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8.8.09

A ALUNA

Ela era feia. Nenhum atrativo no corpo magro e franzino. E o rosto, como se não bastasse a ausência de beleza, denunciava, como é comum nas pessoas que assim o são, a leve demência que tinha. E era exatamente esse desconcerto de vida o que lhe dava a única graça que possuía. Era de uma simpatia insistente, parecia que nada era capaz de lhe irritar ou deixar de mau humor. Seus dentes, cheios de ferros do aparelho que usava, estavam quase sempre à mostra no sorriso que ela dava tantas vezes até ao nada. Sobretudo na escola, onde seu sorriso fazia coro com riso dos colegas de sala que, com crueldade típica da juventude, não davam nenhum desconto ao seu jeito de ser e constantemente caçoavam dela.

Ela tinha vinte anos e estudava o primeiro ano do normal médio. Queria ser professrora. Cheia de dificuldades com a maior parte das matérias – os colegas asseguravam, no entanto, que ela era boa em matemática, o que não é de se espantar, afinal, a matemática, embora ciência exata, precisa de todo o campo fértil da abstração, coisa tão simples para quem não está tão resignado ao que somente pode fazer sentido –, cheia de dificuldades, tentando sofridamente prestar atenção em tudo com seus olhos pequenos que ela espremia pra ouvir, já havia repetido de ano algumas vezes e, em outros, passou com a facilidade que alguns professores promoveram.

Na certa seria o que também acabaria por fazer aquele professor do primeiro ano. Muito embora ele, apesar de jamais conseguir ser hostil com ela, se impacientava facilmente com seu jeito. Às vezes ela enfiava a cara até onde podia nos basculantes de outras salas onde ele dava aula e, quando ele olhava em sua direção, toda carinhosa dizia: “querido professor, tudo bem?” ou “oi, meu professorzinho”, o que ao mesmo tempo em que lhe deixava consideravelmente irritado e constrangido, lhe impedia qualquer grosseria. Ele fazia o que podia para não interagir com ela, se sentia mesmo agradecido quando ela o esquecia, mas não conseguia não lhe chamar a atenção ou perguntar se ela estava mesmo entendendo quando ficava olhando fixamente pra ele, para a lousa ou para o nada, na hora da aula, com cara de perdida e a boca entreaberta. Tô entendendo tudo, professor, é que to com preguiça. E ria.

Não era uma pessoa amarga esse professor. Era bem jovem naquela época; a vida ainda teria muitas oportunidades de lhe machucar. Mas era precisamente por já saber que a vida, de uma maneira geral, não é boa, que ele há muito aprendeu a desconfiar do gratuito, do riso constante, das pessoas efusivas, dos amigos instantâneos, do “eu te amo” ladainha. Mantinha-se distante e superior a pessoas fáceis assim. Era de poucos amigos e com eles tinha alegrias esporádicas mas verdadeiras e profundas. Tinha um amor também; viviam em cidades diferentes, mas sempre quando dava se viam e era amor mesmo quando não se dizia. A felicidade verdadeira é o conjunto todo do de quando em vez, sim? Não era amargo esse professor, quase nunca deixava escapar uma oportunidade de estar feliz, para justamente dar o troco à vida, porque a ela ele não perdoava.

Mas a aluna? A aluna não estava entre as pessoas fáceis, a aluna não era gratuita. A aluna sorria como se necessitasse, como se fosse sorrindo que ela respirasse, mas era um sorriso, e, conseqüentemente, acompanhado de todo o benfazejo que ele faz ao corpo e à alma. Ela era feliz, era feliz o tempo todo, mesmo quando parecia melancólica e inclinava um pouco a cabeça, de boca fechada, piscando os olhos às vezes muito rapidamente, como se tivesse um cisco neles, mas daí bastava alguém perguntar o que tinha que ela botava os dentes metalizados pra fora e começava a falar toda solícita.

