fio e desfazia os bordados. Levou longas horas nisso. Fazia-o não sem dor, mas com gestos decididos. Sabia que suas mágoas não sarariam depois daquilo – a ação do tempo é a única força capaz de erodir sentimentos. Entretanto, se era inevitável o sofrimento, que ele não jorrasse incontido, lhe consumindo. Sofreria bem – apenas. Ao terminar, o chão estava repleto de linhas que se amontoavam numa bucha disforme. Aquilo lhe fez lembrar do dia em que ao entrar em casa, depois de algum tempo lá fora tosquiando as ovelhas, ela se deparara com o chão da sala invadido por mechas e cachos dos cabelos dele. Cabelos que ela insistira exaustivamente que ele não levasse adiante a idéia de cortá-los. Cabelos que haviam sido umas das primeiras coisas que lhe chamou a atenção nele. Não havia ficado feio com os cabelos curtos, mas já havia algum tempo ela entendera que aquele gesto dele fora, de alguma maneira, símbolo de sua alteração de modos e maneiras para com ela. Aquele havia sido seu primeiro gesto entre outros tantos mais insolentes, ofensivos e grosseiros que se seguiram ao longo do último ano. Acima do espelho da penteadeira ela ainda guardava, amarrado em uma fita, um dos cachos que colheu do chão.

Em dois cestos carregou aquele sem fim de fios para o quintal. Acendeu uma vigorosa fogueira cercada de pedras e, acima das pedras, depositou um pesado caldeirão de estanho cheio de um preparado com pigmento negro. Cozia mechas que saiam desfibriladas da fervura e as juntava cuidadosamente para não engrenharem, estendendo-as no varal, ao sol que ainda se fazia forte. Secavam rápido. Não demorou, seu quaradouro flamulava fibras escuras, sibilantes, que ela colhia reorganizando em mechas maiores, presas com um nó frouxo numa das pontas.
Depois, a roca. Deslizando pela roda, as fibras eram torcidas refazendo-se em fio. Enrolavam-se num novelo no fuso que girava ligeiramente. O zumbido do fuso junto com o estalar do pedal invadiam a casa. Ele costumava sempre reclamar do barulho da roca, pois ela sempre costumava fiar pela manhã, quando as maçarocas de fibras pareciam mais firmes e ele dormia preguiçosamente em dias que não tinha obrigações matinais. Dizia que ainda lhe daria uma roca nova para dormir em paz.

As linhas eram guiadas pelos seus dedos, que apesar de terem as laterais engrossadas com o calejar do ofício, estavam sendo marcados por finos cortes que doíam e sangravam. Mas ela não parava. Às vezes chupava os dedos limpando-os, em outros momentos deixava que o fio levasse o sangue ao novelo. Parecia estar numa espécie de transe provocado pelo barulho da roca. Insolente. Ofendida. O novelo ganhava mais e mais forma. Parecia um enorme casulo de onde poderia sair um inseto peçonhento. E assim foi, entrando na noite que desceu sem estrelas e sem lua, passando por quase ela inteira, parando apenas quando não havia mais fibra para fiar. Então lavou as mãos com sumo de ervas cicatrizantes, envolveu os dedos em tiras de panos embebidos em ungüento e comeu algumas frutas que estavam sobre a mesa.

Fazia frio. Embrulhou-se num enorme xale que havia sido de sua mãe.  Não tinha sono, mas desta vez a razão não era apenas a insônia que vinha lhe minando. A ansiedade maior daquela noite era motivada por terminar o que havia começado. Como se não bastassem as velas já acesas, acendeu as lamparinas. As mesmas que costumavam ficar acesas durante a noite inteira quando ele voltava acabrunhado das eventuais brigas sem sentindo que travavam. Havia sempre pão e vinho em tais ocasiões.  Falavam apenas o necessário. O amor na reconciliação era sempre mais ardente, recompensando os corpos depois de alguns dias de solidão.

Sentada de frente para o tear – o resistente tear que há anos lhe auxiliava na confecção dos tecidos e tramas, delicados tecidos que secretamente carregavam também a história das pessoas que os encomendavam; que suportou sua violência no dia em que, enervada, arrancou o manto abruptamente de suas hastes. – Sentada de frente para o tear, tranquilamente esticou os fios pelos ganchos formando a urdidura, arrumou as barras e as lançadeiras. Olhava concentrada, solene, como se estivesse pronta para um discurso. Passou os dedos levemente sobre as linhas negras que se dispunham verticalmente como se tocasse uma harpa. Respirou por algum tempo, lenta, mas profundamente, como a garantir que a náusea não voltasse. E começou.

Com as lançadeiras entrelaçando a trama da urdidura, barras em sobe-e-desce, os primeiros centímetros do tecido iam se fazendo. À sua mente lhe voltavam com nitidez toda uma compilação de bons momentos compartilhados com ele. Os olhos marejavam e escorriam a cada piscada, num choro sem soluços. Ele não quis lhe escutar e a isso ela acreditava jamais conseguir perdoar. Ela que mesmo tendo tido a iniciativa de afastar-se dele – exaurida de injúrias, descrente – havia deixado as portas abertas, porque sabia que ele em alguns momentos precisaria lhe falar. Aquele homem que apesar de grande e hirsuto ainda tinha em si muito do garotinho que outrora fora.

