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12.6.14

UMA HISTORIA DE AMOR À PRIMEIRA VISTA NO DIA DOS NAMORADOS


para Ariane da Mota e Afonso Henrique Novaes


Em junho de 2009, o relacionamento mais duradouro que tive já dava sinais de que estava chegando ao fim. E dois ou três dias antes do Dia dos Namorados, após uma briga feia por um motivo bobo, eu já podia prever que passaria aquela data completamente em branco. Foi então que Ariane – minha amiga e naquela época também colega de trabalho – há pouco tempo solteira, me sugeriu, ao saber da minha situação, que trocássemos presentes na data, para que não ficássemos tristes. Topei.

Para aquele dia doze eu havia agendado com meus alunos uma avaliação. E foi exatamente no momento da prova, a sala silenciosíssima, que Ariane apareceu à porta me chamando e entregando o presente. Abri o pacote. Era um livro: Baladas, de Hilda Hilst, escritora que eu jamais havia lido, mas que já conhecia pelo nome e sucessivas recomendações de Afonso, um outro amigo que também me apresentou a outros autores que passei a admirar, e da própria Ariane. Agradeci o presente, dei-lhe um abraço, e combinei de nos encontrarmos no final da tarde para lhe entregar o seu.

Como não havia outra coisa a fazer a não ser fiscalizar os alunos em prova, decidi começar a ler o livro, para ver se de fato iria gostar dessa Hilda tão recomendada. E bastou ler a primeira página, o primeiro poema – me acertou em cheio aquele conjunto de versos. Fiquei tão completamente emocionado,  fui tão flagrado na minha sensibilidade, que não pude conter o que sempre evitei acontecer na frente dos alunos: eu chorei. Tentei disfarçar, mas, de pé à frente de umas quarenta pessoas, foi inevitável que pelo menos um ou dois estivessem olhando para mim no momento e perguntado em voz alta: está chorando, professor? Aguçando a curiosidade de todos.   Respondi: estou sim, mas não se preocupem, estou chorando de beleza, apenas de beleza... E ergui o livro para tentar ajudar na justificativa. Alguns riram, mas, ainda bem, não deram muita importância e voltaram à prova. Então li mais uns outros sem receios. E chorei ainda mais – de uma dor que só a verdadeira Beleza provoca, de comunhão profunda do meu eu com aquele outro que dizia todos aqueles versos, de um arrebatamento de amor à primeira vista, à primeira leitura. 

Desde então, apaixonadamente, percorri os passos da Hilda. No final daquele ano, já tinha quase todos os seus livros (que não são poucos) e já havia lido praticamente todos. Este amor dura até hoje, leal e como desejo que todo amor que me venha seja: me emocionando, me divertindo, me melhorando, crescendo comigo, segurando minha mão no escuro, e sendo comigo amor e morte ao mesmo tempo.

