Mostrando postagens com marcador pulsações. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pulsações. Mostrar todas as postagens

22.11.12

SOBREGOZO

Escuta, Antônio, se queres mesmo saber um dia o verdadeiro prazer de meter, ter uma epifania de pica, os folguedos e o gozo ao fim do Caminho da Mão Esquerda, o mahāsamādhi, Antônio, come um cu de homem, fode um rabo masculino... por que me olhas com essa cara?, tu sabes que essas burocracias da vida, macho é pra fêmea fêmea é pro macho, igreja, pecados, recalques, restrições morais, nunca foram comigo, tu sabes bem que eu Artur quarenta anos arquiteto, estou cagando pra todos esses protocolos cabrestos, sei que se pode comer cu de mulher também, Antônio, mas é diferente, é bem como a Hilda, ela mesma mulher, escreveu naquele livro lá das cartas do sedutor: mulheres têm o cu vermelhusco nádegas quase sempre volumosas meio desabadas por mais jovens que sejam que talvez só sirvam pra bons bifes em caso de acidente na neve, não te lembras da Hilda? aquela velhona que cansada de não ser levada à sério escreveu umas putarias, tu mesmo me disseste que estava lendo aquele livro dela da mulher no vão da escada com a porca... pois bem, naquele mesmo livro comentam de um certo Joca que enfiou o dedo no cu do filho do Zitinho porque dizia ser lá a boca de Deus, lembrou? então, eu já soube de mulheres que dizem gostar de dar a bunda, mas duvido, Antônio, duvido que naqueles cus molengões elas sintam o prazer que sente um homem com seus mecanismos de corpo próstata escroto sentem, o divino de meter na mulher está em meter na frente, na buceta, equipada de útero, de onde uma nova vida arrisca surgir, tem umas que choram de gozo, respingam, ejaculam como machos, já ouviste sobre ou viste alguma assim? com homem no cu dele a gente entra onde em pânico e gozo ele se descobre e se confirma humano, onde ele estremece de um prazer que seu pau desconhece, alumbramentos do divino e que no entanto lhe humilham com a certeza de sua finitude, é vida e morte se reiterando, aproveita e antes de meter lhe chupa o cu, beija na boca de deus, sente na tua boca língua dentes ele gemer sem forças, lê Bataille e sua História do Olho, e não te preocupes em entender aquela loucura só observa a convergência de todas as imagens para o cu, que foi como eu mesmo li, experimenta o cu de um outro homem, Antônio, procura um maior que tu, um que seja mais homem que tu, e descobre nos instantes de teu gozo com ele que tu pode ser, ainda que brevemente, do tamanho da vida...

21.8.11

ÉKSÓ

Nunca me rebelei contra os uniformes escolares. Desde a escolinha, em criança, assistia às aulas trajado no fardamento completo – da camisa ao tênis. Sem qualquer tipo de customização, sem boné, sem relógios coloridos, sem jaquetas ou sem qualquer assessório que voluntariamente transgredisse a básica ideologia do fardamento – igualar. Ainda assim, jamais pude escapar da sensação de deslocamento: a cabeça ruiva, flamejante, faroleira, estava sempre em cima de mim, acima de mim. A implicância das demais crianças com meus cabelos ruivos, o espanto em perceber que sou facilmente localizável, o apontar dos outros nas ruas, os adjetivos “exótico”, “diferente” ou outros do mesmo campo semântico constantemente me sendo entregues... Mas o que fazer? Era fato: não havia outras crianças ruivas na escola, na rua, no bairro – havia na cidade? Não lembro. E assim também o foi na adolescência. Mesmo tendo vindo para uma cidade bem maior durante a primeira fase da juventude, mesmo encontrando ocasionalmente com outros ruivos em alguns lugares, em ônibus – nossos olhares sempre atentos um pro outro, talvez mais admirados conosco que os outros de cabelos de tonalidade mais comum, o silêncio que dizia espantado: um ruivo!, até o momento de sairmos de nossos campos de visão com uma levíssima estranha sensação de comunhão . Eu devia ter aprendido melhor para hoje não me deixar atingir tanto. Pois tudo isso àquela época eram, decerto, ensaios para hoje. Hoje que dentro de mim tudo é tão incandescente e magmático que suplanta qualquer brilho ígneo que meus cabelos agora um tanto esmaecidos possam radiar ao sol. Hoje é o meu de-dentro que sinto muito mais singular, exótico, diferente, tantas vezes estranho a mim mesmo, de fogo – ruivo. E em meio à mudez instaurada entre quem eu vejo e me vê por onde vou, ou a pouca palavra entre mim e os que conheço, não posso esperar que me apontem, que me localizem pelo que jorra de mim em – mim. Entretanto, ontem à noite, como em alguns sábados à noite, saí, fardado de sorrisos, de perfumes, de roupas, de amigos, desejoso de me igualar a quem sai aos sábados à noite para se divertir. Às vezes consigo. Gosto. Mas ontem falhei. Não sei o que aconteceu, estava indo bem, a música estava boa, as companhias eram agradáveis, até que desavisadamente como são os abalos sísmicos meus avessos começaram a se remexer, o âmago a se chocar contra o âmago, corri para o banheiro e vomitei. Na boca ficou, muito representativamente, um insuportável gosto amargo. Fui imediatamente ao bar, comprei uma bebida que engolia em grandes goles, enquanto engendrava conversas com quem estava ao meu redor sobre qualquer coisa para tentar disfarçar a falência de meu ânimo. Dançar já estava fora de qualquer cogitação. Tentei flertes – mas era inútil. Nada mais eu tinha a ver com as pessoas e com o local e com a música. Aquela velha sensação de garotinho na escola havia voltado, mas potencializada com a impiedosa força com que maltrato a mim próprio e, ao mesmo tempo, também com a selvageria de uma autoestima liberta, que em onda andante e flexível agora corre desaferrada, que nada mais quer deixar morrer no coração, me deixava eriçado.  Tudo ali ficou assombrosamente bobo, inferior, débil, patético. O ar de tão pesado exigia esforço para entrar nas narinas e, como se não bastasse, estava inteiramente contaminado com a fumaça de cigarros irritantes.  Estava cada vez mais difícil manter a pose. Foi então que o moço ao meu lado, moço que escreve livros pra criança, chegou mais perto de mim e do nada perguntou: você não se sente daqui, não é? Fiquei constrangido como quem é pego em flagrante. Não, agora não me sinto, respondi num sorriso nervoso. Me despedi dele num longo e forte abraço, também de quem estava mais próximo, tomei um táxi e voltei para casa, exaurido.

15.8.11

ORIDES FONTELA SEGURANDO MINHA MÃO

Não que esperasse muito do filme, mas embora minha companhia houvesse desmarcado e estivesse demasiado em cima da hora para convidar outra pessoa para ir comigo, eu precisava ir ao cinema hoje. Aliás, digo que precisava ir ao cinema porque já era o planejado – em verdade, o que eu precisava mesmo era sair de casa, sair do que é possível, do que é meu e me cerca, porque hoje eu era um perigo para mim: memórias mentindo o passado, rastros de mim dando voltas, esquecimentos desacertados... Fui sozinho.

Não havia quase ninguém na sala – que vazia, penumbrática e impessoal como se encontrava era o que eu precisava. Mas era a primeira sessão e eu havia chegado cedo. Faltavam ainda vinte minutos para começar a projeção do filme e depois de alguns minutos comecei a me impacientar com a espera. Não havia fome, sede, vontade de ir ao banheiro, nada para se fazer. Por sorte eu havia deixado dentro da bolsa o livro da Orides Fontela e, como a luz ainda permitia, folheei algumas páginas relendo poemas favoritos e retomando, com gosto de novos, poemas já esquecidos, como este que me trouxe o choro que eu precisava para me consolar comigo:

SEMEIO SÓIS
e sons
na terra viva

afundo os
pés
no chão: semeio e
passo.