O professor não sabia de onde vinha essa irritação que lhe tomava quando ela lhe dirigia a palavra ou quando ela se aproximava. Na verdade ele não entendia que se sentia, de certa maneira, rebaixado quando perto dela. – Ele, sadio que sempre foi, sabedor de muitas coisas que se esforçou para saber, com sua cota de beleza, com seus cabelos cacheados e ruivos recebedor de elogios, com o respeito que tinha, era apenas normal, comum. Ela era a confirmação de que uma outra coisa era possível, de que uma outra forma de vida existia e que não era preciso estar tão distante deste mundo. Ela podia ser feliz o tempo todo, mesmo que lhe explicassem pormenorizadamente que lhe faziam sofrer. Não era inocente. Ela conseguiria entender. Mas não se importava. Continuaria rindo sinceramente. Se alguém lhe provasse que ela era feia e que ninguém a quereria, continuaria feia sem verdadeiramente se importar, sem nenhuma vaidade, de cabelos sempre presos e cheios de frizz como se os tivesse amarrado logo depois de acordar. Livre e sonhando em ser professora. Isso ofendia o professor, porque ainda que ele tivesse toda a compreensão disso, não estaria disposto a trocar sua vida segura e burguesa pela possibilidade de ter uma como a dela. Teria medo, porque mesmo para ser livre ele precisava de portos seguros.

E houve o dia em que ela, sem o menor esboço de aviso, abraçou subitamente o professor quando saia de uma das turmas. Ele ruborizou, testa e bochechas ardendo, invadido em seu espaço pessoal, constrangido. Todos ao redor olharam. Riram dela. Ele riu também, sem graça e a apertou sem muita força contra si. Ela saiu toda contente. Toda namorada. Toda filha. Toda irmã. Deu tempo dele ficar comovido com o gesto enquanto se dirigia à secretaria. Essa criatura vai mesmo com minha cara, ele pensou. Apesar dele não gostar dela. Ela sabia gostar dos outros sem a reciprocidade, o amor nela não era exigente, era amor sem antônimos. Então ficou ofendido e procurou esquecer o que aconteceu. Mas sempre alerta quando ela estava por perto para fugir antes de outro abraço.

No final do primeiro semestre, as provas. Era uma quarta-feira o dia da prova na sala dela. Ela chegou uns vinte minutos depois que o sinal havia tocado. Todos já estavam fazendo a prova. Ela entrou. Licença, professorzinho. Ele esticando a prova para ela: vá sentar na última cadeira dessa fila. E toda dramática, caricaturizando atriz de novela mexicana ela disse: ai, professor, aqui no fundão!? que humilhação. Todos riram, menos o professor: aí sim.

Depois daquela semana, férias. Então o professor, cansado que estava, queria se ver longe de tudo aquilo, sobretudo longe da escola, adiantou tudo o que pode, virou a noite corrigindo as provas na madrugada, entregou os resultados na quinta e viajou. Foi ver o seu amor. Foi se esquecer de um monte de coisa. Foi se divertir. Era bom estar desobrigado de tudo. Era bom não ser professor.

Mas então se acabam as férias e se volta a ser professor, porque há um monte de gente do mundo que ainda não sabe. E na hora da aula há chamada, porque se não os chamam, eles não vêm. Aí o professor chama o nome dela. Um aluno, todo jocoso, diz: essa daí foi transferida para outra vida. Os outros o repreenderam, o xingaram. O professor, sem muito acreditar, exige que façam silêncio. Uma aluna pergunta: o senhor não tava sabendo ainda? Ela morreu, professor, na sexta-feira daquela semana de prova.

Ele ficou atônito. O susto não era saber que ela havia morrido. O susto era que ela também podia morrer. Ele jamais havia lembrado. Era óbvio, claro, a gente morre, mas ela não era óbvia. Então contaram que ela há muito tinha o coração fraco. Que ela já chegou na escola, para o espanto de todos, se queixando de dores, de muita dor. Gritava. Pediu para ser levada para o hospital. Mas ainda assim ficou lá daquele jeito dela. Até morrer. Foi como descreveram. Contaram também que o pai dela era um homem severo, ríspido e lhe batia muito. O professor levou a mão para o campo de anotações no diário de sala. Ia escrever “falecida”, mas não conseguiu. Ficou alguns segundos perdido, olhando pra algum canto que não via. Quase se sentiu culpado por não ter gostado dela. Mas passou a página muito solene, como tornaria a fazer até o fim do ano, e chamou o nome seguinte.