E ele veio algumas vezes, principalmente à noite.  Ela quase sempre o recebia mais mãe que amante. O ouvia, atendia alguns de seus pedidos, recusava outros. Poucos foram os momentos em que se viu obrigada a ser rude ou perdeu a paciência. Esperou estoicamente que ele lhe desse quaisquer indícios de que realmente ainda havia amor, que sua insistência e choro não eram mero capricho de posse. Ele não sabia lutar por ela. – Ela que não necessariamente esperava que ele empreendesse alguma luta, mas que em algum canto de si sabia que se fosse tomada a força em seus braços, reivindicada, talvez reconhecesse o que antes ele podia ser e renovasse as certezas de seu amor. Ela precisava de tantas coisas.

Em épocas antes de conhecê-lo havia sido mortalmente ferida em seus sentimentos. Por isso julgava ser uma pessoa estragada. Ele havia sido o único que conseguira tirá-la da indolência em que por muito tempo esteve mergulhada. Mas no último ano ele mesmo fora responsável por fazê-la sentir toda uma sorte de coisas ruins que a custo havia esquecido. No entanto, breves dias de separação, curtas experiências com outros a quem ela precisou aplacar as febres do corpo, impossíveis cruzares de destinos e manhãs de silêncio bastaram para que ela em maravilhosa boa nova descobrisse que seu tempo havia chegado; que definitivamente não era a pessoa estragada que julgava ser – mas machucada, e que seu frescor havia retornado, lhe curando. Foi por isso que, mesmo incerta sobre se ainda dariam certo, se mesmo o amor que tinha por ele ainda era suficiente, ela quis procurá-lo. Seria preciso tentar.

Encontrou-o junto de outra, estranha, longe do que ela pensava ser o tipo de mulher que ele desejava. Mas não se importara, afinal, sabia que ele também precisava aplacar seus desejos. Havia ido lá por algo maior que julgava haver ainda entre os dois – tantas foram as promessas, tantas foram as juras. Tanto era o que ela planejava para os dois agora que sabia que podia ser-lhe completa. Não podia entregar este amor a outro. Era dele, era para ele. Porém, ele não quis lhe ouvir. Ela insistiu, em corajosa submissão, pois em nome do que reconhecia poder amá-lo nessa retomada de si, valeria a pena. Mas ele não quis lhe ouvir.

Ela ainda continuou a dormir com as portas abertas por algum tempo, acreditando que ele pudesse vir, que, em nome dos anos que viveram, ele ao menos estivesse curioso em saber o que ela tinha para lhe dizer. – Não iria lhe obrigar a nada. Não conseguiria obrigá-lo a nada. O que ela tinha para ele jamais poderia ser por obrigação. Contudo, precisava lhe fazer saber. Mas ele nunca lhe quis ouvir, sobretudo porque estava com a tal estranha não apenas para amenizar seus desejos; era para ela que agora ele fazia suas juras, era para ela que agora ele dedicava o seu amor. E para si só lhe restou engolir tudo de volta. – O que lhe revirava todos os dias o estômago e lhe punha em contrações diárias de vômito. Mas agora, com o tecido roçando em seus dedos, alongando-se com o trabalho de suas mãos, ela percebia que poderia deixar ali nas vagas da urdidura, enlaçados com a linha guiada pelas lançadeiras. De alguma forma sentia-se mais leve.

Lembrou-se que haviam lhe contado que em alguma parte do mundo pessoas acreditavam em três deusas, como ela, fiandeiras: uma muito velha, guarda o passado sempre olhando para trás por sobre os ombros; a outra, uma jovem mãe, responsável pelo presente; a última, uma virgem encarapuçada, que carrega um pergaminho com os segredos do futuro.  Em silêncio e sem fé, pedia-lhes por si: à velha, que não olhasse tanto para trás; à mãe, que lhe embalasse e alimentasse; à virgem, que deixasse que o tempo sempre viesse. O sol chegou sem ser percebido. A tarde estava prestes a tomar o lugar da manhã quando ela finalmente terminou de tecer.

Embora não tanto quanto o anterior, o novo manto também era longo, mais grosso e pesado. Depois de um novo banho e de alimentar-se, ainda nua ela envolveu-se nele e deixou-se cair na cama, de puro esgotamento, num sono profundo, sem sonhos.

Não demorou muito o inverno chegou. E com ele o frio que aumentava suas saudades, os pedidos de seu corpo que ainda o desejava e a solidão. Recebia algumas visitas rápidas. Nunca saía. Agora sentia mais fome, se alimentava com caldos fortes e quentes, com carnes, peixes e sempre tinha pão. As noites eram irregulares: algumas conseguia dormir, outras, atravessava em claro, sentada, lutando com seus pensamentos. As náuseas haviam diminuído, mas ainda lhe incomodavam em algumas recaídas que lhe acometiam e parecia que ia desesperar. Fazia muito frio.  Então aninhava-se no manto negro.