21.8.11

ÉKSÓ

Nunca me rebelei contra os uniformes escolares. Desde a escolinha, em criança, assistia às aulas trajado no fardamento completo – da camisa ao tênis. Sem qualquer tipo de customização, sem boné, sem relógios coloridos, sem jaquetas ou sem qualquer assessório que voluntariamente transgredisse a básica ideologia do fardamento – igualar. Ainda assim, jamais pude escapar da sensação de deslocamento: a cabeça ruiva, flamejante, faroleira, estava sempre em cima de mim, acima de mim. A implicância das demais crianças com meus cabelos ruivos, o espanto em perceber que sou facilmente localizável, o apontar dos outros nas ruas, os adjetivos “exótico”, “diferente” ou outros do mesmo campo semântico constantemente me sendo entregues... Mas o que fazer? Era fato: não havia outras crianças ruivas na escola, na rua, no bairro – havia na cidade? Não lembro. E assim também o foi na adolescência. Mesmo tendo vindo para uma cidade bem maior durante a primeira fase da juventude, mesmo encontrando ocasionalmente com outros ruivos em alguns lugares, em ônibus – nossos olhares sempre atentos um pro outro, talvez mais admirados conosco que os outros de cabelos de tonalidade mais comum, o silêncio que dizia espantado: um ruivo!, até o momento de sairmos de nossos campos de visão com uma levíssima estranha sensação de comunhão . Eu devia ter aprendido melhor para hoje não me deixar atingir tanto. Pois tudo isso àquela época eram, decerto, ensaios para hoje. Hoje que dentro de mim tudo é tão incandescente e magmático que suplanta qualquer brilho ígneo que meus cabelos agora um tanto esmaecidos possam radiar ao sol. Hoje é o meu de-dentro que sinto muito mais singular, exótico, diferente, tantas vezes estranho a mim mesmo, de fogo – ruivo. E em meio à mudez instaurada entre quem eu vejo e me vê por onde vou, ou a pouca palavra entre mim e os que conheço, não posso esperar que me apontem, que me localizem pelo que jorra de mim em – mim. Entretanto, ontem à noite, como em alguns sábados à noite, saí, fardado de sorrisos, de perfumes, de roupas, de amigos, desejoso de me igualar a quem sai aos sábados à noite para se divertir. Às vezes consigo. Gosto. Mas ontem falhei. Não sei o que aconteceu, estava indo bem, a música estava boa, as companhias eram agradáveis, até que desavisadamente como são os abalos sísmicos meus avessos começaram a se remexer, o âmago a se chocar contra o âmago, corri para o banheiro e vomitei. Na boca ficou, muito representativamente, um insuportável gosto amargo. Fui imediatamente ao bar, comprei uma bebida que engolia em grandes goles, enquanto engendrava conversas com quem estava ao meu redor sobre qualquer coisa para tentar disfarçar a falência de meu ânimo. Dançar já estava fora de qualquer cogitação. Tentei flertes – mas era inútil. Nada mais eu tinha a ver com as pessoas e com o local e com a música. Aquela velha sensação de garotinho na escola havia voltado, mas potencializada com a impiedosa força com que maltrato a mim próprio e, ao mesmo tempo, também com a selvageria de uma autoestima liberta, que em onda andante e flexível agora corre desaferrada, que nada mais quer deixar morrer no coração, me deixava eriçado.  Tudo ali ficou assombrosamente bobo, inferior, débil, patético. O ar de tão pesado exigia esforço para entrar nas narinas e, como se não bastasse, estava inteiramente contaminado com a fumaça de cigarros irritantes.  Estava cada vez mais difícil manter a pose. Foi então que o moço ao meu lado, moço que escreve livros pra criança, chegou mais perto de mim e do nada perguntou: você não se sente daqui, não é? Fiquei constrangido como quem é pego em flagrante. Não, agora não me sinto, respondi num sorriso nervoso. Me despedi dele num longo e forte abraço, também de quem estava mais próximo, tomei um táxi e voltei para casa, exaurido.

15.8.11

ORIDES FONTELA SEGURANDO MINHA MÃO

Não que esperasse muito do filme, mas embora minha companhia houvesse desmarcado e estivesse demasiado em cima da hora para convidar outra pessoa para ir comigo, eu precisava ir ao cinema hoje. Aliás, digo que precisava ir ao cinema porque já era o planejado – em verdade, o que eu precisava mesmo era sair de casa, sair do que é possível, do que é meu e me cerca, porque hoje eu era um perigo para mim: memórias mentindo o passado, rastros de mim dando voltas, esquecimentos desacertados... Fui sozinho.

Não havia quase ninguém na sala – que vazia, penumbrática e impessoal como se encontrava era o que eu precisava. Mas era a primeira sessão e eu havia chegado cedo. Faltavam ainda vinte minutos para começar a projeção do filme e depois de alguns minutos comecei a me impacientar com a espera. Não havia fome, sede, vontade de ir ao banheiro, nada para se fazer. Por sorte eu havia deixado dentro da bolsa o livro da Orides Fontela e, como a luz ainda permitia, folheei algumas páginas relendo poemas favoritos e retomando, com gosto de novos, poemas já esquecidos, como este que me trouxe o choro que eu precisava para me consolar comigo:

SEMEIO SÓIS
e sons
na terra viva

afundo os
pés
no chão: semeio e
passo.

Não me importa a colheita.

Não se importar com a colheita. Contentar-se em semear. Clarice Lispector também escreveu algo parecido: “nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos.” É difícil. É triste. Mas parece que para mim só isto. Olhar para trás e apenas ver os frutos. Ver os outros desfrutarem do que semeei em suas vidas. E digo isso sem arrogância, digo como diria Tistu, o menino do dedo verde, só que sem sua inocência e sem sua alegria.

Sorrisos, amizades, paixões, amores, projetos. Arregaçar mais as pernas das calças, pisar mais fundo – para semear e para passos cada vez mais largos. Não tocar nos frutos. Não amar os frutos. Não se importar com a colheita. Consolar-se ainda que pela resignação e não mais sofrer, pois a travessia, ao menos, é fecunda. E meu nome, provavelmente, aciona à muitas lembranças caminhos com sóis e sons.