Não me importa a colheita.

Não se importar com a colheita. Contentar-se em semear. Clarice Lispector também escreveu algo parecido: “nem em tudo eu quero pegar. Às vezes quero apenas tocar. Depois o que toco às vezes floresce e os outros podem pegar com as duas mãos.” É difícil. É triste. Mas parece que para mim só isto. Olhar para trás e apenas ver os frutos. Ver os outros desfrutarem do que semeei em suas vidas. E digo isso sem arrogância, digo como diria Tistu, o menino do dedo verde, só que sem sua inocência e sem sua alegria.

Sorrisos, amizades, paixões, amores, projetos. Arregaçar mais as pernas das calças, pisar mais fundo – para semear e para passos cada vez mais largos. Não tocar nos frutos. Não amar os frutos. Não se importar com a colheita. Consolar-se ainda que pela resignação e não mais sofrer, pois a travessia, ao menos, é fecunda. E meu nome, provavelmente, aciona à muitas lembranças caminhos com sóis e sons.

O filme iria começar...

Há dias em que anos se passam.




19.6.11

SINTO MUITO

O peso de sentir! O peso de ter que sentir!
Fernando Pessoa


É tão muito tantas coisas que sinto, que eu sinto muito por mim.  Numa entrevista que li, Millôr Fernandes, ao receber a pergunta: “como vai você, profundamente falando?”, respondeu : “vou profundamente, não sei de outro jeito”. Suponho que seja assim: por muito, diverso e constante, sentir não é coisa de se aprender.  Também eu vou profundamente por não saber de outro jeito. E é preciso se esforçar bastante para pagar o preço que se cobra. 

Às vezes há sentimentos, suaves ou sofridos, que se fazem enormemente em mim sem que no entanto eu lhes saiba nomear. Houve época em que busquei empatia nos outro para, quem sabe, lhes definir ou ao menos apontar a distância entre mim e sua compreensão. Nunca obtive resposta. Hoje, resta-me aceitar, como disse a Hilda Hilst, que os sentimentos vastos não têm nome.

Mas o meu nome, esqueço. Por isso, não raro, acontecem momentos como certa vez, numa rodoviária: “o meu nome é Filipe”, eu disse – a quem? – ao moço do guichê que havia perguntado para preencher minha passagem, ou a mim mesmo transparente, refletido no vidro do guichê que se interpunha entre nós? Ele anotou. Eu notei: às vezes era como não fosse – meu nome é Filipe. É que quando preciso me chamar, me chamo: Eu. A existência pede o nome. O nome nos circunscreve. Não há como fugir: meu nome faz: Eu.

Tudo é tão capaz de ferir. Toda luz, sobretudo a lucidez, é impiedosa. Perguntei a uma prima se a resistência que ela tem em deixar de lado em alguns momentos suas onipresentes lentes de contato e usar uns óculos desses tão bonitos e modernos que a gente encontra nas óticas tinha a ver com o fato de ela, quando criança, ter sido desde cedo obrigada a usá-los e, lamentavelmente, fazerem-na usar uns horríveis, que a enfeiava. Ela me respondeu que não, que não os usava porque está tão habituada às suas lentes – que jamais comportaram o grau alto que ela realmente necessita – de modo que quando põe os óculos – estes sim com grau certo – enxerga tudo tão bem que se sente tonta e nauseada. Sim, a maior parte de nós não suporta.

A consciência demais do ser, a excessiva vivência, é tão capaz de ferir, tão agressivamente real – real que nos despedaça. Numa das vésperas de um de meus aniversários – um ano a ganhar ou um que se perdia? Sentia-me tão cheio de vida que doía: pura vida magmática em estado pastoso. Telefonei para uma então amiga que entendia desses assuntos para perguntar o que fazer.  – Como é mesmo que se desperdiça a vida, vivendo demais ou de menos? Tenho poucas histórias para contar. Tenho boas histórias para contar. São melhores as de enredo triste e final feliz ou as de enredo feliz e final triste?

Cada um com sua preferência. Sei mesmo é que haverá mais histórias. Outras findarão. E eu sentirei todas, sentirei muito, sentirei bem, porque o que há de infinito nelas, nas coisas em geral e na própria vida, é a repercussão delas em nós. 

12.6.11

SOZINHO NO DIA DOS NAMORADOS

Enquanto não superarmos
a ânsia do amor sem limites,
não podemos crescer
emocionalmente.

Enquanto não atravessarmos
a dor de nossa própria solidão,
continuaremos
a nos buscar em outras metades.
Para viver a dois, antes, é
necessário ser um.
(não se sabe quem é o autor)


Hoje, no Brasil, convencionalmente, é dia dos namorados. Nos últimos dias antecedentes, ouvi um sem número de vezes, de várias pessoas, queixas, sérias ou em chiste, de sua condição de solteira. E até o fim do dia, sobretudo nas redes sociais, se acumularão postagens com lamentações.

Todos parecem concordar: por numerosos que sejam seus amigos, por melhor que seja sua relação com familiares, ter alguém para dar e dele receber o que entendemos por amor, é significativamente diferente. 

No entanto, a busca por alguém para dividir a vida, quando agravada com a ansiedade de quem enxerga nisso condição para felicidade e somada ao inevitável desastre de conciliá-la com o egocentrismo orgulhoso que assistimos em nossos tempos, se configura em resultados mais e mais frustrantes. 

Não é bom estar só. Eu, só que estou – encarando a solteirice de outra forma após uma única, mas duradoura experiência de um relacionamento – sei. Pequenas coisas que me eram alheias passaram a ter um outro significado e, não raro, me pego sentindo falta delas: me permitir perder cenas importantes de um filme no cinema para trocar um beijo, banhos quentes na madrugada depois do sexo, o sexo sem cobranças de corpo e performance, a vontade de dar presentes advinda da mais gratuita vontade de ver estampada na cara do outro aqueles minutos de alegria ao desembrulhar o pacote, me sentir reivindicado, dizer “eu te amo” sentindo a vibração de cada letra, entre tantas outras.

Dizem que é mais fácil para quem toma a iniciativa de terminar a relação se adaptar ao seu fim. Comigo não foi. Tudo se deu por tantas nuances não percebidas, sucessões de mal-entendidos, palavras importantíssimas que jamais puderam ser ditas e tanto tempo já passado, que não vem ao caso, agora, comentar.  O fato é que, chegada a hora em que percebi que extrapolei os limites da humildade e me encaminhava para humilhação na tentativa reverter o quadro (Nunca foste tão verdadeira / como nestes últimos dias de corajosa submissão. – mas esses dois versos da Hilda Hilst sempre me ajudaram a jamais me arrepender do que fiz), fiz o que há muito, mesmo antes do relacionamento, eu precisava fazer: escolher a mim. 

Foi definitivamente a experiência mais dolorida por que passei na vida até agora, pois, se essa não era a primeira vez que eu sofria por amor, foi a vez de unir o sofrimento emocional ao físico, somatizando reações e sintomas que agrediam meu corpo. Mas como quem precisa construir um edifício onde há uma velha e abandonada casa, não podendo assim simplesmente erigi-lo por cima, adentrei ao interior da casa, fucei seus avessos, cavei e quebrei os alicerces para novamente me reconstruir – sendo ainda cedo para dizer em definitivo, decerto pelo menos mais forte; ressignificando a mim mesmo e a minha solidão.