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Em uma manhã, através de frestas da janela, o sol incidiu forte em seu corpo seminu, abandonado no remexer da noite da coberta escura. O calor, embora suave, lhe fez despertar e a primeira coisa que ela viu foram borboletas que ziguezagueavam dentro do quarto. Depois de duas noites povoada de sonhos ruins, nessa última havia dormido bem, mas não sabia responder a si mesma como se sentia naquele instante. Levantou-se. Bebeu um pouco de água da jarra da cozinha, lavou o rosto e abriu a porta da frente, sumariamente vestida como estava. As nuvens estavam bem dispersas, mas parecia ter chovido na madrugada. O cheiro de terra molhada misturado ao do húmus confirmavam a primavera que se abria. Era notável a quantidade de flores que se destacavam com suas diversas cores no verde das pastagens. Ela desceu do batente de pedra, pisou os pés descalços na grama e pôs-se a caminhar ao redor da casa.

Naquela nova primavera as ovelhas estavam cobertas de lã. Os algodoeiros estavam brancos, brancos, esperando serem colhidos. As linhaças estavam agora gordas de fibras. E em algum lugar, decerto não longe dali, amoreiras nutriam com suas folhas larvas que em breve formariam casulos repletos de fios de seda.

6.2.10

OPUS ODIU

Quis esconder os meus dedos
nos teus cabelos de mágoa

mas tua mágoa era grande

para fugir no meu gesto.

(Hilda Hilst)

Ainda que se pudesse dizer: “em uma hora dessas a gente diz coisas da boca pra fora”, ele bem sabia que era sério. Não foi falado, foi escrito. “A fala voa, a escrita se arrasta”, lhe aconselhou uma vez uma antiga professora de linguística. A escrita se vale do tempo, ele entendia – pode-se pensar, avaliar, corrigir e então lançá-la para que ela depois atravesse o mundo e o próprio tempo.

“Eu não tenho só raiva de você. Eu tenho ódio de você.” Era ódio sim. Ódio fecundo, porque quem havia lhe escrito ainda o amava. “Eu não tenho só raiva de você. Eu tenho ódio de você.” Ele releu mil vezes. Era ódio sim. Jorrava grosso e frio. Forte porque havia amor. E facilmente distinguível: não era raiva, mera e passageira emoção, era ódio, sentimento.

“Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” – seu pesadelo na noite.

Estava esgotado: havia, na véspera, feito um esforço tamanho tentando explicar: não fizera nada errado; havia sido sincero. E não fora nada fácil falar sobre os últimos acontecimentos da forma que contou. Importava-se sim. Sabia que o que contara era muito menos fácil de ouvir e isso também o feria. Mas não maculara nada, não profanara nada. A realidade era tão outra! E tivera de silenciar o que realmente gostaria de dizer – não houve nenhum contexto permissivo.

Não merecia ódio. Mas disse a si mesmo naquela manhã, os olhos ainda de sono, vacilante, mas lúcido: aceito. Só rejeitaria, no entanto, a culpa da forma que lhe fora imposta. Pois em nenhum lugar de si a encontrava. Estaria preparado pra expiação se tal culpa houvesse. Mas não. Mesmo Deus ele já havia rejeitado, entre outras razões, para não mais sofrer culpas que não eram suas. Não mais permitiria que o que não lhe parecia consistente, nem passível de crença sã, lhe atormentasse com culpas ancestrais pelas quais ele não se sentia responsável. Não, Deus. – Deus, não. – Não sou culpado!, repetia.

Aceitou o ódio e este lhe recaiu como maldição. Sobretudo naqueles últimos dias de um ano tão morbidamente simbólico. Havia, em criança – fora da realidade que era –, criado, numa espécie de lenda pessoal, a crendice de que morreria aos vinte e sete anos. Era aquele ano e já o tivera quase inteiro para morrer, mas nada aconteceu. Agora, aqueles últimos dias que faltavam para provavelmente não morrer e, assim, sepultar em si qualquer resquício de medo que se tem na noite do que está sobre o natural, pareciam uma tormentosa contagem regressiva.