26.4.09

NADA MAIS QUE A VERDADE

Se então um menino vem ao encontro de vocês, se ele ri, se tem cabelos de ouro, se não responde quando interrogam, adivinharão quem é. Então, por favor, não me deixem tão triste: escrevam-me depressa que ele voltou...
(O Pequeno Príncipe - Exupéry)


Às vezes sinto falta de meus tempos de criança. Não que eu ache que a infância tenha sido a aurora da minha vida, lamentando que os anos não a tragam mais. Estou mais para Hesse, que acredita que para trás não conduz a nenhum caminho, que nem mesmo as crianças são felizes e sim suscetíveis de muitos conflitos, de muitas desarmonias, de todos os sofrimentos. Sinto falta talvez por aquele tempo ser época em que, mesmo antes de me ser negado todo tipo de conhecimento, eu era realmente pequeno demais para compreender. Pois dentro de minha vontade grande de saber de todas as verdades, é só o não-entender que, ainda que momentaneamente, me conforma.

Fui, durante considerável tempo, criança trancada em casa com babá, porque meus pais saiam para trabalhar. A diferença de idade entre mim e meu irmão era, então, considerável para que ele fosse companhia em minhas brincadeiras. Recebia muito poucas vezes visita de amiguinhos em casa. Então meus brinquedos — que não posso me queixar, eram muitos —, em sua maioria, eram de brincar só mesmo. Tinha muitas peças de LEGO, criava vários robôs, carros e ambientes; lembro de uma série LEGO de tela para se construir desenhos com as pecinhas mais finas, acho que produzi desenhos suficientes para toda uma exposição. Também tinha a massinha pra modelar — eu era muito orgulhoso de mim com a superioridade de minhas esculturas, que quando feitas na escola, impressionavam os outros meninos.


Por ser ruivo, foi em criança que descobri que se paga um preço por ser diferente: na escola tinha vários apelidos hostis por conta de meus cabelos. Me zangava, as vezes queria brigar, mas eu era realmente o único de cabelos laranja ali, o que me restava senão achar que a culpa era mesmo minha?


Meus pais só se separaram quando eu já tinha onze anos, mas desde que me conheci, também tive que aprender a lidar com a falta de ter um pai. Não sei até onde ele tem culpa nisso. Afinal, se por um lado não há escola para essas coisas; por outro, há os que não aprendem nunca. Há fotos minhas bebê em seu colo, onde ele parece bastante alegre e orgulhoso do filho. Mas depois que tive idade suficiente pra reter lembranças na memória, ele nunca soube ser afetuoso. No entanto, me lembro com total clareza de dois momentos em que houve a tentativa. — Eu devia ter cinco ou seis anos, era cedinho e meu aniversário; acordei com o levíssimo rumor que ele fez ao entrar no meu quarto para pôr sobre os meus chinelinhos um trem elétrico que tenho até hoje. Não sei explicar. Não me lembro. Sei que fingi que ainda dormia e suportei firmemente a minha curiosidade em saber o que era que havia naquela caixona até a hora em que eu costumava acordar. Ao acordar, fiz toda a festa com o brinquedo novo. Lembro de minha mãe fingindo surpresa, me beijando, dizendo ser lindo o trenzinho, lembro de Maninho, um vizinho mais velho, vir me ajudar a montar pela primeira vez os trilhos, mas não lembro de qualquer gesto de meu pai. Numa outra vez, quando podaram as árvores dos canteiros que separam os sentidos mão e contra-mão da avenida que morávamos, a moda entre os meninos da rua com quem eu raramente brincava, era fazer arco e flecha com os galhos cortados. Meu pai, ao ver o quão era mal feito o que eu tinha construído para mim, pegou galhos e, lá no quintal, com uma faca, fez um arco fabuloso pra mim, bem resistente e flechas retinhas, lisas, sem casca da madeira. Fiquei tão orgulhoso! Fui brincar com os meninos. Mas não durou muito. Um deles, maior que eu, tinha um canivete e me convenceu de que eu devia deixá-lo apontar as flechas para que elas ficassem como as de índio de verdade. Eu não pude ir à casa dele com os outros meninos para vê-lo executar o favor. Quando eles voltaram, me disseram que na tentativa de apontar, as flechas quebraram, uma a uma. No início, bobo que eu era, acreditei, nem me zanguei com eles. Depois é que vi que eles quebraram tudo com inveja ou sadismo. E dos dois carinhos de meu pai em épocas que podiam me ficar na memória, só me resta o trenzinho que não sei mais montar.


