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15.6.08

O VIAJANTE DO ESCURO

Minha ida àquela detestável cidade havia sido, de certo modo, por obrigação. Mas não vem ao caso, agora, os motivos que me levaram até lá. Se justifico que não podia escolher não ir, é somente para que fique claro que já carregava incômodo em mim antes mesmo de entrar naquele ônibus povoado de pessoas sujas de si mesmas — paradas que estavam de um longe que vinham com destino ao longe que iam. Incômodo que o balanço constante e incontrolável das minhas pernas engrenava um relógio que girou na verdade dois mil anos em apenas registradas duas horas de viagem. E de pura impaciência, mal o veículo entrou nos limites urbanos da cidade, saquei o telefone e liguei para minha tia pedindo que ela se adiantasse a ir me buscar na rodoviária. Eu queria descer dali e ir diretamente sem espera para sua casa. Me ligue quando chegar realmente no terminal, você sabe, não é longe daqui, eu não vou demorar — foi o que ela me respondeu. E eu não iria argumentar com o que ia lhe parecer um mero capricho.

Não tive o privilégio do vento fresco e puro para aliviar minha tensão no desembarque. Ele chegava até mim em brisa aquecida e por vezes mal cheirosa, por ter sido antes retardado em meio à aglomeração de pessoas iguais àquelas do ônibus que tomei. Do outro lado, no embarque, ainda que não tão volumosa como a de cá, outra aglomeração agitava-se para se dividir em três ônibus que abriam as portas e começavam a aquecer os motores, dois com destino à João Pessoa o outro à Campina Grande. O que tanta gente iria fazer na Paraíba? Cada um com seu motivo... E eu acabei me lembrando que ainda não a conheço. Com minha pequena bolsa de viagem de fim de semana pendurada no ombro, caminhei o mais rápido que pude rumo a uma das saídas, enquanto de telefone já no ouvido esperava minha tia me atender e desviava de mais pessoas que circulavam ali naquele começo de noite de sexta feira.

No portão relativamente largo, cinco mulheres conversavam despreocupadamente sem se darem conta de que dificultavam a passagem de pessoas que precisavam entrar e sair com pacotes e bagagens. Tive que pedir licença a que se encontrava mais próxima à parede para que ela se afastasse me permitindo passar. Foi quando vi, agitando-se no batente que eu precisava descer para enfim sair daquele lugar, a extremidade de uma dessas finas e compridas bengalas e segurando sua outra ponta, sim!, um cego. As mulheres simplesmente pareciam não terem atinado que um homem que não enxerga estava completamente atrapalhado porque elas obstruíam o caminho e conversavam alto e ao mesmo tempo, confundindo a direção dos sons. Ele estava só e muito provavelmente foi só que chegou até ali.

Não foi por bondade, tampouco altruísmo, mas decidi ajudar o cego. Talvez tenha sido algum eco da boa educação que recebi mas que eu, rebelde que sou, infrinjo tantas vezes por dar vazão em tantas oportunidades mais ao prazer ou mesmo à crueldade. Ou talvez porque me senti atraído pela condição daquele homem de aspecto um tanto feio, com seu pescoço meio torto, olhos quase que fechados, deixando transparecer no pouco do globo ocular tão totalmente branco que se via, a inexpressão de quem só enxerga o preto.

O que os olhos não vêem o coração não sente. É? Que sei eu do coração de quem não vê? O que sei é que a falta de visão nessas pessoas aguça os outros sentidos e a elas o direito de tocar é quase que impossível de ser negado. A elas é permitido “ver” as outras pessoas através de carícias, percorrendo com a ponta dos dedos e a palma das mãos os sulcos, as saliências e a textura dos rostos e corpos. Para não falar do seu alfabeto táctil, que faz com que a leitura seja uma prática quase sensual e de seus sonhos feitos só de sensações. E certamente gosto e cheiro são mais bem percebidos por um cego, em todas as nuances que eles podem ter.