Durante o processo apareceram algumas pessoas que, a despeito de uma certa postura arredia em que me encontrava, me deram o carinho que eu precisava e outras que me prometeram amor, argumentando, por saberem de minha fragilidade no momento, que um amor se cura com outro. Propostas estas que tive que recusar, em respeito ao sentimento de tais pessoas (uma vez que eu não poderia lhes retribuir naquele momento) e, acima de tudo, a mim mesmo. – Tal antigos guerreiros trabalhavam a resistência de seu corpo a venenos ingerindo gradativas doses do mesmo veneno, eu decidi que precisava me curar do mal estar causado pela solidão não cedendo ao que parecia ser mais fácil, me mantendo só. 

Há sempre um tanto de desespero e fraqueza nas pessoas que engatam um relacionamento no outro. Elas se iludem com o suprimento de afeto oferecido pelo novo que vai amontoando em cima das ruinas do anterior, gerando uma espécie de vício que a arrasta para um buraco negro quando ela se vê sozinha. 

Sejamos religiosos ou não – mas educados num país de cultura fundamentada no cristianismo –, acredito que o velho mito de Adão e Eva embasa nossa ansiedade na busca de reunir o par de costelas que foi separado. Ludibriadas por discursos carregados de expressões como “metades da laranja”, “tampa da panela” e “almas gêmeas”, as pessoas não toleram mais qualquer ruído ou a mais leve assimetria no outro. O mundo de cada pessoa rivaliza em tamanho com o sol no qual ele orbita. Pois elas se sentem carentes, mas estão repletas de si, de ego e orgulho inflados, postulando suas regras baseadas em sua visão e experiências particulares – se você não as ama do jeito que elas esperam, então você não as ama. Não há perdão: o próximo!

Ano passado assisti a famosa encenação do Banquete, do Teatro Oficina do Zé Celso. Uma das cenas que mais me marcou foi a que mostrava os seres humanos, outrora reunidos, macho e fêmea num corpo só, mas agora separados e distintos os sexos, reivindicando aos deuses o retorno ao estado inicial, então Eros lhes esclarece que, voltando à condição anterior, beijos, abraços, carícias, sexo e tudo o que vem junto do amor não mais existiria. 

É simples: para formar um casal é preciso duas pessoas. E duas-pessoas é a união de uma pessoa e outra pessoa, cada uma com suas diferenças, visão de mundo, personalidade, preferências, maneira de sentir, defeitos (e aqui lembro da Clarice Lispector: “Até cortar os defeitos pode ser perigoso - nunca se sabe qual o defeito que sustenta nosso edifício inteiro...”), etc. Como certeiramente disse Fernando Pessoa: “Se te é impossível viver só, nasceste escravo.” Não estaremos preparados para uma vida a dois se antes não aprendermos a ser sós. Lembrando novamente Clarice: “Amor é dar de presente ao outro a própria solidão. Pois é a última coisa que se pode dar de si.”

É simples, mas nem tudo o que é simples é fácil. Eu bem o sei. Mas aprendi. Aprendi sobretudo a aprender com isso. E hoje, mesmo só, sem companhia para cinema em tardes de domingo, sem transar sempre que quero, sem banhos quentes acompanhado, sem presentes ou sem presentear em datas como a de hoje, definitivamente, não me sinto carente. Ao contrário, sinto-me completo no que sou e totalmente desejoso em me melhorar mais como pessoa. Ainda que sofra costumeiramente com oscilações de auto estima, há em mim, ao lado da severidade com que me julgo e da dificuldade de me perdoar de minhas limitações e até mesmo do que simplesmente jamais serei, a certeza do que tenho em mim de bom. Sei de minhas qualidades, de minhas capacidades, da bondade que há nos meus atos e, acima de tudo, sei que nasci para o amor, que é dele que sou feito e por ele pacientemente espero, pois estou pronto como nunca estive.

15.8.10

QUINZE DE AGOSTO DE DOIS MIL E DEZ

Remexendo em um antigo caderno de anotações, reencontro uns escritos que, embora não lembrasse onde estavam, jamais havia esquecido do conteúdo. Porque quando eles me aconteceram, quando eu os senti, vieram como as coisas mais bonitas jamais escritas ou lidas por mim. Não anotei com nomes ou sexo de personagens. Pois independente de quaisquer que sejam seus protagonistas, continuaria bonito.

TRECHO I
Personagem1 estava no hotel dormindo. Havia saindo na noite anterior com o Personagem2 e havia sido muito bom. Queriam ter dormido juntos para aproveitar melhor o pouco tempo juntos já que não moravam na mesma cidade, mas o amor entre os dois ainda era descoberta e segredo. Personagem2 não teria como explicar a seus pais uma noite inteira fora de casa. Personagem1 não insistira, estava cheio de medos e suas fragilidades lhe perturbavam. Sabia que ainda não estava envolvido por Pernagem2 como estava por ele. Mas há muito ninguém lhe parecia valer tanto a pena. Acordou meio que de sobressalto, com batidas na porta de seu quarto. A recepção na havia anunciado ninguém. Ainda era tão cedo. Quem seria? Abriu a porta, sonolento.
 
– Personagem2??!! Já acordou? Você nem deve ter dormido, né?
 
– Não consegui não, estava esperando que amanhecesse logo para sair de casa e vim para cá. – respondeu respirando forte, quase sem fôlego.
 
– E o que aconteceu, por que você está assim, ofegante, aconteceu algo?
 
– É que eu vim de casa para cá andando, você sabe, não é longe. Mas daí eu vi que se eu apenas andasse ia perder um tempo que eu poderia estar aqui contigo, então vim correndo.
 
Personagem1 não conseguiu dizer nada. Apenas abraçou-lhe e beijou-lhe num misto de encantamento e gratidão. Nunca ninguém havia lhe feito algo tão bonito.


TRECHO II
Dois anos havia se passado. O amor dos dois não era mais segredo para ninguém. Mas Personagem1 havia escolhido aquele mesmo quarto de hotel para se encontrarem. Estavam em crise. Ele não conseguia entender por que Personagem2 estava tão intolerante. Sobretudo agora que, vencendo grande parte de seus bloqueios, tinha certeza do amor que devotava a ele(a). Não avisou a ninguém que viria. Durante o dia haviam apenas se entregado um ao outro num sexo de saudades. Mas era preciso uma conversa.  Personagem2 falava com um tom de irritação, usando verbos no passado e dizia não agüentar mais. Personagem1, segurando o choro, perguntou: 

– Então não dá mais para tocar a nossa música? – referia-se a Unison, música da Björk, que eles tanto gostavam.
 
Durante muito tempo ficaram em silêncio, até que Personagem2, também com voz de choro, responde:
 
– Dá sim, ainda dá sim para tocar a nossa música.
 
Abraçaram-se. Personagem2 por cima de Personagem1, deitados.
 
– É amor, eu te amo, isso é amor, você sente? – perguntou Personagem1, dizendo aquilo como jamais havia dito antes a ele(a) ou a ninguém.
 
– Sinto, sinto sim.
 
Personagem1 estava feliz como mesmo antes de conhecer Personagem2 não se sentia. Então amaram-se de novo.


Juro que já tentei inserir esses dois trechos numa história que eu vinha escrevendo. Não deu certo. Como já disse aqui em uma outra postagem, não sou bom escritor. Não consegui dar um final feliz à história. E eu não quero, não quero mesmo dar a essas duas passagens tão bonitas que me vieram em dias de inspiração um final infeliz. Prefiro então deixá-las assim, fragmentadas. E cada um que as ler, que recriem com elas histórias em dias de sol e com pessoas de belos sorrisos sorrindo. Principalmente no fim.

