12.6.14
UMA HISTORIA DE AMOR À PRIMEIRA VISTA NO DIA DOS NAMORADOS
21.8.11
ÉKSÓ
15.8.11
ORIDES FONTELA SEGURANDO MINHA MÃO
SEMEIO SÓIS
Há dias em que anos se passam.
28.4.11
PARECE COM A VIDA
21.2.10
PIERROT
(Manuel Bandeira)
Pois é, todos os caminhos levam à Roma. Por isso não se enganem aqueles que acham que podem mudar desfecho de uma história ambientada na Itália. A Literatura, o Cinema e o Teatro até hoje tentam um outro fim para Romeu e Julieta. Mas, vos pergunto: se se pode chamar Romeu e Julieta a tragédia em que o rapaz, ao encontrar sua amada desacordada, não bebe o resto do veneno; e a moça, ao ver morto o rapaz, não atravessa o ventre com a espada dele?
Mesmo os escolarizados na Comédia Dell’arte – quase sem texto, tão dada ao improviso – percorrem o mais variados percursos, embaralham a trama, criam inúmeras peripérciais, mas não têm como fugir: no carnaval, o Pierrot, no fim, chorará por não ficar com o amor da Colombina.
Mas eu – eu! –, que como o Bandeira, quis imitar Schumann e fazer um carnaval cheio de amor, tentei dar ao sonhador Pierrot um carnaval em que a quarta-feira não tivesse cor e sabor de cinza.
Começou assim: o Pierrot, que já conhecia a Colombina de outros carnavais, estava como quase sempre está, triste, pois a Colombina, teimosa e ciumenta que é, vinha o maltratando, fazendo o pobre sofrer de remorso por ter aceitado uns beijos de uma outra moça que o quis consolar nuns dias em que, num assomo de amor-próprio, resolveu tentar não mais saber da Colombina que andava muito caprichosa e briguenta com ele.
Mas quem disse que ele conseguiu? De Colombina o infantil borzeguim Pierrot aperta a chorar de saudade. Não foi por ser bobo ou gostar de sofrer. É que o coitado ama de verdade e não tem mágoa que não passe quando se ama assim. Então, naquele carnaval, todo desejoso de ser feliz, nem pôs na cara alvaiade, nem carmim, nem lágrima. Vestiu seu traje inconsútil e entre a turba grosseira e fútil passou a procurar a amada para lhe dizer coisas de amor, pedir desculpas sem ter culpa e depois seus beijos.
Um céu estrelado explodia resquícios de saudades...
Não a encontrava. Quem viu a Colombina, quem viu? E a alegria alheia das misteriosas máscaras, o torvelinho das serpentinas e as marchinhas nostálgicas faziam as ruas e pontes de Veneza parecerem um letargo insano e exaustivo. O seu delírio manso agrupa atrás dele os maus e basbaques. Este o indigita, este outro o apupa... Indiferente a tais ataques ele seguia de coração cheio de esperança.
Até que, oh!, Pierrot, me desculpe não ter conseguido, sou mesmo um péssimo escritor: lá estava a Colombina beijando o Arlequim. De peito estraçalhado o Pierrot acena chamando a Colombina pro canto. O Arlequim percebe e dele ri. Ela vem melindrosa, vingativa:
– Que queres tu?
– Torna o meu leito, Colombina! Não procures em outros braços os requintes em que se afina a volúpia dos meus abraços. Os atletas poderão dar-te o amor próximo das sevícias... Só eu possuo a ingênua arte das indefiníveis carícias... Meus magros dedos dissolutos conhecem todos os afagos para os teus olhos sempre enxutos mudar em dois brumosos lagos...
A Colombina, insensível, se lhe dá, lesta, à socapa, em vez de um beijo, um tapa. E por um tempo lá fica ele, vendo-a para lá e para cá, de braços dados ao Arlequim que ainda ria, como se não o visse, como se não o conhecesse.
Hoje aminh’alma sombria é como um poço de lástimas..., chorava o Pierrot pierrotado, resignado em se convencer que, ainda que não fosse de pintura, seu rosto era lugar de lágrima.
E entre a turba grosseira e fútil um Pierrot doloroso passa. Veste-o uma túnica inconsútil feita de sonho e de desgraça... Nublada a vista em pranto inútil, dolorosamente ele passa. Veste-o uma túnica inconsútil, feita de sonho e de desgraça...