Uma vez assisti um documentário sobre o cérebro humano em que mostrava um experimento feito com um homem que consistia no seguinte: depois de terem instalado vários eletrodos em sua cabeça pediam que ele observasse uma flor, então percebiam uma atividade em uma determinada região do seu cérebro; em seguida, com olhos vendados pediam que ele imaginasse a flor e a mesma região manifestava a mesma atividade. — As imagens são traidoras e basta uma única visão para o coração se enganar. Sentir ele vai sentir sempre, mesmo que não se queira, mesmo que não se veja ou se torne a ver.

Cuidado, moço, aí tem um degrau, eu disse o convidando a entrar. Ele, relaxando as sobrancelhas, como quem se livra de uma grande preocupação, agradece e emenda: obrigado, senhor, estou percebendo o degrau, mas preciso mesmo ir ao embarque, por onde vou? Esbocei mentalmente um jeito de explicar, mas de que adiantaria pedir que ele seguisse em frente e em certa altura virasse a esquerda? Perdido em seu escuro pessoal naquele ambiente tão iluminado, ele era uma barata zonza de única antena, sua bengala, perscrutando o espaço para evitar os esbarrões e tropeços. Eu agora já não podia voltar atrás, a ajuda não iria poder se limitar numa indicação, Teria que levá-lo até lá, sobretudo porque ele ainda explicou: vou tomar o ônibus para João Pessoa. Pois eu vou levar você lá e temos que nos adiantar, vi que esse ônibus está para sair. A ruga no meio de suas sobrancelhas ligeiramente voltou, mas com voz muito simpática ele me instruiu em como oferecer minha ajuda: pode pegar no meu ombro e caminhar até lá, não se preocupe com o resto. Pegar? Mas não são os cegos que em geral seguram o ombro da gente? Oh, Deus, eu não sei pegar em desconhecidos — eu pensava — eu até de certa forma lhe invejo, senhor cego, porque em meu mundo tão visual eu não sou acostumado em pegar nas coisas e em pessoas, bem como me desagrada ser tocado por quem não conheço. Entretanto, pousei meus dedos indicador e médio em seu ombro e isso foi o bastante para que ele, com um passo mais firme, caminhasse numa velocidade que sei ser impossível para ele quando só.

Cuidado, moço, aí tem um degrau, alertei novamente agora que desceríamos para a plataforma de embarque. Sim, sim, eu percebo o degrau, ele respondeu denotando uma leve impaciência, como quem ao mesmo tempo em que precisa de certos cuidados se irrita com o excesso deles. O embarque ainda estava desorganizado, pessoas espalhadas, despedindo-se, carregando malas. E dessa vez, de maneira firme, peguei no cego, sem constrangimentos, pois crescera em mim naquele instante algo paternal — o pai que segura o filho em meio à multidão para que ele não se perca. E eu suavemente ora o empurrava, ora o puxava, conduzindo-o pelas vias daquele labirinto de objetos e gente. Até chegarmos à porta do ônibus. Depois de conferir com o funcionário que recebia as passagens se a dele era para aquele ônibus mesmo, ele estirou a mão para o nada, sua mão de cego que estirada daquela maneira parece querer apalpar o futuro e agradeceu de maneira enfática, implicitamente dizendo que não precisava mais de mim. Segurei a mão dele: boa viagem. Obrigado! E novamente me dirigi à saída.

Destemido, corajoso e independente, aquele cego é superior a mim. Eu a quem uma imagem põe medo. Eu que muitas vezes enxergando o caminho tenho medo de dar o passo. Eu que mesmo vendo, preciso de uma mão me guiando pelo ombro. Eu que viajo pouco e que precisava que minha tia fosse me buscar na rodoviária não só porque me sentia cansado para ir a pé, mas porque mesmo tendo a visão sadia demoraria um bom tempo para me achar nas ruas daquela cidade onde já fui consideráveis vezes.