Estava com medo sim. Deus – ele assim preferiu dizer naquela noite que parecia assombrada –, Deus, seria mais fácil acreditar em vós se não tivessem vos obrigado a ser mais que Verbo! – Pois era na palavra que ele sentia fé, devoção, medo e angustiava-se com seu mistério. Palavra, palavra, és tu e somente tu que reúnes em si mesmo significado e significante. És Alfa e Omega. A ti eu uso para ter uma modesta existência e para fazer existir. Foi me valendo de ti que tentei abençoar e salvar o amor. Mas que sou eu? Tu não me revelas a que elucida. Enfraqueci porque naqueles tempos tu me entravas em formas duras, pesadas, cortantes e gélidas nos ouvidos. Baixaste o tom com que o amor falava nas bocas. Houve muitas, desnecessárias, desferidas como tiros em corpos mortos em guerra. E tu corrias de minha boca em formas igualmente horrendas, e eu pouco pude te reter porque sou só humano e tu bem sabes o que quer dizer “humano”. E agora me vens envenenada, mal dita, maldita. Vens como vômito. Vens para contaminar mesmo o que não escuta. Estou como sujo de ti. E resignadamente aceito. Aceito porque espero que em breve tu te convertas em outras, vindas de onde quer que seja, na claridade ou escuridão, retumbantes ou em forma de murmúrio. Aceito porque entendo que as de ódio também são necessárias e não são exatamente antônimas das de amor. Compreendo que a cólera soe mais alta e abafe o que se entoa insistentemente, incomodando, sobretudo por ser a verdade intimamente preferida. Aceito todas de ódio que me vierem, mesmo as que firam meu corpo, porque uma morte pelo ódio acaba conferindo alguma santidade. Lembro-me que já tentei experimentar ativamente o ódio, mas tu me o negavas. Então aceito passivamente que agora ele recaia sobre mim. E no fim, quando eu já não puder mais, dá-me algum alívio. Faze com que eu não me perca em todas as tuas possibilidades e variantes. Ensina-me a dizer. Explica-me o caminho. Dá-me as respostas que preciso. Dá-me os significados. Dá-me as de redenção. Dá-me as de salvação. Dá-me as de paz. Deixai que eu possa ainda mais uma vez na vida dizer para alguém: eu te amo. Não me abandones. Preenche-me para que o silêncio não tome conta de minha vida e eu enlouqueça. Recebe-te de volta embotada de mim nestas orações. Amém.

8.8.09

A ALUNA

Ela era feia. Nenhum atrativo no corpo magro e franzino. E o rosto, como se não bastasse a ausência de beleza, denunciava, como é comum nas pessoas que assim o são, a leve demência que tinha. E era exatamente esse desconcerto de vida o que lhe dava a única graça que possuía. Era de uma simpatia insistente, parecia que nada era capaz de lhe irritar ou deixar de mau humor. Seus dentes, cheios de ferros do aparelho que usava, estavam quase sempre à mostra no sorriso que ela dava tantas vezes até ao nada. Sobretudo na escola, onde seu sorriso fazia coro com riso dos colegas de sala que, com crueldade típica da juventude, não davam nenhum desconto ao seu jeito de ser e constantemente caçoavam dela.

Ela tinha vinte anos e estudava o primeiro ano do normal médio. Queria ser professrora. Cheia de dificuldades com a maior parte das matérias – os colegas asseguravam, no entanto, que ela era boa em matemática, o que não é de se espantar, afinal, a matemática, embora ciência exata, precisa de todo o campo fértil da abstração, coisa tão simples para quem não está tão resignado ao que somente pode fazer sentido –, cheia de dificuldades, tentando sofridamente prestar atenção em tudo com seus olhos pequenos que ela espremia pra ouvir, já havia repetido de ano algumas vezes e, em outros, passou com a facilidade que alguns professores promoveram.

Na certa seria o que também acabaria por fazer aquele professor do primeiro ano. Muito embora ele, apesar de jamais conseguir ser hostil com ela, se impacientava facilmente com seu jeito. Às vezes ela enfiava a cara até onde podia nos basculantes de outras salas onde ele dava aula e, quando ele olhava em sua direção, toda carinhosa dizia: “querido professor, tudo bem?” ou “oi, meu professorzinho”, o que ao mesmo tempo em que lhe deixava consideravelmente irritado e constrangido, lhe impedia qualquer grosseria. Ele fazia o que podia para não interagir com ela, se sentia mesmo agradecido quando ela o esquecia, mas não conseguia não lhe chamar a atenção ou perguntar se ela estava mesmo entendendo quando ficava olhando fixamente pra ele, para a lousa ou para o nada, na hora da aula, com cara de perdida e a boca entreaberta. Tô entendendo tudo, professor, é que to com preguiça. E ria.

Não era uma pessoa amarga esse professor. Era bem jovem naquela época; a vida ainda teria muitas oportunidades de lhe machucar. Mas era precisamente por já saber que a vida, de uma maneira geral, não é boa, que ele há muito aprendeu a desconfiar do gratuito, do riso constante, das pessoas efusivas, dos amigos instantâneos, do “eu te amo” ladainha. Mantinha-se distante e superior a pessoas fáceis assim. Era de poucos amigos e com eles tinha alegrias esporádicas mas verdadeiras e profundas. Tinha um amor também; viviam em cidades diferentes, mas sempre quando dava se viam e era amor mesmo quando não se dizia. A felicidade verdadeira é o conjunto todo do de quando em vez, sim? Não era amargo esse professor, quase nunca deixava escapar uma oportunidade de estar feliz, para justamente dar o troco à vida, porque a ela ele não perdoava.

Mas a aluna? A aluna não estava entre as pessoas fáceis, a aluna não era gratuita. A aluna sorria como se necessitasse, como se fosse sorrindo que ela respirasse, mas era um sorriso, e, conseqüentemente, acompanhado de todo o benfazejo que ele faz ao corpo e à alma. Ela era feliz, era feliz o tempo todo, mesmo quando parecia melancólica e inclinava um pouco a cabeça, de boca fechada, piscando os olhos às vezes muito rapidamente, como se tivesse um cisco neles, mas daí bastava alguém perguntar o que tinha que ela botava os dentes metalizados pra fora e começava a falar toda solícita.