Acho que de alguma forma foi essa solidão de criança que me fez aguçar a imaginação e criatividade. Pois não me lembro de naqueles tempos de ter consciência de não compreender algo. Não me era preciso muito para adivinhar as respostas. Eu explicava, por exemplo, que os raios e os trovões eram o resultado de uma nuvem se chocando com a outra, como quando batemos duas pedras e sai barulho e faísca. Eu achava que nuvem era gelo flutuando e que a chuva era esse mesmo gelo derretendo. Mas não me ocorria pensar em como um raio de fogo podia sair de duas pedras de gelo enorme se chocando. Pensar nisso pra quê? “Aleluia” era uma panela que ficava sempre em cima do fogão com leite. Achava que jornalistas de TV eram meio maus quando em notícia de desastre eles diziam: “morreram pelo menos dez pessoas”. E dez pessoas já não é muito?, eu pensava. Ainda sobre morrer, eu, criança do interior, ouvia o carro de som noticiar o falecimento de alguém e sempre no fim da nota o homem dizia: “a família desde já agradece a todos que comparecerem a este ato de fé e solidariedade cristã”. Daí eu lamentava: como morre gente nessa família Desdejá, meu deus! Quando ouvi pela primeira vez falarem de dengue e que pra evitá-la não podíamos deixar recipientes com água parada, se tivesse que beber água aos poucos, enquanto conversava com alguém, por exemplo, sempre dava um jeito de ficar chacoalhando um pouquinho o copo para a água não parar e eu pegar dengue. Uma vez meu tio, que morava numa casa perto de uns terrenos com muitas plantas e entulhos, trouxe pra casa um escorpião num vidrinho de maionese. Fique atordoado com aquele bicho e com o que ouvi sobre ele, que podia morrer de uma febre provocada pela ferroada. Pouco depois nos mudamos pra uma casa que na rua paralela tinha muito matagal, então morria de secreto medo de escorpião e mesmo em tempos de calor, pedia a minha mãe, que ficava sem nada entender, pra que me deixasse dormir com um cobertor grossíssimo que ela tinha. Uma prima me contou sobre o Negro D’água, uma lenda do rio São Francisco, que ele saía da água depois do crepúsculo e levava a gente pro fundo do rio. Daí eu passei a ter medo até da água da privada depois que o sol descia. Essa mesma prima me contou da Comadre Florzinha, que fazia todo mundo que invocasse seu nome no meio da mata se perder e ainda levava umas chicotadas. Só se safavam aqueles que carregavam fumo de rolo consigo. Eu, que nunca andava com fumo, ficava com medo de pensar na Comadre Florzinha até no jardim da casa de vovó, que era cheio de plantas.


É engraçado relembrar dessas coisas, desses medos. Medos que eu só tinha porque as verdades que eu sabia naqueles anos eram limitadas demais e me permitiam. Não sei precisamente quando foi que comi o fruto do conhecimento do bem e do mal. Acho que porque em adulto iria me tornar ateu, nunca houve deus ou anjo pra me avisar do perigo que é. Mas agora estou fora do paraíso desses tantos seres possíveis, almas do outro mundo e da simples paz de me contentar com minhas próprias explicações e conclusões.


Fui saindo sem ver. Sem sentir. Nunca tinha pensado nessas coisas; nunca tinha dado por minha transformação mesmo depois de já estar trabalhando, ganhando meu próprio dinheiro. Comecei por dar aulas a crianças e adolescentes. Julgava não ser tão considerável a diferença do meu espírito do deles. Até o dia que, como um amigo quer compartilhar uma leitura com outro, pedi a os meninos da sétima série que lessem O Pequeno Príncipe, livro que li e reli incontáveis vezes quando tinha a idade deles e até um pouco mais. Pedi, para começar, que eles, após lerem, respondessem a ficha de leitura que acompanhava a edição. Então resolvi reler a obra mais uma vez, depois de tanto tempo, para ter mais confiança na correção dos trabalhos. Foi um choque. Eu já não conseguia mais ver o elefante engolido pela cobra. Era difícil não ver ali um chapéu. Não conseguia ver além da caixa. Não conseguia ver o carneiro. E, no fim, quando ele diz que se acreditarmos que em algum lugar do céu há um planetinha e nele um menino com uma rosa e três vulcões, as estrelas serão guizos e se não acreditarmos, as estrelas serão só lágrimas, olhei pro céu e constatei que, há muito, as estrelas nem mais tinham o formato pentacular que eu costumava desenhar quando tentava pintar o horizonte. Não mais o formato da estrelinha da turma da Mônica, amarelinha, sorridente, que piscava da palma da mão e me enchia de emoção, apesar de ser um brinquedo tão estático. Nem tampouco podiam abrigar menino, rosa ou vulcões tão disciplinados. Eu chorei. Chorei muito trancado no banheiro. E foi meu último choro da criança que eu já não mais era.