Ao chegar ao portão, avistei minha tia que acabava de estacionar: o ônibus chegou agora? Não, é que fui ajudar um cego a embarcar num ônibus. Ela nada comentou. No caminho, antes de me esquecer dele, ainda pensei: ele foi para a cidade onde no Brasil primeiro se vê a luz do sol — uma pena ele não poder ver a luz fresca do sol. Mas ele a sentirá. Bem mais completamente, eu sei.
escrito em 31/01/2007

12.6.08

MEMÓRIA EMOTIVA

Quanto tempo dura uma emoção? Melhor: por quanto tempo a emoção de um momento pode ficar guardada dentro de nós? Será que durante toda a vida carregaremos os ecos de sensações que determinadas situações nos fizeram sentir? Se sim, seremos sempre passíveis de em certos instantes, sem muito aviso — às vezes apenas um gesto ou um cheiro —, sermos acometidos por elas novamente?

Mexendo na bagunça do meu quarto, eis que me recai nas mãos um livro que eu nem lembrava mais possuir. E junto com a lembrança da história que está contida nele ele me trouxe as recordações e emoções da situação em que o ganhei.

A letra meio trêmula com que a autora o ofereceu a mim num autógrafo se encarregou de evocar a data, registrada junto da assinatura: dez de junho de dois mil e cinco. Eu mal havia chegado à cidade, uma então grande amiga que já me aguardava, me ligou dizendo estar com as entradas para a exibição de Dançando no Escuro, que na época já não era mais lançamento, mas ainda não tínhamos visto e aquela amostragem era uma ótima oportunidade. Fomos eu, ela e seu então namorado. Ela se sentou entre nós dois e do meu lado direito a poltrona vizinha se manteve vazia, na seguinte, uma senhora a quem não prestei atenção.

Selma, a protagonista da história, sai da Tchecoslováquia para os EUA — país dos musicais que ela tanto amava assistir — para tentar conseguir fazer a cirurgia que impedirá seu filho de ficar cego devido a uma doença genética que já tirou dela quase toda a visão. Para isso ela trabalha exaustivamente, disfarçando para todos a sua quase total cegueira e seus objetivos. Disfarçando às vezes também para si mesmo seus próprios problemas, imaginando-se num grande musical, onde até mesmo os ruídos das máquinas em que trabalhava viravam música e todos dançavam. Economizava tudo o que pode para o tratamento. Seu vizinho, um policial que está devendo muito ao banco, desesperado e tendo conhecimento de sua deficiência, a rouba. Na tentativa de reaver o seu dinheiro, ela é forçada pelo próprio ladrão a matá-lo. Desacreditada e se privando de detalhar as circunstancias em que tudo aconteceu, acaba sendo condenada à forca. Enquanto espera a execução, até poderia ter recorrido e comutado sua pena, mas como para isso teria que usar o dinheiro que tinha juntado para a cirurgia do filho, prefere que ele se cure e veja os netos que um dia terá e aceita resignadamente a morte.

Mas quem já viu ao filme pode atestar: ele é muito mais do que isso. Só assistindo mesmo para sentir o peso do drama que massacra Selma. Eu chorei. Chorei muito. Não aquele choro de quando vemos um outro filme qualquer, cena de novela, ou mesmo notícias tristes no jornal. Foi um choro desenfreado, com soluços. Nunca passei e os céus me protejam de passar situação parecida. Mas ali era a realidade transfigurada em arte me fazendo provar da mesma agonia que ela sentia em ficar no silêncio. O desamparo com que ela seguia em sua luta. A dor de uma mãe disposta a dar sua vida pra iluminar os olhos do filho. — Maria crucificada em lugar de Jesus.

Fim de filme. As luzes do cinema se acenderam e eu ainda chorava. Minha então amiga e seu então namorado saíram na frente, percebendo que eu realmente precisava de mais um tempo ali sentado. Enxugava as lágrimas na blusa, fungando, procurando me recompor. Foi quando fui surpreendido pelo comentário feito em tom extremamente simpático pela senhora sentada na poltrona depois da vazia ao meu lado:

— Mas que rapaz sensível!

Olhei pra ela tímido, esboçando um sorriso e logo voltando a baixar o rosto.

— Nosso encontro aqui talvez não tenha sido por acaso. Acho muito bonito um jovem capaz de se emocionar assim. — Ela disse sorrindo. Continuou me olhando por uns segundos e mexendo em sua bolsa como quem procurava algo continuou. — Eu havia prometido dar isto a uma pessoa, mas acho que será bem melhor dar a você.