O filme iria começar...

Há dias em que anos se passam.




28.4.11

PARECE COM A VIDA

Saí de casa apressado, faltava menos de meia hora para a sessão do cinema começar e eu ainda precisava tomar o ônibus. Ao chegar na parada, só me restavam vinte minutos. O trânsito estava lento e depois de cinco minutos de espera impaciente, resolvi não desperdiçar a disposição que havia me feito decidir ver o filme sozinho, me arrumado e já estar ali: decidi tomar um táxi.

Não precisei sinalizar – o motorista do táxi que passava de alguma forma entendeu, ao me ver olhar para ele, que eu precisava do seu serviço e fez um gesto interrogativo com a cabeça. Como eu sinalizei que sim, ele parou um pouco mais à frente de onde eu estava.

– Desculpe ter feito o senhor caminhar, mas como eu vinha na outra faixa e com esse trânsito, só consegui parar aqui.

– Não tem problema algum, mas preciso chegar ao cinema da Fundação Joaquim Nabuco em dez minutos, no máximo, você acha que consegue?

– Pois fique tranquilo, em dez minutos você vai estar lá. Vai ver que filme?

– Poesia – falei meio vacilante, com uma ponta de vergonha em assumir para aquele taxista que o filme que eu estava com essa urgência em ver era sobre poesia, essa coisa que hoje em dia quase ninguém mais lê e que, pensei, provavelmente na vida de taxista dele fosse supérflua.

– Estou com um poeta no meu carro?

– Não, não – sorri – sou só um estudante de Letras.

– Pois eu agora sou poeta.

– Ah, é?

– Sim, como acho que todo mundo se torna quando está amando.

Olhei para ele com mais atenção: cinquentão, não era exatamente bonito, mas estava longe de ser um homem feio, alto, robusto, não parecia jamais, à primeira vista, ser do tipo que confessaria algo assim de maneira tão espontânea a um desconhecido. Mas continuou:

– É que como diz uma música que conheço, taxista nunca termina de contar uma história e passageiro fica sem entender, senão lhe contaria o que estou passando.

– Entendo...

– Mas, olhe, fui casado por vinte anos, nunca disse um “eu te amo” para minha ex-mulher. Com essa agora é diferente, eu sinto muita vontade de dizer e digo. Nossa história está complicada ainda, não estamos juntos e nem sei quando vamos ficar, mas eu digo que a amo sem esperar nada em troca.

– Legal isso, não é todo homem que tem essa coragem.

– Pois é, eu vou tentar resumir rápido para você...

Então brevemente me contou a história. Pelo que pude entender, ele conheceu essa mulher antes da que se tornou sua esposa. Ficaram algumas vezes sem compromisso. Embora desde então ele já tenha se interessado de verdade por ela. Depois de alguns meses sem se verem, ele a encontrou grávida. Perguntou-lhe de quem era o filho e ela, mulher livre que era, disse não saber. Ele se ofereceu para assumir a criança, mas ela não quis, estava de viagem marcada para algum lugar da Europa. Depois disso, cada um seguiu um rumo. Ele casou, passou um par de décadas com a esposa e há dois anos se separou. Recentemente encontrou a mulher do passado, com o filho, agora com vinte e três anos. Ela lhe confessou ter quase certeza que o rapaz é filho dele, fizeram teste de DNA e deu positivo. Ela também esteve casada, o ex-marido era muito agressivo, batia nela, no filho e agora, mesmo separados, ele ainda inferniza a vida dela, sem deixar-lhe ter mais nenhum relacionamento, ameaçando-lhe até de morte, o que a deixa com muito medo. É o que os dois buscam resolver para enfim ficarem juntos.

Achei interessante a história, com peripércias, desencontros, reencontros, contada à sua maneira de homem apaixonado. E em menos tempo ainda, já que estávamos bem próximos de onde eu desceria, contei para ele uma história que aconteceu com pessoas próximas, também cheia de elementos de folhetim, mas triste, sem amor ou reencontros no fim. Ele ficou curioso, me fez algumas perguntas, mas havíamos chegado e ao inverso do que diz a música que ele gosta, o passageiro precisava descer e o taxista ficou sem entender tudo.  Enquanto pagava, falei o que comumente se diz ao ouvirmos histórias do tipo:

– É, rapaz, acontece cada coisa na vida que parece filme ou novela...

 Suspirando ele respondeu:

– Parece com a vida.