16.6.10

PARA JOSEILDO AUSENTE

(...) você ausentou-se. Para outra vida?
A vida é uma só. A sua continua
Na vida que você viveu.

(Manuel Bandeira)



Anunciaram seu triste e derradeiro ato. Meus olhos (de relance – quero só os teus sorrisos na lembrança), meus ouvidos testemunharam: A alma profunda, ainda não. Por isso não sinto agora a sua falta. Mas sei bem que ela virá (o Tempo é insistente). Vai ser assim: toda vez que tiver novidades vou querer te ligar, como era tão certo fazer – você rindo e dizendo adorar minhas histórias malucas – mas o telefone não atenderá mais. Virei ao Recife, você não virá me ver. Ainda não sinto sua falta, meu amigo (é sempre assim quando o ausente parte sem se despedir: você não se despediu, e nem disse a mim nem a ninguém os seus exatos motivos); mas irei ao Cinema da Fundação, sentarei para um café e facilmente me virá à mente aquele dia em que fomos para lá e eu insistentemente lhe repetia o quando você estava bonito com aquele cabelo e aquela barba. Alguém me perguntará em que estou pensando, sorrirei sem dizer que em você, profundamente.

Você não se despediu, mas muita gente esteve lá para te dizer adeus, para te chorar, esperançosas de uma explicação. Você não disse nada a ninguém. Quem te decepcionou? Sei que o que te angustiava eu provavelmente não pudesse resolver, mas imagino que cada passo que você deu na longa distância que percorreu até chegar em casa fez sua agonia retumbar cada vez mais alto. E pelo menos nisso, meu caro, qualquer um de nós que te amamos estaríamos dispostos e poderíamos de alguma forma resolver. Não tenho carro, mas você poderia ter ligado para que eu te ajudasse a chegar em casa. Imagino teus pés cansados... você que se dizia cansado de esperar o que se vê nos filmes e livros. Sua vida não era só sua, nós que te amamos também éramos donos dela. Mas não te repreenderei. Todos nós temos direito de desistir e de gritar. O teu grito foi ouvido por aqueles que te ofenderam, eu tenho certeza.

Há muitas flores onde escolheram para te devolver à Terra, árvores também. Bonito o local. Chovia, porque todos nós não daríamos conta de chorar a dor do momento. Sua mãe não quis guarda-chuva – entendo ela que precisava banhar-se nas grandes águas de que fala a Hilda Hilst. Mas sua cunhada levava o guarda-chuva colorido que Guigui lhe deixou e com o qual você tirou fotos lindas na Sé. Ainda te choro e não tentarei me conter até que chore tudo o que tiver de chorar. No entanto me conforta lembrar da última vez que nos vimos: quando nos despedimos te dei um beijo enquanto te abraçava e disse: te amo, meu amigo Joseildo. Era a mais pura verdade, você, sensível, eu sei que acreditava. Por isso não sinto agora a sua falta...

16.3.10

PRESENTES QUE SALVAM

Ah, por que este mundo é tão grande e Paris fica tão longe? Por que o serviço dos correios neste país é tão ruim? Para que um carnaval no meio disso tudo só para atrapalhar ainda mais?

Hoje, somente hoje, chegou aqui em casa um presente de aniversário que um amigo muitíssimo querido me enviou – como atesta a data de carimbo de postagem – desde o dia oito de fevereiro lá de Paris, onde ele tem vivido há algum tempo. Quatro dias eram o bastante para um avião, um carro e um carteiro, todos correndo, me trazerem o pacote que, se houvesse chegado naquele dia doze, teria me salvado desse que foi o aniversário mais infeliz que já tive na vida. Quatro dias bastavam! Mas só hoje chegou...

Nada materialmente caro ou raro continha o embrulho: uma carta, três cartões postais, um marcador de livro, um chaveiro com formato da França, uma bandeirinha francesa, três latinhas de balas e um pequeno realejo.

Pois foi esse realejo, uma caixinha cilíndrica com um delicado mecanismo à corda, o que primeiro me saltou aos olhos em meio àqueles despretensiosos tesouros. Girei a manivelinha sem saber que música tocaria e, para minha surpresa, com a doçura que somente um realejo pode imprimir a uma música já tão doce, escuto La Valse D’amellie. Naquele exato momento eu me transformei no próprio Dominique Bredoteau abrindo sua caixinha. Para onde fui transportado? Não sei dizer. Não foram momentos bem específicos. Era somente sentimento. Emoções dessas que não se acabam; que estão sempre a repercutir basta que qualquer centelha de passado as evoquem. O que é suficiente, pois quero que permaneça em mim essa capacidade de sentir e me emocionar independente de épocas e pessoas – toda essa intransitividade. Chorei de pura beleza, e, cada vez que giro a pequena manivela, volto a chorar. É doce e melancólica a música, sobretudo assim em realejo.

Duas das latinhas de balas são sabor rosa a outra é de menta. Abri uma das de rosa e provei: é como se cheirássemos exageradamente as pétalas da flor e o cheiro errasse o caminho dos pulmões e fosse para o estômago. Então você floresce por dentro por alguns instantes. E enquanto duram tais instantes me sinto consolado pela antiga e inconsolável frustração de um dia terem me impedido de colher uma rosa que nasceu de mim.

A carta que ele escreveu diz assim: “Meu Ruivo Lindo, Pensei em te mandar um pouco do mundo, para ver se te encorajo a me visitar. Sim, um presente com segundas intenções! Um pouco de Paris, de Bruxelas e Amsterdam, três lugares que com certeza você iria gostar muito de visitar. Mas pros teus 28 anos não te desejo somente um pouco do mundo, desejo ele inteirinho para você. E que ele venha cheio de poesia! Te amo. Manoel Júnior”. Dois postais são de Amsterdam e o outro de Bruxelas. Num dos de Amsterdam, com a imagem de uma tela de Van Gogh, ele disse assim: “Lembrar de você em Amsterdam é algo inevitável. A palavra ‘liberdade’ ganha um novo conceito nessa cidade e os museus têm algo de mágico, inexplicável. Liberdade + Magia = Filipe Bezerra.”

Júnior, meu amarelo, você que é tão valioso quando essa cor, nem a melancolia que a vida, ingrata que é, lhe deu consegue encobrir o quanto você resplandece nesse tom. Seu presente, embora tenha chegado tarde demais para me salvar do dia que o motivou, me trouxe, assim como a caixinha do Dominique Bredoteau trouxe para ele, a vontade de ser melhor para mim mesmo. Vontade de retomar coisas que eu havia deixado de lado para tentar viver uma outra vida que tenho entendido cada vez mais não ser para mim. Temos aprendido tanto, não é mesmo, meu amigo? E é lamentável que o conhecimento não traga felicidade. Mas estamos cada vez mais preparados. Seu presente não foi o único que me chegou atrasado. Afonso também só recentemente me deu um livro de poemas da Hilda Hilst. Na dedicatória assim ele escreveu: “Deus existe... na poesia”. Sim, Afonso que sempre tem razão está novamente certo. É na poesia que Deus pode existir na forma como eu fui feito para crer nele. Que o mundo venha até nós repleto de poesia. Que o Deus que nela habita nos abençoe e nos guie. Estamos cada vez mais preparados.