Era um livro. A Luz do Amor. Em outras circunstâncias eu teria pensado de imediato: que título cafona! Mas na hora, nada pensei. Apenas observei a capa e folheava suas páginas sem ler. Ela continuava me olhando com ar bondoso. E então me falou sobre o livro.

— Fui eu que escrevi esse livro. Ele conta a minha história e a história do meu filho. Quando engravidei dele tive uma espécie rara de rubéola que não foi identificada pelos exames médicos. Por conta dela meu filho nasceu prematuro e com múltiplas deficiências, inclusive cegueira. Os médicos lhe deram apenas dez anos de vida. Sofri muito. Sobretudo por conta do preconceito das pessoas. Mas hoje ele já tem catorze anos e todo o amor que eu e minha família damos a ele o faz se adaptar cada vez melhor ao mundo.

Eu fiquei bobo! Ela tomou o livro de minhas mãos, escreveu uma dedicatória e pôs seu autógrafo. Agora era eu que olhava para ela que não parecia ter chorado nenhuma vez ao ver o filme. Naquele mesmo espaço de tempo eu tinha me aproximado de duas histórias diferentes, mas, de certo, com muitas dores parecidas. Uma da ficção e outra real. Duas mulheres que pagavam um preço alto demais porque, como diz Selma no filme, desejavam ter o prazer de segurar um filho nos braços. O que se seguiu eu não sei explicar de quem foi a iniciativa: nos abraçamos. Acho que era apenas isto: nós dois queríamos nos abraçar.

Li o livro de uma vez só na semana seguinte. Leitura fácil, sem se preocupar em fazer Literatura. É apenas o relato de alguém que realmente precisava dividir suas angústias, reflexões e as alegrias que ia conquistando com os progressos do filho. O compartilhar de uma história repleta de emoções que ela, forte que seja, não pode guardar sozinha. É preciso dividi-la com os que ela ama e os desconhecidos. Preferencialmente desconhecidos com a capacidade de se comover, como um rapaz que chora feito criança ao ver um filme.

Pessoas como eu! E não me elejo assim com intenção de me gabar. — Nesta vida o que não falta é motivos para nos comovermos. Seja por conta de tristezas ou de fragmentárias alegrias. Quem sente sabe: a alma às vezes cansa e não há tempo para se refazer. A vida é agora, agora e agora e agora... E amanhã, por mais filho de hoje que seja, pode não guardar nem um laço de parentesco. Duas semanas depois daquele encontro minha vida mudou completamente e um dia talvez eu também escreva um livro contando o que aconteceu. E foi mudando, mudando e só vagas semelhanças e momentos como o de agora em que seguro este livro atestam que o eu daquele dia é o mesmo de hoje. A então amiga já não tem mais seu namorado. Mesmo nós que nos gostávamos tanto nem somos mais amigos. Por onde anda a senhora e seu filho? Continuam bem?

E tudo vai passando. Só nos resta sentir muito. Sentir bem. Porque ao que parece, é só o que fica. E num certo dia, desavisadamente, um livro, ou um filme, ou uma foto, ou um gesto, ou um cheiro vai nos fazer lembrar.

escrito em 22 de janeiro de 2008


10.6.08

SOBRE QUANDO NÃO SE DÁ PARA TROCAR DE GELADEIRA

Esses dias encontrei uma amiga muito querida, dessas com quem se pode ter qualquer tipo de conversa, com quem não há receio de se desnudar em ser verdadeiro e até chorar sem esconder o rosto. E como o mesmo ela sente por mim, não fez rodeios em responder ao meu “como vai?” dizendo estar triste.

— O que aconteceu?

— Eu acho que descobri que não sei amar.