10.6.08
SOBRE QUANDO NÃO SE DÁ PARA TROCAR DE GELADEIRA
Esses dias encontrei uma amiga muito querida, dessas com quem se pode ter qualquer tipo de conversa, com quem não há receio de se desnudar em ser verdadeiro e até chorar sem esconder o rosto. E como o mesmo ela sente por mim, não fez rodeios em responder ao meu “como vai?” dizendo estar triste.
— O que aconteceu?
— Eu acho que descobri que não sei amar.
Impossível você não saber amar, pensei. Logo você que sempre me pareceu ser cheia de amor. Que já me falou coisas tão verdadeiras e bonitas sobre ele. Que já leu livros importantes em que o Amor é tão formidavelmente ilustrado. Você que sabe enfeitar-se para o amor, com sua boca charmosamente intumescida, pintada de vermelho, cabelos soltos, indomados, olhos sensuais, boneca adulta. Que é toda feminina e conhece intuitivamente os segredos românticos de antigas sacerdotisas ao perfumar-se, ao vestir-se, ao escolher as jóias, ao cozinhar, fazendo pratos úmidos, caudalosos, coloridos, quentes, aromatizados com temperos eriçantes. Você que sobretudo não facilita com a palavra Amor porque tem consciência do que ele realmente é. Impossível que você não saiba. Mesmo porque, antes de qualquer conhecimento sobre ele, você o sente e sabe que é correspondida. Mas ela continuou:
— Realmente não sei se sei. Às vezes sinto que estou repleta dele, não cabendo em mim e minha pele parece esticar. Como se um único ser não fosse capaz de recebê-lo e eu precisasse de vários amantes para me ajudarem a me livrar dele que só cresce, cresce e precisa de mais espaço. E agora fiquei sabendo de uma amiga que se separou porque se apaixonou por um amigo. Perguntei ao meu marido, a quem julgo ser o grande amor da minha vida, se haveria de ser sempre assim, se para um casal se separar era necessário acontecer uma outra paixão. Ele me falou sobre a teoria da geladeira nova e da velha: você tem uma geladeira velha e embora ela ainda funcione, às vezes parece se sentir cansado dela, do barulho de seu motor, insatisfeito com a temperatura em que ela tem se mantido. Mas permanece com ela por medo de ficar sem geladeira. Até o dia que encontra uma geladeira nova, que lhe agrada e por isso mesmo você perde todo o receio de se desfazer da velha. Fiquei um tanto assustada com aquilo. Somos ainda tão jovens, vamos todos os dias às ruas, entramos em contato com pessoas novas, estamos todos suscetíveis porque vivendo não dá pra ser de outro jeito. Pedi para ele prometer comigo que jamais viveríamos tal situação, que antes que virássemos geladeira velha um pro outro nos separaríamos...
— Bem, até alguns anos em casa, tínhamos uma geladeira que já estava aqui desde antes de eu nascer. Vez ou outra ouvia minha mãe dizer que precisávamos trocar, que o modelo era velho, consumia muita energia e que seu funcionamento já não era tão bom, que de uma hora pra outra poderíamos ficar sem. De fato uma vez ela até pareceu não mais prestar. E já tínhamos o dinheiro para uma nova. Mas preferimos insistir com ela mandando-lhe para o conserto. Porque uma nova, por mais formidável que fosse, não nos serviria. Aquela geladeira velha era preciosamente amarela, a cor de nossa cozinha na época. Para trocarmos teríamos que trocar também a cozinha, porque ninguém mais encontrava geladeira amarela; uma outra ficaria por demais destoante da cozinha e, consequentemente, de nós. Então fomos com ela até onde pudemos porque descobrimos que era só com ela que a harmonia de nossa casa ficaria perfeita. Até quando ela realmente morreu, sem mais chance de conserto. Então trocamos a geladeira, trocamos a cor da cozinha e também outras coisas mudaram em nossa casa e em nós.
Ela olhou fixamente para mim com um novo ar no rosto, alegre, e sorriu. E eu, rapidamente desfazendo uma expressão indagativa por aquele seu olhar, também sorri. — Só agora tinha realmente entendido o que, sem querer, disse.
escrito por volta de abril de 2007
8.6.08
MAURA
— Vocês têm um real para inteirar minha passagem? — ela perguntou com cara e tom extremamente simpáticos, tirando a mim e minha amiga de nossa despretensiosa conversa de mesa de bar.
Era uma dessas doidas que comumente encontramos por qualquer rua. Mas naquela rua do Recife em especial, que se chama Rua do Hospício, eu pensei que tínhamos uma quase obrigação de tratá-la bem. — Nós, tidos sãos, éramos clandestinos ali? Convidei-a para sentar-se conosco tendo a aprovação do olhar da minha amiga, ainda que não soubéssemos exatamente o que conversar com ela. Como a cédula de um real que logo lhe entreguei, sentar-se e ter um pouco de atenção era outra coisa que parecia desejar.