E agora? Bem, agora, na verdade, é somente a verdade.

12.6.08

MEMÓRIA EMOTIVA

Quanto tempo dura uma emoção? Melhor: por quanto tempo a emoção de um momento pode ficar guardada dentro de nós? Será que durante toda a vida carregaremos os ecos de sensações que determinadas situações nos fizeram sentir? Se sim, seremos sempre passíveis de em certos instantes, sem muito aviso — às vezes apenas um gesto ou um cheiro —, sermos acometidos por elas novamente?

Mexendo na bagunça do meu quarto, eis que me recai nas mãos um livro que eu nem lembrava mais possuir. E junto com a lembrança da história que está contida nele ele me trouxe as recordações e emoções da situação em que o ganhei.

A letra meio trêmula com que a autora o ofereceu a mim num autógrafo se encarregou de evocar a data, registrada junto da assinatura: dez de junho de dois mil e cinco. Eu mal havia chegado à cidade, uma então grande amiga que já me aguardava, me ligou dizendo estar com as entradas para a exibição de Dançando no Escuro, que na época já não era mais lançamento, mas ainda não tínhamos visto e aquela amostragem era uma ótima oportunidade. Fomos eu, ela e seu então namorado. Ela se sentou entre nós dois e do meu lado direito a poltrona vizinha se manteve vazia, na seguinte, uma senhora a quem não prestei atenção.

Selma, a protagonista da história, sai da Tchecoslováquia para os EUA — país dos musicais que ela tanto amava assistir — para tentar conseguir fazer a cirurgia que impedirá seu filho de ficar cego devido a uma doença genética que já tirou dela quase toda a visão. Para isso ela trabalha exaustivamente, disfarçando para todos a sua quase total cegueira e seus objetivos. Disfarçando às vezes também para si mesmo seus próprios problemas, imaginando-se num grande musical, onde até mesmo os ruídos das máquinas em que trabalhava viravam música e todos dançavam. Economizava tudo o que pode para o tratamento. Seu vizinho, um policial que está devendo muito ao banco, desesperado e tendo conhecimento de sua deficiência, a rouba. Na tentativa de reaver o seu dinheiro, ela é forçada pelo próprio ladrão a matá-lo. Desacreditada e se privando de detalhar as circunstancias em que tudo aconteceu, acaba sendo condenada à forca. Enquanto espera a execução, até poderia ter recorrido e comutado sua pena, mas como para isso teria que usar o dinheiro que tinha juntado para a cirurgia do filho, prefere que ele se cure e veja os netos que um dia terá e aceita resignadamente a morte.

Mas quem já viu ao filme pode atestar: ele é muito mais do que isso. Só assistindo mesmo para sentir o peso do drama que massacra Selma. Eu chorei. Chorei muito. Não aquele choro de quando vemos um outro filme qualquer, cena de novela, ou mesmo notícias tristes no jornal. Foi um choro desenfreado, com soluços. Nunca passei e os céus me protejam de passar situação parecida. Mas ali era a realidade transfigurada em arte me fazendo provar da mesma agonia que ela sentia em ficar no silêncio. O desamparo com que ela seguia em sua luta. A dor de uma mãe disposta a dar sua vida pra iluminar os olhos do filho. — Maria crucificada em lugar de Jesus.

Fim de filme. As luzes do cinema se acenderam e eu ainda chorava. Minha então amiga e seu então namorado saíram na frente, percebendo que eu realmente precisava de mais um tempo ali sentado. Enxugava as lágrimas na blusa, fungando, procurando me recompor. Foi quando fui surpreendido pelo comentário feito em tom extremamente simpático pela senhora sentada na poltrona depois da vazia ao meu lado:

— Mas que rapaz sensível!

