28.4.11

PARECE COM A VIDA

Saí de casa apressado, faltava menos de meia hora para a sessão do cinema começar e eu ainda precisava tomar o ônibus. Ao chegar na parada, só me restavam vinte minutos. O trânsito estava lento e depois de cinco minutos de espera impaciente, resolvi não desperdiçar a disposição que havia me feito decidir ver o filme sozinho, me arrumado e já estar ali: decidi tomar um táxi.

Não precisei sinalizar – o motorista do táxi que passava de alguma forma entendeu, ao me ver olhar para ele, que eu precisava do seu serviço e fez um gesto interrogativo com a cabeça. Como eu sinalizei que sim, ele parou um pouco mais à frente de onde eu estava.

– Desculpe ter feito o senhor caminhar, mas como eu vinha na outra faixa e com esse trânsito, só consegui parar aqui.

– Não tem problema algum, mas preciso chegar ao cinema da Fundação Joaquim Nabuco em dez minutos, no máximo, você acha que consegue?

– Pois fique tranquilo, em dez minutos você vai estar lá. Vai ver que filme?

– Poesia – falei meio vacilante, com uma ponta de vergonha em assumir para aquele taxista que o filme que eu estava com essa urgência em ver era sobre poesia, essa coisa que hoje em dia quase ninguém mais lê e que, pensei, provavelmente na vida de taxista dele fosse supérflua.

– Estou com um poeta no meu carro?

– Não, não – sorri – sou só um estudante de Letras.

– Pois eu agora sou poeta.

– Ah, é?

– Sim, como acho que todo mundo se torna quando está amando.

Olhei para ele com mais atenção: cinquentão, não era exatamente bonito, mas estava longe de ser um homem feio, alto, robusto, não parecia jamais, à primeira vista, ser do tipo que confessaria algo assim de maneira tão espontânea a um desconhecido. Mas continuou:

– É que como diz uma música que conheço, taxista nunca termina de contar uma história e passageiro fica sem entender, senão lhe contaria o que estou passando.

– Entendo...

– Mas, olhe, fui casado por vinte anos, nunca disse um “eu te amo” para minha ex-mulher. Com essa agora é diferente, eu sinto muita vontade de dizer e digo. Nossa história está complicada ainda, não estamos juntos e nem sei quando vamos ficar, mas eu digo que a amo sem esperar nada em troca.

– Legal isso, não é todo homem que tem essa coragem.

– Pois é, eu vou tentar resumir rápido para você...

Então brevemente me contou a história. Pelo que pude entender, ele conheceu essa mulher antes da que se tornou sua esposa. Ficaram algumas vezes sem compromisso. Embora desde então ele já tenha se interessado de verdade por ela. Depois de alguns meses sem se verem, ele a encontrou grávida. Perguntou-lhe de quem era o filho e ela, mulher livre que era, disse não saber. Ele se ofereceu para assumir a criança, mas ela não quis, estava de viagem marcada para algum lugar da Europa. Depois disso, cada um seguiu um rumo. Ele casou, passou um par de décadas com a esposa e há dois anos se separou. Recentemente encontrou a mulher do passado, com o filho, agora com vinte e três anos. Ela lhe confessou ter quase certeza que o rapaz é filho dele, fizeram teste de DNA e deu positivo. Ela também esteve casada, o ex-marido era muito agressivo, batia nela, no filho e agora, mesmo separados, ele ainda inferniza a vida dela, sem deixar-lhe ter mais nenhum relacionamento, ameaçando-lhe até de morte, o que a deixa com muito medo. É o que os dois buscam resolver para enfim ficarem juntos.

Achei interessante a história, com peripércias, desencontros, reencontros, contada à sua maneira de homem apaixonado. E em menos tempo ainda, já que estávamos bem próximos de onde eu desceria, contei para ele uma história que aconteceu com pessoas próximas, também cheia de elementos de folhetim, mas triste, sem amor ou reencontros no fim. Ele ficou curioso, me fez algumas perguntas, mas havíamos chegado e ao inverso do que diz a música que ele gosta, o passageiro precisava descer e o taxista ficou sem entender tudo.  Enquanto pagava, falei o que comumente se diz ao ouvirmos histórias do tipo:

– É, rapaz, acontece cada coisa na vida que parece filme ou novela...

 Suspirando ele respondeu:

– Parece com a vida.

4 comentários:

Matheus Henrique disse...

Pois é... é cada história que acontece assim na vida da gente! Que a gente ouve. Por isso que gosto de interagir comas pessoas. Elas sempre tem alguma história boa pra nos contar!

Johan Korovha Wagner disse...

Acho que a mulher só "quer" voltar para o taxista por causa dos problemas que enfrentou na europa, amor mesmo ela não tem por ele!

Johan Korovha Wagner disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Johan Korovha Wagner disse...

A resposta para sua pergunta está aqui!