21.2.10

PIERROT

(crônica elegíaca de carnaval com versos emprestados do Carnaval de Manuel Bandeira)

– O meu Carnaval sem nenhuma alegria!...
(Manuel Bandeira)


Pois é, todos os caminhos levam à Roma. Por isso não se enganem aqueles que acham que podem mudar desfecho de uma história ambientada na Itália. A Literatura, o Cinema e o Teatro até hoje tentam um outro fim para Romeu e Julieta. Mas, vos pergunto: se se pode chamar Romeu e Julieta a tragédia em que o rapaz, ao encontrar sua amada desacordada, não bebe o resto do veneno; e a moça, ao ver morto o rapaz, não atravessa o ventre com a espada dele?

Mesmo os escolarizados na Comédia Dell’arte – quase sem texto, tão dada ao improviso – percorrem o mais variados percursos, embaralham a trama, criam inúmeras peripérciais, mas não têm como fugir: no carnaval, o Pierrot, no fim, chorará por não ficar com o amor da Colombina.

Mas eu – eu! –, que como o Bandeira, quis imitar Schumann e fazer um carnaval cheio de amor, tentei dar ao sonhador Pierrot um carnaval em que a quarta-feira não tivesse cor e sabor de cinza.

Começou assim: o Pierrot, que já conhecia a Colombina de outros carnavais, estava como quase sempre está, triste, pois a Colombina, teimosa e ciumenta que é, vinha o maltratando, fazendo o pobre sofrer de remorso por ter aceitado uns beijos de uma outra moça que o quis consolar nuns dias em que, num assomo de amor-próprio, resolveu tentar não mais saber da Colombina que andava muito caprichosa e briguenta com ele.

Mas quem disse que ele conseguiu? De Colombina o infantil borzeguim Pierrot aperta a chorar de saudade. Não foi por ser bobo ou gostar de sofrer. É que o coitado ama de verdade e não tem mágoa que não passe quando se ama assim. Então, naquele carnaval, todo desejoso de ser feliz, nem pôs na cara alvaiade, nem carmim, nem lágrima. Vestiu seu traje inconsútil e entre a turba grosseira e fútil passou a procurar a amada para lhe dizer coisas de amor, pedir desculpas sem ter culpa e depois seus beijos.

Um céu estrelado explodia resquícios de saudades...

Não a encontrava. Quem viu a Colombina, quem viu? E a alegria alheia das misteriosas máscaras, o torvelinho das serpentinas e as marchinhas nostálgicas faziam as ruas e pontes de Veneza parecerem um letargo insano e exaustivo. O seu delírio manso agrupa atrás dele os maus e basbaques. Este o indigita, este outro o apupa... Indiferente a tais ataques ele seguia de coração cheio de esperança.

Até que, oh!, Pierrot, me desculpe não ter conseguido, sou mesmo um péssimo escritor: lá estava a Colombina beijando o Arlequim. De peito estraçalhado o Pierrot acena chamando a Colombina pro canto. O Arlequim percebe e dele ri. Ela vem melindrosa, vingativa:

– Que queres tu?

Torna o meu leito, Colombina! Não procures em outros braços os requintes em que se afina a volúpia dos meus abraços. Os atletas poderão dar-te o amor próximo das sevícias... Só eu possuo a ingênua arte das indefiníveis carícias... Meus magros dedos dissolutos conhecem todos os afagos para os teus olhos sempre enxutos mudar em dois brumosos lagos...

A Colombina, insensível, se lhe dá, lesta, à socapa, em vez de um beijo, um tapa. E por um tempo lá fica ele, vendo-a para lá e para cá, de braços dados ao Arlequim que ainda ria, como se não o visse, como se não o conhecesse.

Hoje aminh’alma sombria é como um poço de lástimas..., chorava o Pierrot pierrotado, resignado em se convencer que, ainda que não fosse de pintura, seu rosto era lugar de lágrima.

E entre a turba grosseira e fútil um Pierrot doloroso passa. Veste-o uma túnica inconsútil feita de sonho e de desgraça... Nublada a vista em pranto inútil, dolorosamente ele passa. Veste-o uma túnica inconsútil, feita de sonho e de desgraça...

2 comentários:

Diego Yorkes disse...

linda essa crônica.

amigo, não consigo deixar recado no seu orkut, é bloqueado!

diego y.

Anônimo disse...

que tome o caminhos dos santos!