— Meu nome é Maura, como é o de vocês?
Respondemos sem saber ao certo se fomos entendidos. Mas sabendo que para ela isso pouco importava. Sentou sem fazer cerimônia e desandou a falar. Era uma doida mansa e feliz, eu posso garantir — dava para constatar nos sorrisos constantes de boca e olhos pisca-pisca que enfeitavam seu rosto arredondado e bochechudo, acima de um estreito pescoço que unia a cabeça ao corpo gorducho de matrona.
— Pois vocês fiquem sabendo que eu andei muito hoje, resolvendo minhas coisas e esse sapato aqui que estou usando me aperta os pés.
Era um par de sapatos preto, baixo, gasto, sujo de pó — não sei se dessas andanças de hoje, mas que pareciam realmente tê-la acompanhado por outras tantas. Combinavam com o restante de seu visual, montado por um vestido estampadinho, com aspecto envelhecido; coque que deixava alguns fios de cabelo soltos e desgrenhados e uns óculos de lentes e armação grossas. Carregava duas sacolas cheias de não sei o que, mas que deviam ser o suficiente para sua vida feliz e despreocupada de doida — eu que uma vez já quis entregar-me inteiramente à felicidade sei que basta carregar bem pouco. Porque naqueles dias em que estive disposto a largar todas as coisas que me sustentam e me equilibram na vida burguesa que tenho para viver doidamente o que meu coração pedia, eu ia precisar de menos do que ela carregava. Entretanto, a razão dessa felicidade não me queria como eu a queria. E hoje acumulo coisas que nem em sacolas cabem. Mas toda minha felicidade embalada apenas num saquinho de pipoca.
Ela ia nos contando vários fragmentos avulsos do seu dia e de sua vida, pulando de um para outro sem preocupar-se com qualquer coesão que os pudesse correlacioná-los. (Mas o que estou dizendo? Se ela se preocupasse com coisas do tipo eu teria o direito de chamá-la de doida? Isso se tivermos nós realmente esse direito de classificarmos o que é ou não loucura...). Maura me constrangia com sua total de liberdade de ser. Ela simplesmente não se preocupava. Enquanto nós — nós desperdiçamos muito do nosso tempo alimentando sonhos e desejos que talvez nunca sejam realizados porque já formulamos antes leis e convenções que nos reprimem. Maura poderia dançar nua naquela rua tão movimentada, rindo gostoso ao som de sua encantadora música imaginária até que alguém repletamente envergonhado — sobretudo porque não teria tal coragem — a faria parar. São Paulo já havia dito há muito tempo em uma de suas cartas aos Coríntios que Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios.
— Eu gosto muito de cerveja. Lá na minha casa tem um freezer cheio!
Desculpe-me, Maura, por não ter pedido um copo para você beber conosco. Até cogitei fazê-lo, mas achei melhor não. Mesmo porque você não precisa. Nós que nos dizemos normais é que precisamos da cerveja e de outras tantas substâncias para podermos entrar de quando em vez nesse mundo que você vive. Todos nós de uma maneira ou de outra lhe invejamos.
Ela nos contou que sua mãe a odiava e queria lhe fazer o mal:
— Se um dia vocês virem na capa do jornal: “Maura morreu”, podem saber que foi ela quem me matou.
Impossível que sua mãe, sendo viva, a odeie. Difícil crer como alguém não possa gostar de um ser como a Maura, tão agradável e alegre. E eu poderia ter ficado o resto do dia ali ouvindo-a falar, vendo-a rir. Mas o relógio, invenção dessas das mais doidas de gente séria que quer pôr rédeas no tempo, me avisou que já era hora de ir. Chamei minha amiga, que estava igualmente encantada com nossa companhia, pagamos a conta e nos despedimos de Maura, que só pareceu entender que já nos íamos quando nos viu levantar das cadeiras. Então também levantou, agradeceu, se despediu dando tchauzinho com a mão e saiu andando em direção oposta a que seguimos.
Eu e minha amiga nunca a esquecemos e vez ou outra quando estamos juntos comentamos: “lembra daquela tarde da Maura?”. Claro que sim! Maura nossa amiga doida predileta.
E se alguém que me lê agora vir um dia por aí em algum jornal a notícia de que Maura morreu, por favor, me avisa para que eu possa chorar por mim.
escrito em 24/08/2006