Impossível você não saber amar, pensei. Logo você que sempre me pareceu ser cheia de amor. Que já me falou coisas tão verdadeiras e bonitas sobre ele. Que já leu livros importantes em que o Amor é tão formidavelmente ilustrado. Você que sabe enfeitar-se para o amor, com sua boca charmosamente intumescida, pintada de vermelho, cabelos soltos, indomados, olhos sensuais, boneca adulta. Que é toda feminina e conhece intuitivamente os segredos românticos de antigas sacerdotisas ao perfumar-se, ao vestir-se, ao escolher as jóias, ao cozinhar, fazendo pratos úmidos, caudalosos, coloridos, quentes, aromatizados com temperos eriçantes. Você que sobretudo não facilita com a palavra Amor porque tem consciência do que ele realmente é. Impossível que você não saiba. Mesmo porque, antes de qualquer conhecimento sobre ele, você o sente e sabe que é correspondida. Mas ela continuou:

— Realmente não sei se sei. Às vezes sinto que estou repleta dele, não cabendo em mim e minha pele parece esticar. Como se um único ser não fosse capaz de recebê-lo e eu precisasse de vários amantes para me ajudarem a me livrar dele que só cresce, cresce e precisa de mais espaço. E agora fiquei sabendo de uma amiga que se separou porque se apaixonou por um amigo. Perguntei ao meu marido, a quem julgo ser o grande amor da minha vida, se haveria de ser sempre assim, se para um casal se separar era necessário acontecer uma outra paixão. Ele me falou sobre a teoria da geladeira nova e da velha: você tem uma geladeira velha e embora ela ainda funcione, às vezes parece se sentir cansado dela, do barulho de seu motor, insatisfeito com a temperatura em que ela tem se mantido. Mas permanece com ela por medo de ficar sem geladeira. Até o dia que encontra uma geladeira nova, que lhe agrada e por isso mesmo você perde todo o receio de se desfazer da velha. Fiquei um tanto assustada com aquilo. Somos ainda tão jovens, vamos todos os dias às ruas, entramos em contato com pessoas novas, estamos todos suscetíveis porque vivendo não dá pra ser de outro jeito. Pedi para ele prometer comigo que jamais viveríamos tal situação, que antes que virássemos geladeira velha um pro outro nos separaríamos...

— Bem, até alguns anos em casa, tínhamos uma geladeira que já estava aqui desde antes de eu nascer. Vez ou outra ouvia minha mãe dizer que precisávamos trocar, que o modelo era velho, consumia muita energia e que seu funcionamento já não era tão bom, que de uma hora pra outra poderíamos ficar sem. De fato uma vez ela até pareceu não mais prestar. E já tínhamos o dinheiro para uma nova. Mas preferimos insistir com ela mandando-lhe para o conserto. Porque uma nova, por mais formidável que fosse, não nos serviria. Aquela geladeira velha era preciosamente amarela, a cor de nossa cozinha na época. Para trocarmos teríamos que trocar também a cozinha, porque ninguém mais encontrava geladeira amarela; uma outra ficaria por demais destoante da cozinha e, consequentemente, de nós. Então fomos com ela até onde pudemos porque descobrimos que era só com ela que a harmonia de nossa casa ficaria perfeita. Até quando ela realmente morreu, sem mais chance de conserto. Então trocamos a geladeira, trocamos a cor da cozinha e também outras coisas mudaram em nossa casa e em nós.

Ela olhou fixamente para mim com um novo ar no rosto, alegre, e sorriu. E eu, rapidamente desfazendo uma expressão indagativa por aquele seu olhar, também sorri. — Só agora tinha realmente entendido o que, sem querer, disse.

escrito por volta de abril de 2007

8.6.08

MAURA

— Vocês têm um real para inteirar minha passagem? — ela perguntou com cara e tom extremamente simpáticos, tirando a mim e minha amiga de nossa despretensiosa conversa de mesa de bar.

Era uma dessas doidas que comumente encontramos por qualquer rua. Mas naquela rua do Recife em especial, que se chama Rua do Hospício, eu pensei que tínhamos uma quase obrigação de tratá-la bem. — Nós, tidos sãos, éramos clandestinos ali? Convidei-a para sentar-se conosco tendo a aprovação do olhar da minha amiga, ainda que não soubéssemos exatamente o que conversar com ela. Como a cédula de um real que logo lhe entreguei, sentar-se e ter um pouco de atenção era outra coisa que parecia desejar.

— Meu nome é Maura, como é o de vocês?