6.2.10

OPUS ODIU

Quis esconder os meus dedos
nos teus cabelos de mágoa

mas tua mágoa era grande

para fugir no meu gesto.

(Hilda Hilst)

Ainda que se pudesse dizer: “em uma hora dessas a gente diz coisas da boca pra fora”, ele bem sabia que era sério. Não foi falado, foi escrito. “A fala voa, a escrita se arrasta”, lhe aconselhou uma vez uma antiga professora de linguística. A escrita se vale do tempo, ele entendia – pode-se pensar, avaliar, corrigir e então lançá-la para que ela depois atravesse o mundo e o próprio tempo.

“Eu não tenho só raiva de você. Eu tenho ódio de você.” Era ódio sim. Ódio fecundo, porque quem havia lhe escrito ainda o amava. “Eu não tenho só raiva de você. Eu tenho ódio de você.” Ele releu mil vezes. Era ódio sim. Jorrava grosso e frio. Forte porque havia amor. E facilmente distinguível: não era raiva, mera e passageira emoção, era ódio, sentimento.

“Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” “Eu tenho ódio de você.” – seu pesadelo na noite.

Estava esgotado: havia, na véspera, feito um esforço tamanho tentando explicar: não fizera nada errado; havia sido sincero. E não fora nada fácil falar sobre os últimos acontecimentos da forma que contou. Importava-se sim. Sabia que o que contara era muito menos fácil de ouvir e isso também o feria. Mas não maculara nada, não profanara nada. A realidade era tão outra! E tivera de silenciar o que realmente gostaria de dizer – não houve nenhum contexto permissivo.

Não merecia ódio. Mas disse a si mesmo naquela manhã, os olhos ainda de sono, vacilante, mas lúcido: aceito. Só rejeitaria, no entanto, a culpa da forma que lhe fora imposta. Pois em nenhum lugar de si a encontrava. Estaria preparado pra expiação se tal culpa houvesse. Mas não. Mesmo Deus ele já havia rejeitado, entre outras razões, para não mais sofrer culpas que não eram suas. Não mais permitiria que o que não lhe parecia consistente, nem passível de crença sã, lhe atormentasse com culpas ancestrais pelas quais ele não se sentia responsável. Não, Deus. – Deus, não. – Não sou culpado!, repetia.

Aceitou o ódio e este lhe recaiu como maldição. Sobretudo naqueles últimos dias de um ano tão morbidamente simbólico. Havia, em criança – fora da realidade que era –, criado, numa espécie de lenda pessoal, a crendice de que morreria aos vinte e sete anos. Era aquele ano e já o tivera quase inteiro para morrer, mas nada aconteceu. Agora, aqueles últimos dias que faltavam para provavelmente não morrer e, assim, sepultar em si qualquer resquício de medo que se tem na noite do que está sobre o natural, pareciam uma tormentosa contagem regressiva.

Estava com medo sim. Deus – ele assim preferiu dizer naquela noite que parecia assombrada –, Deus, seria mais fácil acreditar em vós se não tivessem vos obrigado a ser mais que Verbo! – Pois era na palavra que ele sentia fé, devoção, medo e angustiava-se com seu mistério. Palavra, palavra, és tu e somente tu que reúnes em si mesmo significado e significante. És Alfa e Omega. A ti eu uso para ter uma modesta existência e para fazer existir. Foi me valendo de ti que tentei abençoar e salvar o amor. Mas que sou eu? Tu não me revelas a que elucida. Enfraqueci porque naqueles tempos tu me entravas em formas duras, pesadas, cortantes e gélidas nos ouvidos. Baixaste o tom com que o amor falava nas bocas. Houve muitas, desnecessárias, desferidas como tiros em corpos mortos em guerra. E tu corrias de minha boca em formas igualmente horrendas, e eu pouco pude te reter porque sou só humano e tu bem sabes o que quer dizer “humano”. E agora me vens envenenada, mal dita, maldita. Vens como vômito. Vens para contaminar mesmo o que não escuta. Estou como sujo de ti. E resignadamente aceito. Aceito porque espero que em breve tu te convertas em outras, vindas de onde quer que seja, na claridade ou escuridão, retumbantes ou em forma de murmúrio. Aceito porque entendo que as de ódio também são necessárias e não são exatamente antônimas das de amor. Compreendo que a cólera soe mais alta e abafe o que se entoa insistentemente, incomodando, sobretudo por ser a verdade intimamente preferida. Aceito todas de ódio que me vierem, mesmo as que firam meu corpo, porque uma morte pelo ódio acaba conferindo alguma santidade. Lembro-me que já tentei experimentar ativamente o ódio, mas tu me o negavas. Então aceito passivamente que agora ele recaia sobre mim. E no fim, quando eu já não puder mais, dá-me algum alívio. Faze com que eu não me perca em todas as tuas possibilidades e variantes. Ensina-me a dizer. Explica-me o caminho. Dá-me as respostas que preciso. Dá-me os significados. Dá-me as de redenção. Dá-me as de salvação. Dá-me as de paz. Deixai que eu possa ainda mais uma vez na vida dizer para alguém: eu te amo. Não me abandones. Preenche-me para que o silêncio não tome conta de minha vida e eu enlouqueça. Recebe-te de volta embotada de mim nestas orações. Amém.

23.8.09

O SONHO (de minha mãe)

Hoje concluí uma faxina geral que fiz em meu quarto que iniciei ontem. Tava mesmo precisando! Enquanto arrumava me vinha várias vezes à cabeça o mesmo pensamento: “como as coisas mudam”. Quantas vezes eu não já fizera a mesma coisa? E em cada uma das vezes, muita coisa era jogada fora e outras preservadas pela importância que tinham ou ante a previsão de que eu poderia precisar no futuro. E na arrumação seguinte, de meses depois, boa parte delas era jogada fora, preterida a outras. Ontem e hoje reencontrei com muitas coisas esquecidas e, como das outras vezes, algumas foram pro lixo, outras eu mantive. Mas uma dessas coisas, que nem efetivamente minha é, foi o que mais me chamou atenção: um texto da autoria de minha mãe. Aliás, o nome do texto é O Sonho. Eu havia achado esse seu texto quando ainda era criança, fuçando as coisas que ela jogava fora quando certo dia arrumava seu quarto e jogava coisas fora. Eu nem me interessava pela escrita como me interesso hoje. Mas guardei em segredo aquilo num envelope. E eis que hoje ele me reaparece. O papel envelhecido, amarelado, remendado com fita adesiva, o texto datilografado em máquina elétrica, no fim, à caneta, sua assinatura e a data: 12/12/1975. Ela nem sonhava em um dia me ter como filho. Mostrei para ela e ela disse que naquela época sonhava em ser escritora. O sonho de minha mãe acabou. Esse, o sonho do texto (que ela me assegurou ser mera ficção), outros que ela nunca me contou, mas sei que tinha sim. Em meu nome, em nome do meu irmão, com o fim de seu casamento, desapontada com a vida. Mas ela jura que ama viver e que é feliz. Minha mãe é uma das pessoas mais fortes que eu conheço. Ela, ao que parece, tinha talento sim, não devia ter deixado esse sonho passar, precisava só amadurecer. Vejam:


