19.6.11

SINTO MUITO

O peso de sentir! O peso de ter que sentir!
Fernando Pessoa


É tão muito tantas coisas que sinto, que eu sinto muito por mim.  Numa entrevista que li, Millôr Fernandes, ao receber a pergunta: “como vai você, profundamente falando?”, respondeu : “vou profundamente, não sei de outro jeito”. Suponho que seja assim: por muito, diverso e constante, sentir não é coisa de se aprender.  Também eu vou profundamente por não saber de outro jeito. E é preciso se esforçar bastante para pagar o preço que se cobra. 

Às vezes há sentimentos, suaves ou sofridos, que se fazem enormemente em mim sem que no entanto eu lhes saiba nomear. Houve época em que busquei empatia nos outro para, quem sabe, lhes definir ou ao menos apontar a distância entre mim e sua compreensão. Nunca obtive resposta. Hoje, resta-me aceitar, como disse a Hilda Hilst, que os sentimentos vastos não têm nome.

Mas o meu nome, esqueço. Por isso, não raro, acontecem momentos como certa vez, numa rodoviária: “o meu nome é Filipe”, eu disse – a quem? – ao moço do guichê que havia perguntado para preencher minha passagem, ou a mim mesmo transparente, refletido no vidro do guichê que se interpunha entre nós? Ele anotou. Eu notei: às vezes era como não fosse – meu nome é Filipe. É que quando preciso me chamar, me chamo: Eu. A existência pede o nome. O nome nos circunscreve. Não há como fugir: meu nome faz: Eu.

Tudo é tão capaz de ferir. Toda luz, sobretudo a lucidez, é impiedosa. Perguntei a uma prima se a resistência que ela tem em deixar de lado em alguns momentos suas onipresentes lentes de contato e usar uns óculos desses tão bonitos e modernos que a gente encontra nas óticas tinha a ver com o fato de ela, quando criança, ter sido desde cedo obrigada a usá-los e, lamentavelmente, fazerem-na usar uns horríveis, que a enfeiava. Ela me respondeu que não, que não os usava porque está tão habituada às suas lentes – que jamais comportaram o grau alto que ela realmente necessita – de modo que quando põe os óculos – estes sim com grau certo – enxerga tudo tão bem que se sente tonta e nauseada. Sim, a maior parte de nós não suporta.

A consciência demais do ser, a excessiva vivência, é tão capaz de ferir, tão agressivamente real – real que nos despedaça. Numa das vésperas de um de meus aniversários – um ano a ganhar ou um que se perdia? Sentia-me tão cheio de vida que doía: pura vida magmática em estado pastoso. Telefonei para uma então amiga que entendia desses assuntos para perguntar o que fazer.  – Como é mesmo que se desperdiça a vida, vivendo demais ou de menos? Tenho poucas histórias para contar. Tenho boas histórias para contar. São melhores as de enredo triste e final feliz ou as de enredo feliz e final triste?

Cada um com sua preferência. Sei mesmo é que haverá mais histórias. Outras findarão. E eu sentirei todas, sentirei muito, sentirei bem, porque o que há de infinito nelas, nas coisas em geral e na própria vida, é a repercussão delas em nós. 

2 comentários:

Milena disse...

somos do verbo sentir. e isso, por si só, já é sentir muito.

Anônimo disse...

Esplêndido. =)