21.2.10

PIERROT

(crônica elegíaca de carnaval com versos emprestados do Carnaval de Manuel Bandeira)

– O meu Carnaval sem nenhuma alegria!...
(Manuel Bandeira)


Pois é, todos os caminhos levam à Roma. Por isso não se enganem aqueles que acham que podem mudar desfecho de uma história ambientada na Itália. A Literatura, o Cinema e o Teatro até hoje tentam um outro fim para Romeu e Julieta. Mas, vos pergunto: se se pode chamar Romeu e Julieta a tragédia em que o rapaz, ao encontrar sua amada desacordada, não bebe o resto do veneno; e a moça, ao ver morto o rapaz, não atravessa o ventre com a espada dele?

Mesmo os escolarizados na Comédia Dell’arte – quase sem texto, tão dada ao improviso – percorrem o mais variados percursos, embaralham a trama, criam inúmeras peripérciais, mas não têm como fugir: no carnaval, o Pierrot, no fim, chorará por não ficar com o amor da Colombina.

Mas eu – eu! –, que como o Bandeira, quis imitar Schumann e fazer um carnaval cheio de amor, tentei dar ao sonhador Pierrot um carnaval em que a quarta-feira não tivesse cor e sabor de cinza.

Começou assim: o Pierrot, que já conhecia a Colombina de outros carnavais, estava como quase sempre está, triste, pois a Colombina, teimosa e ciumenta que é, vinha o maltratando, fazendo o pobre sofrer de remorso por ter aceitado uns beijos de uma outra moça que o quis consolar nuns dias em que, num assomo de amor-próprio, resolveu tentar não mais saber da Colombina que andava muito caprichosa e briguenta com ele.

Mas quem disse que ele conseguiu? De Colombina o infantil borzeguim Pierrot aperta a chorar de saudade. Não foi por ser bobo ou gostar de sofrer. É que o coitado ama de verdade e não tem mágoa que não passe quando se ama assim. Então, naquele carnaval, todo desejoso de ser feliz, nem pôs na cara alvaiade, nem carmim, nem lágrima. Vestiu seu traje inconsútil e entre a turba grosseira e fútil passou a procurar a amada para lhe dizer coisas de amor, pedir desculpas sem ter culpa e depois seus beijos.

Um céu estrelado explodia resquícios de saudades...

Não a encontrava. Quem viu a Colombina, quem viu? E a alegria alheia das misteriosas máscaras, o torvelinho das serpentinas e as marchinhas nostálgicas faziam as ruas e pontes de Veneza parecerem um letargo insano e exaustivo. O seu delírio manso agrupa atrás dele os maus e basbaques. Este o indigita, este outro o apupa... Indiferente a tais ataques ele seguia de coração cheio de esperança.

Até que, oh!, Pierrot, me desculpe não ter conseguido, sou mesmo um péssimo escritor: lá estava a Colombina beijando o Arlequim. De peito estraçalhado o Pierrot acena chamando a Colombina pro canto. O Arlequim percebe e dele ri. Ela vem melindrosa, vingativa:

– Que queres tu?

Torna o meu leito, Colombina! Não procures em outros braços os requintes em que se afina a volúpia dos meus abraços. Os atletas poderão dar-te o amor próximo das sevícias... Só eu possuo a ingênua arte das indefiníveis carícias... Meus magros dedos dissolutos conhecem todos os afagos para os teus olhos sempre enxutos mudar em dois brumosos lagos...

A Colombina, insensível, se lhe dá, lesta, à socapa, em vez de um beijo, um tapa. E por um tempo lá fica ele, vendo-a para lá e para cá, de braços dados ao Arlequim que ainda ria, como se não o visse, como se não o conhecesse.

Hoje aminh’alma sombria é como um poço de lástimas..., chorava o Pierrot pierrotado, resignado em se convencer que, ainda que não fosse de pintura, seu rosto era lugar de lágrima.

E entre a turba grosseira e fútil um Pierrot doloroso passa. Veste-o uma túnica inconsútil feita de sonho e de desgraça... Nublada a vista em pranto inútil, dolorosamente ele passa. Veste-o uma túnica inconsútil, feita de sonho e de desgraça...

10.6.08

SOBRE QUANDO NÃO SE DÁ PARA TROCAR DE GELADEIRA

Esses dias encontrei uma amiga muito querida, dessas com quem se pode ter qualquer tipo de conversa, com quem não há receio de se desnudar em ser verdadeiro e até chorar sem esconder o rosto. E como o mesmo ela sente por mim, não fez rodeios em responder ao meu “como vai?” dizendo estar triste.