Respondemos sem saber ao certo se fomos entendidos. Mas sabendo que para ela isso pouco importava. Sentou sem fazer cerimônia e desandou a falar. Era uma doida mansa e feliz, eu posso garantir — dava para constatar nos sorrisos constantes de boca e olhos pisca-pisca que enfeitavam seu rosto arredondado e bochechudo, acima de um estreito pescoço que unia a cabeça ao corpo gorducho de matrona.

— Pois vocês fiquem sabendo que eu andei muito hoje, resolvendo minhas coisas e esse sapato aqui que estou usando me aperta os pés.

Era um par de sapatos preto, baixo, gasto, sujo de pó — não sei se dessas andanças de hoje, mas que pareciam realmente tê-la acompanhado por outras tantas. Combinavam com o restante de seu visual, montado por um vestido estampadinho, com aspecto envelhecido; coque que deixava alguns fios de cabelo soltos e desgrenhados e uns óculos de lentes e armação grossas. Carregava duas sacolas cheias de não sei o que, mas que deviam ser o suficiente para sua vida feliz e despreocupada de doida — eu que uma vez já quis entregar-me inteiramente à felicidade sei que basta carregar bem pouco. Porque naqueles dias em que estive disposto a largar todas as coisas que me sustentam e me equilibram na vida burguesa que tenho para viver doidamente o que meu coração pedia, eu ia precisar de menos do que ela carregava. Entretanto, a razão dessa felicidade não me queria como eu a queria. E hoje acumulo coisas que nem em sacolas cabem. Mas toda minha felicidade embalada apenas num saquinho de pipoca.

Ela ia nos contando vários fragmentos avulsos do seu dia e de sua vida, pulando de um para outro sem preocupar-se com qualquer coesão que os pudesse correlacioná-los. (Mas o que estou dizendo? Se ela se preocupasse com coisas do tipo eu teria o direito de chamá-la de doida? Isso se tivermos nós realmente esse direito de classificarmos o que é ou não loucura...). Maura me constrangia com sua total de liberdade de ser. Ela simplesmente não se preocupava. Enquanto nós — nós desperdiçamos muito do nosso tempo alimentando sonhos e desejos que talvez nunca sejam realizados porque já formulamos antes leis e convenções que nos reprimem. Maura poderia dançar nua naquela rua tão movimentada, rindo gostoso ao som de sua encantadora música imaginária até que alguém repletamente envergonhado — sobretudo porque não teria tal coragem — a faria parar. São Paulo já havia dito há muito tempo em uma de suas cartas aos Coríntios que Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios.

— Eu gosto muito de cerveja. Lá na minha casa tem um freezer cheio!

Desculpe-me, Maura, por não ter pedido um copo para você beber conosco. Até cogitei fazê-lo, mas achei melhor não. Mesmo porque você não precisa. Nós que nos dizemos normais é que precisamos da cerveja e de outras tantas substâncias para podermos entrar de quando em vez nesse mundo que você vive. Todos nós de uma maneira ou de outra lhe invejamos.

Ela nos contou que sua mãe a odiava e queria lhe fazer o mal:

— Se um dia vocês virem na capa do jornal: “Maura morreu”, podem saber que foi ela quem me matou.

Impossível que sua mãe, sendo viva, a odeie. Difícil crer como alguém não possa gostar de um ser como a Maura, tão agradável e alegre. E eu poderia ter ficado o resto do dia ali ouvindo-a falar, vendo-a rir. Mas o relógio, invenção dessas das mais doidas de gente séria que quer pôr rédeas no tempo, me avisou que já era hora de ir. Chamei minha amiga, que estava igualmente encantada com nossa companhia, pagamos a conta e nos despedimos de Maura, que só pareceu entender que já nos íamos quando nos viu levantar das cadeiras. Então também levantou, agradeceu, se despediu dando tchauzinho com a mão e saiu andando em direção oposta a que seguimos.

Eu e minha amiga nunca a esquecemos e vez ou outra quando estamos juntos comentamos: “lembra daquela tarde da Maura?”. Claro que sim! Maura nossa amiga doida predileta.

E se alguém que me lê agora vir um dia por aí em algum jornal a notícia de que Maura morreu, por favor, me avisa para que eu possa chorar por mim.

escrito em 24/08/2006