O SONHO

Há uma luz terna dentro do quarto. Alguns objetos simples, duas camas, a minha e a da minha irmã mais nova, um armário já usado, cartazes na parede dando um aspecto de decoração antiga. Isso mesmo, tudo lá é velho, com a saudade e as recordações. Comecei a despertar, mas era um despertar triste e vazio, durante todo o sonho passei despercebida como se fosse um animal que sai sempre por aí sem rumo. Andei entre aquela multidão. Na minha frente somente ruas desconhecidas e difíceis de atravessar, pois o trânsito era enorme, pessoas olhavam para mim como se olha para uma criança, dessas que não nos atraem. Para todos eu olhava procurando um gesto de reconhecimento, porque naquele momento eu estava perdida. Não totalmente, porque procurava alguém, alguém que não sei quem é. Em cada rua que passava tudo se tornava mais difícil. As pessoas continuavam com o semblante rígido e eu, mais triste do que nunca, continuava o meu tormento. Procurei em todos os cantos o alguém que procurava, sem ter pista certa. De repente vi alguém parecido. Segui às pressas, por cima de tudo. Alcancei, mas a decepção foi total, pois quando olhei o rosto, era muito diferente do que eu pensava. Nisso o cansaço tomava conta de mim. Minhas pernas pareciam estar sendo picadas por milhares de insetos e os olhos ardiam tanto que os fechava de vez em quando. Nunca me senti tão desesperada em minha vida. Tenho a impressão que adormeci em algum lugar daquela cidade desconhecida, sob a sombra de uma árvore, depois saí sem esperança alguma. Na frente avistei uma multidão. Algo estava acontecendo. Sem saber mais o que fazer saí para lá. O porquê não sei, só sei que algo me empurrava e eu seguia muito fraca, com as pernas bambas. Quando me aproximei senti uns olhos me fitando tanto que enfraqueci mais ainda. Depois recobrei os sentidos e compreendi que aqueles olhos pertenciam à pessoa que eu tanto procurava. Olhei para ele e não senti mais o mesmo olhar de antes. O olhar era agora compreensivo. Então não vi mais nada. Somente algo forte soava em meus ouvidos. Era a voz do desconhecido a quem eu procurava. Era uma voz suave e distante, que ficou muitos dias ecoando no meu cérebro. Depois ouvi uma música também diferente, como se fosse tocada por instrumentos não conhecidos. Foi a música mais linda que ouvi durante um tempo.

O despertar real foi triste. Senti muito quando acordei. Apesar de ter sofrido muito com a indiferença das pessoas, eu entristeci pois talvez aquele sonho tenha sido um momento muito importante na minha vida. Ainda hoje recordo aquele olhar, cheio de ternura e compreensão. Fico triste em saber que nunca mais vou ver aqueles olhos maravilhosos.

(Eliete Bezerra)

26.4.09

NADA MAIS QUE A VERDADE

Se então um menino vem ao encontro de vocês, se ele ri, se tem cabelos de ouro, se não responde quando interrogam, adivinharão quem é. Então, por favor, não me deixem tão triste: escrevam-me depressa que ele voltou...
(O Pequeno Príncipe - Exupéry)


Às vezes sinto falta de meus tempos de criança. Não que eu ache que a infância tenha sido a aurora da minha vida, lamentando que os anos não a tragam mais. Estou mais para Hesse, que acredita que para trás não conduz a nenhum caminho, que nem mesmo as crianças são felizes e sim suscetíveis de muitos conflitos, de muitas desarmonias, de todos os sofrimentos. Sinto falta talvez por aquele tempo ser época em que, mesmo antes de me ser negado todo tipo de conhecimento, eu era realmente pequeno demais para compreender. Pois dentro de minha vontade grande de saber de todas as verdades, é só o não-entender que, ainda que momentaneamente, me conforma.

Fui, durante considerável tempo, criança trancada em casa com babá, porque meus pais saiam para trabalhar. A diferença de idade entre mim e meu irmão era, então, considerável para que ele fosse companhia em minhas brincadeiras. Recebia muito poucas vezes visita de amiguinhos em casa. Então meus brinquedos — que não posso me queixar, eram muitos —, em sua maioria, eram de brincar só mesmo. Tinha muitas peças de LEGO, criava vários robôs, carros e ambientes; lembro de uma série LEGO de tela para se construir desenhos com as pecinhas mais finas, acho que produzi desenhos suficientes para toda uma exposição. Também tinha a massinha pra modelar — eu era muito orgulhoso de mim com a superioridade de minhas esculturas, que quando feitas na escola, impressionavam os outros meninos.


Por ser ruivo, foi em criança que descobri que se paga um preço por ser diferente: na escola tinha vários apelidos hostis por conta de meus cabelos. Me zangava, as vezes queria brigar, mas eu era realmente o único de cabelos laranja ali, o que me restava senão achar que a culpa era mesmo minha?


Meus pais só se separaram quando eu já tinha onze anos, mas desde que me conheci, também tive que aprender a lidar com a falta de ter um pai. Não sei até onde ele tem culpa nisso. Afinal, se por um lado não há escola para essas coisas; por outro, há os que não aprendem nunca. Há fotos minhas bebê em seu colo, onde ele parece bastante alegre e orgulhoso do filho. Mas depois que tive idade suficiente pra reter lembranças na memória, ele nunca soube ser afetuoso. No entanto, me lembro com total clareza de dois momentos em que houve a tentativa. — Eu devia ter cinco ou seis anos, era cedinho e meu aniversário; acordei com o levíssimo rumor que ele fez ao entrar no meu quarto para pôr sobre os meus chinelinhos um trem elétrico que tenho até hoje. Não sei explicar. Não me lembro. Sei que fingi que ainda dormia e suportei firmemente a minha curiosidade em saber o que era que havia naquela caixona até a hora em que eu costumava acordar. Ao acordar, fiz toda a festa com o brinquedo novo. Lembro de minha mãe fingindo surpresa, me beijando, dizendo ser lindo o trenzinho, lembro de Maninho, um vizinho mais velho, vir me ajudar a montar pela primeira vez os trilhos, mas não lembro de qualquer gesto de meu pai. Numa outra vez, quando podaram as árvores dos canteiros que separam os sentidos mão e contra-mão da avenida que morávamos, a moda entre os meninos da rua com quem eu raramente brincava, era fazer arco e flecha com os galhos cortados. Meu pai, ao ver o quão era mal feito o que eu tinha construído para mim, pegou galhos e, lá no quintal, com uma faca, fez um arco fabuloso pra mim, bem resistente e flechas retinhas, lisas, sem casca da madeira. Fiquei tão orgulhoso! Fui brincar com os meninos. Mas não durou muito. Um deles, maior que eu, tinha um canivete e me convenceu de que eu devia deixá-lo apontar as flechas para que elas ficassem como as de índio de verdade. Eu não pude ir à casa dele com os outros meninos para vê-lo executar o favor. Quando eles voltaram, me disseram que na tentativa de apontar, as flechas quebraram, uma a uma. No início, bobo que eu era, acreditei, nem me zanguei com eles. Depois é que vi que eles quebraram tudo com inveja ou sadismo. E dos dois carinhos de meu pai em épocas que podiam me ficar na memória, só me resta o trenzinho que não sei mais montar.