O professor não sabia de onde vinha essa irritação que lhe tomava quando ela lhe dirigia a palavra ou quando ela se aproximava. Na verdade ele não entendia que se sentia, de certa maneira, rebaixado quando perto dela. – Ele, sadio que sempre foi, sabedor de muitas coisas que se esforçou para saber, com sua cota de beleza, com seus cabelos cacheados e ruivos recebedor de elogios, com o respeito que tinha, era apenas normal, comum. Ela era a confirmação de que uma outra coisa era possível, de que uma outra forma de vida existia e que não era preciso estar tão distante deste mundo. Ela podia ser feliz o tempo todo, mesmo que lhe explicassem pormenorizadamente que lhe faziam sofrer. Não era inocente. Ela conseguiria entender. Mas não se importava. Continuaria rindo sinceramente. Se alguém lhe provasse que ela era feia e que ninguém a quereria, continuaria feia sem verdadeiramente se importar, sem nenhuma vaidade, de cabelos sempre presos e cheios de frizz como se os tivesse amarrado logo depois de acordar. Livre e sonhando em ser professora. Isso ofendia o professor, porque ainda que ele tivesse toda a compreensão disso, não estaria disposto a trocar sua vida segura e burguesa pela possibilidade de ter uma como a dela. Teria medo, porque mesmo para ser livre ele precisava de portos seguros.

E houve o dia em que ela, sem o menor esboço de aviso, abraçou subitamente o professor quando saia de uma das turmas. Ele ruborizou, testa e bochechas ardendo, invadido em seu espaço pessoal, constrangido. Todos ao redor olharam. Riram dela. Ele riu também, sem graça e a apertou sem muita força contra si. Ela saiu toda contente. Toda namorada. Toda filha. Toda irmã. Deu tempo dele ficar comovido com o gesto enquanto se dirigia à secretaria. Essa criatura vai mesmo com minha cara, ele pensou. Apesar dele não gostar dela. Ela sabia gostar dos outros sem a reciprocidade, o amor nela não era exigente, era amor sem antônimos. Então ficou ofendido e procurou esquecer o que aconteceu. Mas sempre alerta quando ela estava por perto para fugir antes de outro abraço.

No final do primeiro semestre, as provas. Era uma quarta-feira o dia da prova na sala dela. Ela chegou uns vinte minutos depois que o sinal havia tocado. Todos já estavam fazendo a prova. Ela entrou. Licença, professorzinho. Ele esticando a prova para ela: vá sentar na última cadeira dessa fila. E toda dramática, caricaturizando atriz de novela mexicana ela disse: ai, professor, aqui no fundão!? que humilhação. Todos riram, menos o professor: aí sim.

Depois daquela semana, férias. Então o professor, cansado que estava, queria se ver longe de tudo aquilo, sobretudo longe da escola, adiantou tudo o que pode, virou a noite corrigindo as provas na madrugada, entregou os resultados na quinta e viajou. Foi ver o seu amor. Foi se esquecer de um monte de coisa. Foi se divertir. Era bom estar desobrigado de tudo. Era bom não ser professor.

Mas então se acabam as férias e se volta a ser professor, porque há um monte de gente do mundo que ainda não sabe. E na hora da aula há chamada, porque se não os chamam, eles não vêm. Aí o professor chama o nome dela. Um aluno, todo jocoso, diz: essa daí foi transferida para outra vida. Os outros o repreenderam, o xingaram. O professor, sem muito acreditar, exige que façam silêncio. Uma aluna pergunta: o senhor não tava sabendo ainda? Ela morreu, professor, na sexta-feira daquela semana de prova.

Ele ficou atônito. O susto não era saber que ela havia morrido. O susto era que ela também podia morrer. Ele jamais havia lembrado. Era óbvio, claro, a gente morre, mas ela não era óbvia. Então contaram que ela há muito tinha o coração fraco. Que ela já chegou na escola, para o espanto de todos, se queixando de dores, de muita dor. Gritava. Pediu para ser levada para o hospital. Mas ainda assim ficou lá daquele jeito dela. Até morrer. Foi como descreveram. Contaram também que o pai dela era um homem severo, ríspido e lhe batia muito. O professor levou a mão para o campo de anotações no diário de sala. Ia escrever “falecida”, mas não conseguiu. Ficou alguns segundos perdido, olhando pra algum canto que não via. Quase se sentiu culpado por não ter gostado dela. Mas passou a página muito solene, como tornaria a fazer até o fim do ano, e chamou o nome seguinte.

17.6.08

UMA HISTÓRIA

Era uma vez — não, não; era mesmo, na realidade, toda vez. Nem comecei e já estou enfadado — quem lê vá desculpando. É que se mil e uma vezes eu tivesse que contar, mil e uma vezes ainda seria o mesmo — sem pontos a aumentar. Para Sherazade foi bem mais fácil, garanto!

Aliás, é melhor aqui não falar “contar”. — Quando as fragmentárias idéias do que está se resultando nisto começaram a se tornar uma ameaça, da qual eu não teria como escapar, fui procurar ajuda nos livros, verificar se havia gênero que suportasse uma narrativa de enredo quase nulo. O que tenho a registrar é tão pouco, é tão medíocre, que até tipologias que só abrigam o curto e o reduzido são demais.