Olhei pra ela tímido, esboçando um sorriso e logo voltando a baixar o rosto.

— Nosso encontro aqui talvez não tenha sido por acaso. Acho muito bonito um jovem capaz de se emocionar assim. — Ela disse sorrindo. Continuou me olhando por uns segundos e mexendo em sua bolsa como quem procurava algo continuou. — Eu havia prometido dar isto a uma pessoa, mas acho que será bem melhor dar a você.

Era um livro. A Luz do Amor. Em outras circunstâncias eu teria pensado de imediato: que título cafona! Mas na hora, nada pensei. Apenas observei a capa e folheava suas páginas sem ler. Ela continuava me olhando com ar bondoso. E então me falou sobre o livro.

— Fui eu que escrevi esse livro. Ele conta a minha história e a história do meu filho. Quando engravidei dele tive uma espécie rara de rubéola que não foi identificada pelos exames médicos. Por conta dela meu filho nasceu prematuro e com múltiplas deficiências, inclusive cegueira. Os médicos lhe deram apenas dez anos de vida. Sofri muito. Sobretudo por conta do preconceito das pessoas. Mas hoje ele já tem catorze anos e todo o amor que eu e minha família damos a ele o faz se adaptar cada vez melhor ao mundo.

Eu fiquei bobo! Ela tomou o livro de minhas mãos, escreveu uma dedicatória e pôs seu autógrafo. Agora era eu que olhava para ela que não parecia ter chorado nenhuma vez ao ver o filme. Naquele mesmo espaço de tempo eu tinha me aproximado de duas histórias diferentes, mas, de certo, com muitas dores parecidas. Uma da ficção e outra real. Duas mulheres que pagavam um preço alto demais porque, como diz Selma no filme, desejavam ter o prazer de segurar um filho nos braços. O que se seguiu eu não sei explicar de quem foi a iniciativa: nos abraçamos. Acho que era apenas isto: nós dois queríamos nos abraçar.

Li o livro de uma vez só na semana seguinte. Leitura fácil, sem se preocupar em fazer Literatura. É apenas o relato de alguém que realmente precisava dividir suas angústias, reflexões e as alegrias que ia conquistando com os progressos do filho. O compartilhar de uma história repleta de emoções que ela, forte que seja, não pode guardar sozinha. É preciso dividi-la com os que ela ama e os desconhecidos. Preferencialmente desconhecidos com a capacidade de se comover, como um rapaz que chora feito criança ao ver um filme.

Pessoas como eu! E não me elejo assim com intenção de me gabar. — Nesta vida o que não falta é motivos para nos comovermos. Seja por conta de tristezas ou de fragmentárias alegrias. Quem sente sabe: a alma às vezes cansa e não há tempo para se refazer. A vida é agora, agora e agora e agora... E amanhã, por mais filho de hoje que seja, pode não guardar nem um laço de parentesco. Duas semanas depois daquele encontro minha vida mudou completamente e um dia talvez eu também escreva um livro contando o que aconteceu. E foi mudando, mudando e só vagas semelhanças e momentos como o de agora em que seguro este livro atestam que o eu daquele dia é o mesmo de hoje. A então amiga já não tem mais seu namorado. Mesmo nós que nos gostávamos tanto nem somos mais amigos. Por onde anda a senhora e seu filho? Continuam bem?

E tudo vai passando. Só nos resta sentir muito. Sentir bem. Porque ao que parece, é só o que fica. E num certo dia, desavisadamente, um livro, ou um filme, ou uma foto, ou um gesto, ou um cheiro vai nos fazer lembrar.

escrito em 22 de janeiro de 2008


10.6.08

SOBRE QUANDO NÃO SE DÁ PARA TROCAR DE GELADEIRA

Esses dias encontrei uma amiga muito querida, dessas com quem se pode ter qualquer tipo de conversa, com quem não há receio de se desnudar em ser verdadeiro e até chorar sem esconder o rosto. E como o mesmo ela sente por mim, não fez rodeios em responder ao meu “como vai?” dizendo estar triste.

— O que aconteceu?

— Eu acho que descobri que não sei amar.

