21.8.11

ÉKSÓ

Nunca me rebelei contra os uniformes escolares. Desde a escolinha, em criança, assistia às aulas trajado no fardamento completo – da camisa ao tênis. Sem qualquer tipo de customização, sem boné, sem relógios coloridos, sem jaquetas ou sem qualquer assessório que voluntariamente transgredisse a básica ideologia do fardamento – igualar. Ainda assim, jamais pude escapar da sensação de deslocamento: a cabeça ruiva, flamejante, faroleira, estava sempre em cima de mim, acima de mim. A implicância das demais crianças com meus cabelos ruivos, o espanto em perceber que sou facilmente localizável, o apontar dos outros nas ruas, os adjetivos “exótico”, “diferente” ou outros do mesmo campo semântico constantemente me sendo entregues... Mas o que fazer? Era fato: não havia outras crianças ruivas na escola, na rua, no bairro – havia na cidade? Não lembro. E assim também o foi na adolescência. Mesmo tendo vindo para uma cidade bem maior durante a primeira fase da juventude, mesmo encontrando ocasionalmente com outros ruivos em alguns lugares, em ônibus – nossos olhares sempre atentos um pro outro, talvez mais admirados conosco que os outros de cabelos de tonalidade mais comum, o silêncio que dizia espantado: um ruivo!, até o momento de sairmos de nossos campos de visão com uma levíssima estranha sensação de comunhão . Eu devia ter aprendido melhor para hoje não me deixar atingir tanto. Pois tudo isso àquela época eram, decerto, ensaios para hoje. Hoje que dentro de mim tudo é tão incandescente e magmático que suplanta qualquer brilho ígneo que meus cabelos agora um tanto esmaecidos possam radiar ao sol. Hoje é o meu de-dentro que sinto muito mais singular, exótico, diferente, tantas vezes estranho a mim mesmo, de fogo – ruivo. E em meio à mudez instaurada entre quem eu vejo e me vê por onde vou, ou a pouca palavra entre mim e os que conheço, não posso esperar que me apontem, que me localizem pelo que jorra de mim em – mim. Entretanto, ontem à noite, como em alguns sábados à noite, saí, fardado de sorrisos, de perfumes, de roupas, de amigos, desejoso de me igualar a quem sai aos sábados à noite para se divertir. Às vezes consigo. Gosto. Mas ontem falhei. Não sei o que aconteceu, estava indo bem, a música estava boa, as companhias eram agradáveis, até que desavisadamente como são os abalos sísmicos meus avessos começaram a se remexer, o âmago a se chocar contra o âmago, corri para o banheiro e vomitei. Na boca ficou, muito representativamente, um insuportável gosto amargo. Fui imediatamente ao bar, comprei uma bebida que engolia em grandes goles, enquanto engendrava conversas com quem estava ao meu redor sobre qualquer coisa para tentar disfarçar a falência de meu ânimo. Dançar já estava fora de qualquer cogitação. Tentei flertes – mas era inútil. Nada mais eu tinha a ver com as pessoas e com o local e com a música. Aquela velha sensação de garotinho na escola havia voltado, mas potencializada com a impiedosa força com que maltrato a mim próprio e, ao mesmo tempo, também com a selvageria de uma autoestima liberta, que em onda andante e flexível agora corre desaferrada, que nada mais quer deixar morrer no coração, me deixava eriçado.  Tudo ali ficou assombrosamente bobo, inferior, débil, patético. O ar de tão pesado exigia esforço para entrar nas narinas e, como se não bastasse, estava inteiramente contaminado com a fumaça de cigarros irritantes.  Estava cada vez mais difícil manter a pose. Foi então que o moço ao meu lado, moço que escreve livros pra criança, chegou mais perto de mim e do nada perguntou: você não se sente daqui, não é? Fiquei constrangido como quem é pego em flagrante. Não, agora não me sinto, respondi num sorriso nervoso. Me despedi dele num longo e forte abraço, também de quem estava mais próximo, tomei um táxi e voltei para casa, exaurido.

15.8.11

ORIDES FONTELA SEGURANDO MINHA MÃO

Não que esperasse muito do filme, mas embora minha companhia houvesse desmarcado e estivesse demasiado em cima da hora para convidar outra pessoa para ir comigo, eu precisava ir ao cinema hoje. Aliás, digo que precisava ir ao cinema porque já era o planejado – em verdade, o que eu precisava mesmo era sair de casa, sair do que é possível, do que é meu e me cerca, porque hoje eu era um perigo para mim: memórias mentindo o passado, rastros de mim dando voltas, esquecimentos desacertados... Fui sozinho.

Não havia quase ninguém na sala – que vazia, penumbrática e impessoal como se encontrava era o que eu precisava. Mas era a primeira sessão e eu havia chegado cedo. Faltavam ainda vinte minutos para começar a projeção do filme e depois de alguns minutos comecei a me impacientar com a espera. Não havia fome, sede, vontade de ir ao banheiro, nada para se fazer. Por sorte eu havia deixado dentro da bolsa o livro da Orides Fontela e, como a luz ainda permitia, folheei algumas páginas relendo poemas favoritos e retomando, com gosto de novos, poemas já esquecidos, como este que me trouxe o choro que eu precisava para me consolar comigo:

SEMEIO SÓIS
e sons
na terra viva

afundo os
pés
no chão: semeio e
passo.

Não me importa a colheita.

Não se importar com a colheita. Contentar-se em semear. Clarice Lispector também escreveu algo parecido: “nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos.” É difícil. É triste. Mas parece que para mim só isto. Olhar para trás e apenas ver os frutos. Ver os outros desfrutarem do que semeei em suas vidas. E digo isso sem arrogância, digo como diria Tistu, o menino do dedo verde, só que sem sua inocência e sem sua alegria.

Sorrisos, amizades, paixões, amores, projetos. Arregaçar mais as pernas das calças, pisar mais fundo – para semear e para passos cada vez mais largos. Não tocar nos frutos. Não amar os frutos. Não se importar com a colheita. Consolar-se ainda que pela resignação e não mais sofrer, pois a travessia, ao menos, é fecunda. E meu nome, provavelmente, aciona à muitas lembranças caminhos com sóis e sons.

O filme iria começar...

Há dias em que anos se passam.