Aprendi que Conto não dá pra ser, porque diálogo e conflito são elementos fundamentais para sua elaboração. E a pessoa sobre quem escreverei não fala nada significativo, nada que outros já não tenham dito e, sobretudo, não conversa consigo mesma porque não possui vida interior. Conflito? Somente algumas insatisfações tão clichês que qualquer destaque seria alarmismo.

Crônica também não será, pois nem me valendo de toda minha criatividade eu conseguiria, como fazia Sabino, coroar com êxito o pitoresco — se é que há — ou o irrisório da vida dela. Mas falando em Sabino, assim como ele, em sua Última Crônica, vejo que só estou adiando o momento de escrever, assustado com a perspectiva que, neste caso, não é nada boa.

Por que insisto? Rachel de Queiroz uma vez disse que não gostava de escrever, mas que escrevia para se livrar das idéias que lhe vinham. Pois bem, é exatamente para me livrar dessa personagem que me assombra que escrevo.

O nome dela é Anísia. (E que não se antecipem os que porventura acharem que usarei o presente intencionando conferir atualidade ao texto. O faço somente para evitar confusões com o tempo. Já disse: com ela é toda vez. Não vou desperdiçar trabalho distinguindo pretéritos sabendo que o agora e o depois vão confirmar a desimportância do esforço.) O nome dela é Anísia. Nome desprovido de qualquer graça e que por isso mesmo combina muito com a dona. Pois muito menos engraçada consegue ser. Naquela vez em que tentou contribuir com uma piada na roda de colegas que riam de trivialidades, caiu na besteira de repetir uma que há muito já contavam:

— Ouvi dizer que o governador proibiu as mulheres de Santa Maria de engravidarem, para diminuir a população de gente feia no estado.

Mas quando o sujo desdenha do mal lavado, ninguém ri. Ela se tocou. Desconheço outra vez que tenha se aventurado no humor. Até porque a expressão que sempre carrega na cara não contribui. Quando calada, os lábios ficam sempre emborcados e, como o mínimo de claridade parece lhe incomodar, franze os olhos, montando uma careta aborrecida.

E antes que eu me esqueça: não gosta de música. Nunca ninguém a viu cantarolando um lá-lá-lá, distraída. Dançar, muito menos. Seu corpo gordo, de bunda achatada, sustentado desarmonicamente por pernas finas, não possui leveza para isso. Mesmo em criança nenhuma coisa nem outra. De roda nunca brincou.

Mas foi já em princípios de sua adolescência que teve talvez a principal de suas raríssimas reflexões: deu-se conta de que não lhe faltavam apenas encanto e beleza. Ela, que como foi dito há pouco, não tem muito boas relações com a claridade, é também cria de uma família escura. E, como se não bastasse, pobre. Na medida em que crescia, Anísia, alienada que é, era forçada a perceber que o mundo, ajustado ao sabor dos brancos e endinheirados, só permite aos como ela, pequenos espaços, e, em geral, perto dos fundos. — Porém não se engane quem, apesar do que já foi posto, pode ainda cogitar que Anísia teve algum rompante sócio-político e engajou-se em favor dos seus iguais. Coisíssima nenhuma! Não titubeou em aceitar da tia que casou com um preto que vencera na vida, dono de farmácia grande, o convite de ir morar em sua casa para ajudar a cuidar do filho que o casal esperava.

Casa de grã-fino, assobradada, situada na praça onde fica a prefeitura e a igreja, com terraço gradeado, de onde se pode ficar tomando a fresca e ver o vai e vem das pessoas — cada uma com uma história, com motivos, com assunto, com vida. E desse camarote, aonde, desde que chegou, passou a se empoleirar como ave agourenta, sempre que há tempo entre uma ou outra obrigação, Anísia, ávida, se alimenta da vida alheia para nutrir as grandes extensões de corpo que lhe sobram.

O farmacêutico era bom negociante, tinha na clientela as figuras tidas como ilustres da cidade. Por muitas vezes indicava o remédio sem que fosse preciso o doente ir ao médico; com isso ganhou, na boca do povo da cidadezinha, título de doutor. Anísia, mais que ele e sua mulher, tinha grande orgulho do título, orgulho de morar em casa de parente doutor, imaginava que por isso em algum canto lhe sobrasse alguma importância também. Embora fosse de casa, nunca lhe dirigiu a palavra sem colocar o doutor antes do seu nome. Quando ele morreu, alguns anos depois do nascimento do filho, a tia ficou tomando conta da farmácia e, boa administradora, conseguiu manter o negócio sem grandes baixas, embora nunca tenha sido chamada de doutora.