Impossível você não saber amar, pensei. Logo você que sempre me pareceu ser cheia de amor. Que já me falou coisas tão verdadeiras e bonitas sobre ele. Que já leu livros importantes em que o Amor é tão formidavelmente ilustrado. Você que sabe enfeitar-se para o amor, com sua boca charmosamente intumescida, pintada de vermelho, cabelos soltos, indomados, olhos sensuais, boneca adulta. Que é toda feminina e conhece intuitivamente os segredos românticos de antigas sacerdotisas ao perfumar-se, ao vestir-se, ao escolher as jóias, ao cozinhar, fazendo pratos úmidos, caudalosos, coloridos, quentes, aromatizados com temperos eriçantes. Você que sobretudo não facilita com a palavra Amor porque tem consciência do que ele realmente é. Impossível que você não saiba. Mesmo porque, antes de qualquer conhecimento sobre ele, você o sente e sabe que é correspondida. Mas ela continuou:

— Realmente não sei se sei. Às vezes sinto que estou repleta dele, não cabendo em mim e minha pele parece esticar. Como se um único ser não fosse capaz de recebê-lo e eu precisasse de vários amantes para me ajudarem a me livrar dele que só cresce, cresce e precisa de mais espaço. E agora fiquei sabendo de uma amiga que se separou porque se apaixonou por um amigo. Perguntei ao meu marido, a quem julgo ser o grande amor da minha vida, se haveria de ser sempre assim, se para um casal se separar era necessário acontecer uma outra paixão. Ele me falou sobre a teoria da geladeira nova e da velha: você tem uma geladeira velha e embora ela ainda funcione, às vezes parece se sentir cansado dela, do barulho de seu motor, insatisfeito com a temperatura em que ela tem se mantido. Mas permanece com ela por medo de ficar sem geladeira. Até o dia que encontra uma geladeira nova, que lhe agrada e por isso mesmo você perde todo o receio de se desfazer da velha. Fiquei um tanto assustada com aquilo. Somos ainda tão jovens, vamos todos os dias às ruas, entramos em contato com pessoas novas, estamos todos suscetíveis porque vivendo não dá pra ser de outro jeito. Pedi para ele prometer comigo que jamais viveríamos tal situação, que antes que virássemos geladeira velha um pro outro nos separaríamos...

— Bem, até alguns anos em casa, tínhamos uma geladeira que já estava aqui desde antes de eu nascer. Vez ou outra ouvia minha mãe dizer que precisávamos trocar, que o modelo era velho, consumia muita energia e que seu funcionamento já não era tão bom, que de uma hora pra outra poderíamos ficar sem. De fato uma vez ela até pareceu não mais prestar. E já tínhamos o dinheiro para uma nova. Mas preferimos insistir com ela mandando-lhe para o conserto. Porque uma nova, por mais formidável que fosse, não nos serviria. Aquela geladeira velha era preciosamente amarela, a cor de nossa cozinha na época. Para trocarmos teríamos que trocar também a cozinha, porque ninguém mais encontrava geladeira amarela; uma outra ficaria por demais destoante da cozinha e, consequentemente, de nós. Então fomos com ela até onde pudemos porque descobrimos que era só com ela que a harmonia de nossa casa ficaria perfeita. Até quando ela realmente morreu, sem mais chance de conserto. Então trocamos a geladeira, trocamos a cor da cozinha e também outras coisas mudaram em nossa casa e em nós.

Ela olhou fixamente para mim com um novo ar no rosto, alegre, e sorriu. E eu, rapidamente desfazendo uma expressão indagativa por aquele seu olhar, também sorri. — Só agora tinha realmente entendido o que, sem querer, disse.

escrito por volta de abril de 2007

8.6.08

MAURA

— Vocês têm um real para inteirar minha passagem? — ela perguntou com cara e tom extremamente simpáticos, tirando a mim e minha amiga de nossa despretensiosa conversa de mesa de bar.

Era uma dessas doidas que comumente encontramos por qualquer rua. Mas naquela rua do Recife em especial, que se chama Rua do Hospício, eu pensei que tínhamos uma quase obrigação de tratá-la bem. — Nós, tidos sãos, éramos clandestinos ali? Convidei-a para sentar-se conosco tendo a aprovação do olhar da minha amiga, ainda que não soubéssemos exatamente o que conversar com ela. Como a cédula de um real que logo lhe entreguei, sentar-se e ter um pouco de atenção era outra coisa que parecia desejar.