Acho que de alguma forma foi essa solidão de criança que me fez aguçar a imaginação e criatividade. Pois não me lembro de naqueles tempos de ter consciência de não compreender algo. Não me era preciso muito para adivinhar as respostas. Eu explicava, por exemplo, que os raios e os trovões eram o resultado de uma nuvem se chocando com a outra, como quando batemos duas pedras e sai barulho e faísca. Eu achava que nuvem era gelo flutuando e que a chuva era esse mesmo gelo derretendo. Mas não me ocorria pensar em como um raio de fogo podia sair de duas pedras de gelo enorme se chocando. Pensar nisso pra quê? “Aleluia” era uma panela que ficava sempre em cima do fogão com leite. Achava que jornalistas de TV eram meio maus quando em notícia de desastre eles diziam: “morreram pelo menos dez pessoas”. E dez pessoas já não é muito?, eu pensava. Ainda sobre morrer, eu, criança do interior, ouvia o carro de som noticiar o falecimento de alguém e sempre no fim da nota o homem dizia: “a família desde já agradece a todos que comparecerem a este ato de fé e solidariedade cristã”. Daí eu lamentava: como morre gente nessa família Desdejá, meu deus! Quando ouvi pela primeira vez falarem de dengue e que pra evitá-la não podíamos deixar recipientes com água parada, se tivesse que beber água aos poucos, enquanto conversava com alguém, por exemplo, sempre dava um jeito de ficar chacoalhando um pouquinho o copo para a água não parar e eu pegar dengue. Uma vez meu tio, que morava numa casa perto de uns terrenos com muitas plantas e entulhos, trouxe pra casa um escorpião num vidrinho de maionese. Fique atordoado com aquele bicho e com o que ouvi sobre ele, que podia morrer de uma febre provocada pela ferroada. Pouco depois nos mudamos pra uma casa que na rua paralela tinha muito matagal, então morria de secreto medo de escorpião e mesmo em tempos de calor, pedia a minha mãe, que ficava sem nada entender, pra que me deixasse dormir com um cobertor grossíssimo que ela tinha. Uma prima me contou sobre o Negro D’água, uma lenda do rio São Francisco, que ele saía da água depois do crepúsculo e levava a gente pro fundo do rio. Daí eu passei a ter medo até da água da privada depois que o sol descia. Essa mesma prima me contou da Comadre Florzinha, que fazia todo mundo que invocasse seu nome no meio da mata se perder e ainda levava umas chicotadas. Só se safavam aqueles que carregavam fumo de rolo consigo. Eu, que nunca andava com fumo, ficava com medo de pensar na Comadre Florzinha até no jardim da casa de vovó, que era cheio de plantas.


É engraçado relembrar dessas coisas, desses medos. Medos que eu só tinha porque as verdades que eu sabia naqueles anos eram limitadas demais e me permitiam. Não sei precisamente quando foi que comi o fruto do conhecimento do bem e do mal. Acho que porque em adulto iria me tornar ateu, nunca houve deus ou anjo pra me avisar do perigo que é. Mas agora estou fora do paraíso desses tantos seres possíveis, almas do outro mundo e da simples paz de me contentar com minhas próprias explicações e conclusões.


Fui saindo sem ver. Sem sentir. Nunca tinha pensado nessas coisas; nunca tinha dado por minha transformação mesmo depois de já estar trabalhando, ganhando meu próprio dinheiro. Comecei por dar aulas a crianças e adolescentes. Julgava não ser tão considerável a diferença do meu espírito do deles. Até o dia que, como um amigo quer compartilhar uma leitura com outro, pedi a os meninos da sétima série que lessem O Pequeno Príncipe, livro que li e reli incontáveis vezes quando tinha a idade deles e até um pouco mais. Pedi, para começar, que eles, após lerem, respondessem a ficha de leitura que acompanhava a edição. Então resolvi reler a obra mais uma vez, depois de tanto tempo, para ter mais confiança na correção dos trabalhos. Foi um choque. Eu já não conseguia mais ver o elefante engolido pela cobra. Era difícil não ver ali um chapéu. Não conseguia ver além da caixa. Não conseguia ver o carneiro. E, no fim, quando ele diz que se acreditarmos que em algum lugar do céu há um planetinha e nele um menino com uma rosa e três vulcões, as estrelas serão guizos e se não acreditarmos, as estrelas serão só lágrimas, olhei pro céu e constatei que, há muito, as estrelas nem mais tinham o formato pentacular que eu costumava desenhar quando tentava pintar o horizonte. Não mais o formato da estrelinha da turma da Mônica, amarelinha, sorridente, que piscava da palma da mão e me enchia de emoção, apesar de ser um brinquedo tão estático. Nem tampouco podiam abrigar menino, rosa ou vulcões tão disciplinados. Eu chorei. Chorei muito trancado no banheiro. E foi meu último choro da criança que eu já não mais era.


E agora? Bem, agora, na verdade, é somente a verdade.

12.2.09

DOZE DE FEVEREIRO DE DOIS MIL E NOVE

E mais uma vez, desde quando foi inventada a contagem do tempo, é dia doze de fevereiro. E pela vigésima sétima vez, a contar de mil novecentos e oitenta e dois, é doze de fevereiro para mim, que nasci — ai de mim. É mais um ano que passa ou mais um por vir? Não sei. Então, humano que sou, fico a temer o desconhecido. Em pequeno, uma vez, me ocorreu: vou morrer quando tiver vinte e sete anos. Exatamente hoje eu posso dizer: eu já tive vinte e sete anos para morrer e não morri. Mas também hoje eu pergunto: a contagem agora é regressiva? Todo dia é dia para se morrer, a gente sabe. Mas, às vezes, a certeza da morte, que é a que dizem ser a única que se tem da vida, me acomete com impacto de novidade e, muito embora eu não tenha medo da morte mais do que tenho sentir dor em sua hora, fico fortemente angustiado com a dúvida: será que estou desperdiçando minha vida? Que estou repleto dela a ponto de não caber mais eu sei e sinto — tantas coisas eu quero vivenciar mas não posso, tantas coisas poderia ser mas não é permitido, tantos lugares quero ir mas não há como, tanto tenho pra dar mas não querem... Se por um lado as intempéries não chegaram a impedir o crescimento das uvas, elas parecem estar destinadas a apodrecer no galho por não serem de boa safra para o vinho. Hoje é meu aniversário e comecei por falar de morte. É que não sei quase nada sobre a vida a não ser que, como alertou Guimarães Rosa, viver é muito perigoso. E eu não tenho nenhum preparo. Vou vivendo de improviso. Não sei planejar o futuro. Já é quase carnaval e nem mesmo alegria suficiente para um carnaval eu consigo ter. Mas eu já tive para bem mais, eu juro. Tudo é tão passado. Mesmo eu neste momento pareço ser antes de Cristo. Como Quéops, Quéfren e Miquerinos, que mesmo estando de pé ainda hoje não dá mais pra serem de agora. E como se não bastasse hoje ainda fico mais velho. Tenho medo também de envelhecer. Sim, eu sou vaidoso. Suspeito com muito risco de certeza que é balela toda essa história de que há beleza na velhice. O que quando muito pode haver é paz. E também não sei dizer se a paz de eterno silêncio pra cochilo e bandeira branca hasteada é céu. Espero não estar parecendo ser amargo. Quem me conhece sabe que não sou. Mas não dá pra negar que estou triste, mesmo agora eu choro de tristeza. Mas é sem desespero. Há tristezas dulcíssimas. Já aprendi a sofrer. E hoje só aceito que o sofrimento venha se for para sofrê-lo bem, não dá mais pra sofrer muito. Sofrer muito exaure demais uma pessoa. Minha força é de ocasiões. Mas acaba de me ocorrer uma coisa: se eu morrer mesmo com vinte e sete anos, vai ter certa graça. Vai ser até literário, como foram tantas outras coisas que me aconteceram. E vai ser uma pena eu não estar aqui pra escrever.