À Anísia foi recomendado que redobrasse os cuidados com o único homem da casa. Mas nem teria sido preciso dizer: até nas amizades do menino ela metia o bedelho. Os colegas chegavam à porta: — Ô, Toninho, vamos brincar? E se Toninho não tivesse escutado, ela mentia, dizendo que ele não estava, ou que estava dormindo. Algumas vezes Toninho a flagrou fazendo isso com alguns dos amigos que mais estimava. Dava-lhe grandes broncas na frente deles. Ela nem se importava. Ao contrário, só achava ainda mais que estava certa, que aqueles meninos eram má influência, que os filhos do juiz eram os únicos dignos da companhia de Toninho. Nenhum dos amigos gostava dela. Logo virou alvo de chacota entre os meninos: “se alguém quer que uma história se espalhe, não precisa colocar na rádio ou no carro de som, conta pra Anísia!”, ou, “quem foi que disse? Anísia? Então é mentira!” Toninho não era muito de fazer coro com eles, é bem verdade, mas nunca a defendia. Tornou-se rapaz com baixa tolerância às maneiras dela. Não raro a humilhava, sentido até algum prazer nisso. Certa vez, encolerizado por razão de mais um de seus intrometimentos, atirou-lhe um pote de maionese que, se não tivesse pego na parede, teria lhe estragado ainda mais a cara. Ela, resignada, com secreto medo de ser vista como dispensável e ter que se ver obrigada a voltar pra casa da mãe pobre, não podendo mais desfrutar do camarote para o espetáculo da vida alheia e envergonhar-se por perder o padrão social que pensa ter, jamais chegou a verdadeiramente se ofender. E quando Toninho bebe e dá algum vexame na rua, ela se vale de todo o seu talento com a mentira para dissimular às colegas e ao povo da rua o acontecido.

Era pra eu ter dito que em festinhas de escolas e quermesses costumam convidar a tia de Anísia para sentar à mesa de autoridades ou de comissão julgadora, porque ela costuma dar uns trocados como patrocínio e também porque alguns acham que se trate mesmo autoridade, por ser viúva do “doutor”. A tia, enfadada, nunca comparece. Manda Anísia para representá-la. E Anísia vai satisfeitíssima. De cabelo alisado e com boca pintada de batom bem vermelho, senta e sustenta a pose quantas horas forem necessárias. Se tem que dar algum voto, em ocasiões como desfile infantil ou rainha do milho, observa primeiro qual menininha está sendo mais votada, para depois dar seu voto — não seria louca de desperdiçar seu voto com quem vai mesmo perder. (Sei que é totalmente irrelevante essa informação e eu poderia tê-la deixado omissa já que não a encaixei no outro parágrafo, mas estou tirando leite de pedra: se não é essa, é nenhuma. Não posso me dar ao luxo de um Brás Cubas que sugere ao leitor que não leia parte do que escreveu. Não posso desperdiçar nada ante minha pobreza de assunto.)

Já citei que ela tem colegas, sim? Pois bem, colegas e só. Ninguém a quem possa verdadeiramente chamar de amiga ou amigo. Em geral, esposas frágeis e indolentes de alguns clientes da farmácia. Algumas que ela conhece desde pequena. Nenhuma lhe faz efetivamente uma visita — encontram-lhe no terraço, sentada, a se deleitar com o movimento da rua, ouvem a mais recente fofoca, retribuem com algum comentário sobre alguma festa ou jantar e se despedem sem saudades.

Foi com elas que, fragmentariamente, Anísia aprendeu sobre a intimidade com um homem. É claro que nunca fora nenhuma inocente. Curiosa que é, sempre soube de algumas coisas. Mas se surpreendeu ao constatar a empolgação delas em comentar umas com as outras sobre como é bom. Às vezes falavam de beijo, comparando os beijos dos maridos com os de ex-namorados, também com muito prazer na fala e no rosto. Anísia, que já naquela época se manipulava algumas vezes em busca de algo, sem nada encontrar, ficou mesmo curiosa. Antes, achava que essa história de prazer e desejo em mulher era coisa de livro e novela. Mas se consigo mesmo não conseguira nada, como faria para saber? Já que nunca tivera ninguém. Já que nunca soubera como abraçar e beijar um homem. A curiosidade aumentava e a virgindade, orgulho e honra durante um bom tempo, agora ia se convertendo em maldição. Os apelos do corpo eram confundidos com angústia. — É que quando olhava para um rapaz bonito, empinando-se, mudando a fala, tentando parecer mais leve, maviosa, sorrindo seu sorriso mal feito, o rapaz ou a olhava com estranhamento ou saia de perto, segurando uma gargalhada.

Afinal, por caridade, quem iria querer Anísia? A resposta mais tarde iria ser dada exatamente pela pessoa que a levou pra cama: por caridade. Sempre há um chinelo velho para um pé cansado, não é o que dizem? Anísia, chinelo velho, tratou de cansar um pé. — Alberto era um desses rapazes que a eriçavam na juventude. Barbudo, de pernas e braços peludos, despertava dentro de Anísia miados de gata vira-latas no cio. Ímpetos que a levavam a repetir a procura solitária em si mesma, a buscar o que as amigas diziam sentir. Mas nem mesmo ela conseguia achar algum atrativo em si que a motivasse à persistência. Sua mão pesada parecia lhe machucar e ela acabava por sentir um misto de nojo e vergonha. Maldita natureza que não lhe esfriava! Um mero encontro ocasional com Alberto na rua lhe renovava os calores. Se fosse alguém que vivesse por dentro, talvez até tivesse caído em alguma espécie de tristeza romântica, algo parecido com dor de paixão não correspondida. Porém, o que ela queria era somente executar parte de sua função de fêmea. (Antecipo que ela não teve filhos e ouso garantir que jamais terá.) E como uma galinha, não se ofendia se o galo não a cobria naquele momento; sua hora haveria de chegar!