— Meu nome é Maura, como é o de vocês?

Respondemos sem saber ao certo se fomos entendidos. Mas sabendo que para ela isso pouco importava. Sentou sem fazer cerimônia e desandou a falar. Era uma doida mansa e feliz, eu posso garantir — dava para constatar nos sorrisos constantes de boca e olhos pisca-pisca que enfeitavam seu rosto arredondado e bochechudo, acima de um estreito pescoço que unia a cabeça ao corpo gorducho de matrona.

— Pois vocês fiquem sabendo que eu andei muito hoje, resolvendo minhas coisas e esse sapato aqui que estou usando me aperta os pés.

Era um par de sapatos preto, baixo, gasto, sujo de pó — não sei se dessas andanças de hoje, mas que pareciam realmente tê-la acompanhado por outras tantas. Combinavam com o restante de seu visual, montado por um vestido estampadinho, com aspecto envelhecido; coque que deixava alguns fios de cabelo soltos e desgrenhados e uns óculos de lentes e armação grossas. Carregava duas sacolas cheias de não sei o que, mas que deviam ser o suficiente para sua vida feliz e despreocupada de doida — eu que uma vez já quis entregar-me inteiramente à felicidade sei que basta carregar bem pouco. Porque naqueles dias em que estive disposto a largar todas as coisas que me sustentam e me equilibram na vida burguesa que tenho para viver doidamente o que meu coração pedia, eu ia precisar de menos do que ela carregava. Entretanto, a razão dessa felicidade não me queria como eu a queria. E hoje acumulo coisas que nem em sacolas cabem. Mas toda minha felicidade embalada apenas num saquinho de pipoca.

Ela ia nos contando vários fragmentos avulsos do seu dia e de sua vida, pulando de um para outro sem preocupar-se com qualquer coesão que os pudesse correlacioná-los. (Mas o que estou dizendo? Se ela se preocupasse com coisas do tipo eu teria o direito de chamá-la de doida? Isso se tivermos nós realmente esse direito de classificarmos o que é ou não loucura...). Maura me constrangia com sua total de liberdade de ser. Ela simplesmente não se preocupava. Enquanto nós — nós desperdiçamos muito do nosso tempo alimentando sonhos e desejos que talvez nunca sejam realizados porque já formulamos antes leis e convenções que nos reprimem. Maura poderia dançar nua naquela rua tão movimentada, rindo gostoso ao som de sua encantadora música imaginária até que alguém repletamente envergonhado — sobretudo porque não teria tal coragem — a faria parar. São Paulo já havia dito há muito tempo em uma de suas cartas aos Coríntios que Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios.

— Eu gosto muito de cerveja. Lá na minha casa tem um freezer cheio!

Desculpe-me, Maura, por não ter pedido um copo para você beber conosco. Até cogitei fazê-lo, mas achei melhor não. Mesmo porque você não precisa. Nós que nos dizemos normais é que precisamos da cerveja e de outras tantas substâncias para podermos entrar de quando em vez nesse mundo que você vive. Todos nós de uma maneira ou de outra lhe invejamos.

Ela nos contou que sua mãe a odiava e queria lhe fazer o mal:

— Se um dia vocês virem na capa do jornal: “Maura morreu”, podem saber que foi ela quem me matou.

Impossível que sua mãe, sendo viva, a odeie. Difícil crer como alguém não possa gostar de um ser como a Maura, tão agradável e alegre. E eu poderia ter ficado o resto do dia ali ouvindo-a falar, vendo-a rir. Mas o relógio, invenção dessas das mais doidas de gente séria que quer pôr rédeas no tempo, me avisou que já era hora de ir. Chamei minha amiga, que estava igualmente encantada com nossa companhia, pagamos a conta e nos despedimos de Maura, que só pareceu entender que já nos íamos quando nos viu levantar das cadeiras. Então também levantou, agradeceu, se despediu dando tchauzinho com a mão e saiu andando em direção oposta a que seguimos.

Eu e minha amiga nunca a esquecemos e vez ou outra quando estamos juntos comentamos: “lembra daquela tarde da Maura?”. Claro que sim! Maura nossa amiga doida predileta.

E se alguém que me lê agora vir um dia por aí em algum jornal a notícia de que Maura morreu, por favor, me avisa para que eu possa chorar por mim.

escrito em 24/08/2006