— O que aconteceu?

— Eu acho que descobri que não sei amar.

Impossível você não saber amar, pensei. Logo você que sempre me pareceu ser cheia de amor. Que já me falou coisas tão verdadeiras e bonitas sobre ele. Que já leu livros importantes em que o Amor é tão formidavelmente ilustrado. Você que sabe enfeitar-se para o amor, com sua boca charmosamente intumescida, pintada de vermelho, cabelos soltos, indomados, olhos sensuais, boneca adulta. Que é toda feminina e conhece intuitivamente os segredos românticos de antigas sacerdotisas ao perfumar-se, ao vestir-se, ao escolher as jóias, ao cozinhar, fazendo pratos úmidos, caudalosos, coloridos, quentes, aromatizados com temperos eriçantes. Você que sobretudo não facilita com a palavra Amor porque tem consciência do que ele realmente é. Impossível que você não saiba. Mesmo porque, antes de qualquer conhecimento sobre ele, você o sente e sabe que é correspondida. Mas ela continuou:

— Realmente não sei se sei. Às vezes sinto que estou repleta dele, não cabendo em mim e minha pele parece esticar. Como se um único ser não fosse capaz de recebê-lo e eu precisasse de vários amantes para me ajudarem a me livrar dele que só cresce, cresce e precisa de mais espaço. E agora fiquei sabendo de uma amiga que se separou porque se apaixonou por um amigo. Perguntei ao meu marido, a quem julgo ser o grande amor da minha vida, se haveria de ser sempre assim, se para um casal se separar era necessário acontecer uma outra paixão. Ele me falou sobre a teoria da geladeira nova e da velha: você tem uma geladeira velha e embora ela ainda funcione, às vezes parece se sentir cansado dela, do barulho de seu motor, insatisfeito com a temperatura em que ela tem se mantido. Mas permanece com ela por medo de ficar sem geladeira. Até o dia que encontra uma geladeira nova, que lhe agrada e por isso mesmo você perde todo o receio de se desfazer da velha. Fiquei um tanto assustada com aquilo. Somos ainda tão jovens, vamos todos os dias às ruas, entramos em contato com pessoas novas, estamos todos suscetíveis porque vivendo não dá pra ser de outro jeito. Pedi para ele prometer comigo que jamais viveríamos tal situação, que antes que virássemos geladeira velha um pro outro nos separaríamos...

— Bem, até alguns anos em casa, tínhamos uma geladeira que já estava aqui desde antes de eu nascer. Vez ou outra ouvia minha mãe dizer que precisávamos trocar, que o modelo era velho, consumia muita energia e que seu funcionamento já não era tão bom, que de uma hora pra outra poderíamos ficar sem. De fato uma vez ela até pareceu não mais prestar. E já tínhamos o dinheiro para uma nova. Mas preferimos insistir com ela mandando-lhe para o conserto. Porque uma nova, por mais formidável que fosse, não nos serviria. Aquela geladeira velha era preciosamente amarela, a cor de nossa cozinha na época. Para trocarmos teríamos que trocar também a cozinha, porque ninguém mais encontrava geladeira amarela; uma outra ficaria por demais destoante da cozinha e, consequentemente, de nós. Então fomos com ela até onde pudemos porque descobrimos que era só com ela que a harmonia de nossa casa ficaria perfeita. Até quando ela realmente morreu, sem mais chance de conserto. Então trocamos a geladeira, trocamos a cor da cozinha e também outras coisas mudaram em nossa casa e em nós.

Ela olhou fixamente para mim com um novo ar no rosto, alegre, e sorriu. E eu, rapidamente desfazendo uma expressão indagativa por aquele seu olhar, também sorri. — Só agora tinha realmente entendido o que, sem querer, disse.

escrito por volta de abril de 2007

8.6.08

MAURA

— Vocês têm um real para inteirar minha passagem? — ela perguntou com cara e tom extremamente simpáticos, tirando a mim e minha amiga de nossa despretensiosa conversa de mesa de bar.

Era uma dessas doidas que comumente encontramos por qualquer rua. Mas naquela rua do Recife em especial, que se chama Rua do Hospício, eu pensei que tínhamos uma quase obrigação de tratá-la bem. — Nós, tidos sãos, éramos clandestinos ali? Convidei-a para sentar-se conosco tendo a aprovação do olhar da minha amiga, ainda que não soubéssemos exatamente o que conversar com ela. Como a cédula de um real que logo lhe entreguei, sentar-se e ter um pouco de atenção era outra coisa que parecia desejar.