E chegou. Depois de longos anos, depois de outras rejeições, depois de Alberto ter ido morar em um estado distante, casar, ter um filho, se separar da mulher, sair do emprego e voltar para cidade já com seus cabelos e barba esbranquiçando. Anísia, que troca fofocas com a irmã que o hospedava, começou a lhe fazer visitas periódicas, levando-lhe doces ou sopa. Ele gostava dos agrados. E Anísia ficava sem caber em si de felicidade. Num fim de tarde, quando passou por lá levando uns sequilhos, Alberto, sabendo que estava só em casa, lhe segurou forte os braços e lhe deu um beijo. Ela se tremeu toda. Ficou tonta. De uma vez só sentiu medo, nervosismo, vergonha, alegria e desejo. Ouviu-o dizer que no fim de semana lhe levaria numa cidade próxima, onde havia um clube com um hotel bacana e saiu de lá sem nada dizer. Desde então ficou ansiosa e assim permaneceu durante os dias que antecederam o passeio. Não comentou nada com ninguém (não havia mesmo ninguém com quem partilhasse segredos, ou melhor, na verdade nunca fora alguém o bastante para ter segredos). Como é boa mesmo em mentiras, deu uma desculpa à tia e foi passar o fim de semana esperado.

Durante a viagem trocaram o mínimo de frases. Ela por estar nervosa e não saber mesmo o que dizer. Ele porque, de leve, já começava a sentir que iria se arrepender disso. Mas a música alta no som servia para justificar a mudez de ambos. Enfim chegaram. O clube, com muito verde, muitas flores e piscina grande, encantou Anísia que, secretamente, fingia estar em lua-de-mel. Ao entrarem no quarto, foi logo tomar banho. Não sabia o que deveria fazer senão o que viera fazer. Então se antecipou. Temia que Alberto desistisse. Ele estranhou a pressa ao vê-la sair do banho só de toalha, sorridente, macaqueando algo no jeito de se mover que talvez intencionasse ser charme. E a situação agora lhe inspirava mais tragédia que excitação, mas não recuou — quanto mais cedo começar, mais cedo termina.

E neste ponto pouco me importa a mingua de assunto, recuso-me a descrever tal cena! Basta dizer que para Anísia foi muito bom. Não exatamente a penetração, mas ter um homem pesando em cima de si, o roçar do corpo peludo no seu, a quentura do contato com o outro. Teve vergonha de gemer. Conteve-se. Porém, respirava sofregamente como um asmático. Alberto, viril que sempre se gabou ser, funcionou, mas não conseguia gozar, e, com medo de brochar, resolveu fazer uma coisa da qual, mesmo mantendo em absoluto segredo, se envergonha até hoje: como estava usando preservativo e ela certamente não iria perceber, fingiu com grunhidos um orgasmo, como se fosse uma mulher frígida, e se levantou rapidamente indo para o banheiro se lavar. Anísia suspirava na cama se sentindo mulher completa. Depois que Alberto voltou, quase uma hora depois, e já todo vestido, ela perguntou se podia fazer um lanche. Ele consentiu com a cabeça e ela pediu muita comida. Comeu sozinha. De estômago embrulhado ele não conseguiu. Evitava vê-la comer. Voltaram tão logo ela se satisfez. O som do carro mais alto ainda.

Duas semanas depois Alberto foi embora para a cidade onde trabalhava. Desde então não veio mais visitar a irmã. Embora não afirme que estejam namorando a distancia, Anísia não desdiz quem assim nomeie. Cheia de pudores, nunca detalha a viagem às colegas. Narra por alto, deixando margem para todas acharem que o que lhe aconteceu foi bem melhor do que o que lhes acontece com os maridos. Aliás, conta e reconta a quem estiver disposta a ouvir, iluminando este ou aquele trecho com maior ou menor intensidade, fazendo parecer, em cada vez, uma história diferente.

Talento que eu gostaria de ter para recomeçar isto aqui em algo que se pudesse chamar de história. Que ainda que não fosse atraente tivesse começo, meio e fim. Mas com Anísia tal feito me escapa a qualquer atributo que eu tenha para redação. Com ela é toda vez, mais uma vez repito. O leitor que porventura tenha conseguido chegar aqui que se arrisque: remonte e tente chegar a algum lugar que não seja este. Duvido que seja permitido à Anísia um happy end ou um final triste em dia chuvoso. Arrisco até a dizer que possivelmente ela jamais morra — a Morte só lembra de vir buscar aqueles cuja existência é embutida de vida. Ou talvez não. Talvez num dia dos mais bobos, ela morra. Morra no lugar de alguém que a Morte, enfadada de ter que ir buscar, a ponha como representante.

escrito em 8/05/2008