— Meu nome é Maura, como é o de vocês?

Respondemos sem saber ao certo se fomos entendidos. Mas sabendo que para ela isso pouco importava. Sentou sem fazer cerimônia e desandou a falar. Era uma doida mansa e feliz, eu posso garantir — dava para constatar nos sorrisos constantes de boca e olhos pisca-pisca que enfeitavam seu rosto arredondado e bochechudo, acima de um estreito pescoço que unia a cabeça ao corpo gorducho de matrona.

— Pois vocês fiquem sabendo que eu andei muito hoje, resolvendo minhas coisas e esse sapato aqui que estou usando me aperta os pés.

Era um par de sapatos preto, baixo, gasto, sujo de pó — não sei se dessas andanças de hoje, mas que pareciam realmente tê-la acompanhado por outras tantas. Combinavam com o restante de seu visual, montado por um vestido estampadinho, com aspecto envelhecido; coque que deixava alguns fios de cabelo soltos e desgrenhados e uns óculos de lentes e armação grossas. Carregava duas sacolas cheias de não sei o que, mas que deviam ser o suficiente para sua vida feliz e despreocupada de doida — eu que uma vez já quis entregar-me inteiramente à felicidade sei que basta carregar bem pouco. Porque naqueles dias em que estive disposto a largar todas as coisas que me sustentam e me equilibram na vida burguesa que tenho para viver doidamente o que meu coração pedia, eu ia precisar de menos do que ela carregava. Entretanto, a razão dessa felicidade não me queria como eu a queria. E hoje acumulo coisas que nem em sacolas cabem. Mas toda minha felicidade embalada apenas num saquinho de pipoca.

Ela ia nos contando vários fragmentos avulsos do seu dia e de sua vida, pulando de um para outro sem preocupar-se com qualquer coesão que os pudesse correlacioná-los. (Mas o que estou dizendo? Se ela se preocupasse com coisas do tipo eu teria o direito de chamá-la de doida? Isso se tivermos nós realmente esse direito de classificarmos o que é ou não loucura...). Maura me constrangia com sua total de liberdade de ser. Ela simplesmente não se preocupava. Enquanto nós — nós desperdiçamos muito do nosso tempo alimentando sonhos e desejos que talvez nunca sejam realizados porque já formulamos antes leis e convenções que nos reprimem. Maura poderia dançar nua naquela rua tão movimentada, rindo gostoso ao som de sua encantadora música imaginária até que alguém repletamente envergonhado — sobretudo porque não teria tal coragem — a faria parar. São Paulo já havia dito há muito tempo em uma de suas cartas aos Coríntios que Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios.

— Eu gosto muito de cerveja. Lá na minha casa tem um freezer cheio!

Desculpe-me, Maura, por não ter pedido um copo para você beber conosco. Até cogitei fazê-lo, mas achei melhor não. Mesmo porque você não precisa. Nós que nos dizemos normais é que precisamos da cerveja e de outras tantas substâncias para podermos entrar de quando em vez nesse mundo que você vive. Todos nós de uma maneira ou de outra lhe invejamos.

Ela nos contou que sua mãe a odiava e queria lhe fazer o mal:

— Se um dia vocês virem na capa do jornal: “Maura morreu”, podem saber que foi ela quem me matou.

Impossível que sua mãe, sendo viva, a odeie. Difícil crer como alguém não possa gostar de um ser como a Maura, tão agradável e alegre. E eu poderia ter ficado o resto do dia ali ouvindo-a falar, vendo-a rir. Mas o relógio, invenção dessas das mais doidas de gente séria que quer pôr rédeas no tempo, me avisou que já era hora de ir. Chamei minha amiga, que estava igualmente encantada com nossa companhia, pagamos a conta e nos despedimos de Maura, que só pareceu entender que já nos íamos quando nos viu levantar das cadeiras. Então também levantou, agradeceu, se despediu dando tchauzinho com a mão e saiu andando em direção oposta a que seguimos.

Eu e minha amiga nunca a esquecemos e vez ou outra quando estamos juntos comentamos: “lembra daquela tarde da Maura?”. Claro que sim! Maura nossa amiga doida predileta.

E se alguém que me lê agora vir um dia por aí em algum jornal a notícia de que Maura morreu, por favor, me avisa para que eu possa chorar por mim.

escrito em 24/08/2006