15.6.08

O VIAJANTE DO ESCURO

Minha ida àquela detestável cidade havia sido, de certo modo, por obrigação. Mas não vem ao caso, agora, os motivos que me levaram até lá. Se justifico que não podia escolher não ir, é somente para que fique claro que já carregava incômodo em mim antes mesmo de entrar naquele ônibus povoado de pessoas sujas de si mesmas — paradas que estavam de um longe que vinham com destino ao longe que iam. Incômodo que o balanço constante e incontrolável das minhas pernas engrenava um relógio que girou na verdade dois mil anos em apenas registradas duas horas de viagem. E de pura impaciência, mal o veículo entrou nos limites urbanos da cidade, saquei o telefone e liguei para minha tia pedindo que ela se adiantasse a ir me buscar na rodoviária. Eu queria descer dali e ir diretamente sem espera para sua casa. Me ligue quando chegar realmente no terminal, você sabe, não é longe daqui, eu não vou demorar — foi o que ela me respondeu. E eu não iria argumentar com o que ia lhe parecer um mero capricho.

Não tive o privilégio do vento fresco e puro para aliviar minha tensão no desembarque. Ele chegava até mim em brisa aquecida e por vezes mal cheirosa, por ter sido antes retardado em meio à aglomeração de pessoas iguais àquelas do ônibus que tomei. Do outro lado, no embarque, ainda que não tão volumosa como a de cá, outra aglomeração agitava-se para se dividir em três ônibus que abriam as portas e começavam a aquecer os motores, dois com destino à João Pessoa o outro à Campina Grande. O que tanta gente iria fazer na Paraíba? Cada um com seu motivo... E eu acabei me lembrando que ainda não a conheço. Com minha pequena bolsa de viagem de fim de semana pendurada no ombro, caminhei o mais rápido que pude rumo a uma das saídas, enquanto de telefone já no ouvido esperava minha tia me atender e desviava de mais pessoas que circulavam ali naquele começo de noite de sexta feira.

No portão relativamente largo, cinco mulheres conversavam despreocupadamente sem se darem conta de que dificultavam a passagem de pessoas que precisavam entrar e sair com pacotes e bagagens. Tive que pedir licença a que se encontrava mais próxima à parede para que ela se afastasse me permitindo passar. Foi quando vi, agitando-se no batente que eu precisava descer para enfim sair daquele lugar, a extremidade de uma dessas finas e compridas bengalas e segurando sua outra ponta, sim!, um cego. As mulheres simplesmente pareciam não terem atinado que um homem que não enxerga estava completamente atrapalhado porque elas obstruíam o caminho e conversavam alto e ao mesmo tempo, confundindo a direção dos sons. Ele estava só e muito provavelmente foi só que chegou até ali.

Não foi por bondade, tampouco altruísmo, mas decidi ajudar o cego. Talvez tenha sido algum eco da boa educação que recebi mas que eu, rebelde que sou, infrinjo tantas vezes por dar vazão em tantas oportunidades mais ao prazer ou mesmo à crueldade. Ou talvez porque me senti atraído pela condição daquele homem de aspecto um tanto feio, com seu pescoço meio torto, olhos quase que fechados, deixando transparecer no pouco do globo ocular tão totalmente branco que se via, a inexpressão de quem só enxerga o preto.

O que os olhos não vêem o coração não sente. É? Que sei eu do coração de quem não vê? O que sei é que a falta de visão nessas pessoas aguça os outros sentidos e a elas o direito de tocar é quase que impossível de ser negado. A elas é permitido “ver” as outras pessoas através de carícias, percorrendo com a ponta dos dedos e a palma das mãos os sulcos, as saliências e a textura dos rostos e corpos. Para não falar do seu alfabeto táctil, que faz com que a leitura seja uma prática quase sensual e de seus sonhos feitos só de sensações. E certamente gosto e cheiro são mais bem percebidos por um cego, em todas as nuances que eles podem ter.

Uma vez assisti um documentário sobre o cérebro humano em que mostrava um experimento feito com um homem que consistia no seguinte: depois de terem instalado vários eletrodos em sua cabeça pediam que ele observasse uma flor, então percebiam uma atividade em uma determinada região do seu cérebro; em seguida, com olhos vendados pediam que ele imaginasse a flor e a mesma região manifestava a mesma atividade. — As imagens são traidoras e basta uma única visão para o coração se enganar. Sentir ele vai sentir sempre, mesmo que não se queira, mesmo que não se veja ou se torne a ver.

Cuidado, moço, aí tem um degrau, eu disse o convidando a entrar. Ele, relaxando as sobrancelhas, como quem se livra de uma grande preocupação, agradece e emenda: obrigado, senhor, estou percebendo o degrau, mas preciso mesmo ir ao embarque, por onde vou? Esbocei mentalmente um jeito de explicar, mas de que adiantaria pedir que ele seguisse em frente e em certa altura virasse a esquerda? Perdido em seu escuro pessoal naquele ambiente tão iluminado, ele era uma barata zonza de única antena, sua bengala, perscrutando o espaço para evitar os esbarrões e tropeços. Eu agora já não podia voltar atrás, a ajuda não iria poder se limitar numa indicação, Teria que levá-lo até lá, sobretudo porque ele ainda explicou: vou tomar o ônibus para João Pessoa. Pois eu vou levar você lá e temos que nos adiantar, vi que esse ônibus está para sair. A ruga no meio de suas sobrancelhas ligeiramente voltou, mas com voz muito simpática ele me instruiu em como oferecer minha ajuda: pode pegar no meu ombro e caminhar até lá, não se preocupe com o resto. Pegar? Mas não são os cegos que em geral seguram o ombro da gente? Oh, Deus, eu não sei pegar em desconhecidos — eu pensava — eu até de certa forma lhe invejo, senhor cego, porque em meu mundo tão visual eu não sou acostumado em pegar nas coisas e em pessoas, bem como me desagrada ser tocado por quem não conheço. Entretanto, pousei meus dedos indicador e médio em seu ombro e isso foi o bastante para que ele, com um passo mais firme, caminhasse numa velocidade que sei ser impossível para ele quando só.

Cuidado, moço, aí tem um degrau, alertei novamente agora que desceríamos para a plataforma de embarque. Sim, sim, eu percebo o degrau, ele respondeu denotando uma leve impaciência, como quem ao mesmo tempo em que precisa de certos cuidados se irrita com o excesso deles. O embarque ainda estava desorganizado, pessoas espalhadas, despedindo-se, carregando malas. E dessa vez, de maneira firme, peguei no cego, sem constrangimentos, pois crescera em mim naquele instante algo paternal — o pai que segura o filho em meio à multidão para que ele não se perca. E eu suavemente ora o empurrava, ora o puxava, conduzindo-o pelas vias daquele labirinto de objetos e gente. Até chegarmos à porta do ônibus. Depois de conferir com o funcionário que recebia as passagens se a dele era para aquele ônibus mesmo, ele estirou a mão para o nada, sua mão de cego que estirada daquela maneira parece querer apalpar o futuro e agradeceu de maneira enfática, implicitamente dizendo que não precisava mais de mim. Segurei a mão dele: boa viagem. Obrigado! E novamente me dirigi à saída.

Destemido, corajoso e independente, aquele cego é superior a mim. Eu a quem uma imagem põe medo. Eu que muitas vezes enxergando o caminho tenho medo de dar o passo. Eu que mesmo vendo, preciso de uma mão me guiando pelo ombro. Eu que viajo pouco e que precisava que minha tia fosse me buscar na rodoviária não só porque me sentia cansado para ir a pé, mas porque mesmo tendo a visão sadia demoraria um bom tempo para me achar nas ruas daquela cidade onde já fui consideráveis vezes.

Ao chegar ao portão, avistei minha tia que acabava de estacionar: o ônibus chegou agora? Não, é que fui ajudar um cego a embarcar num ônibus. Ela nada comentou. No caminho, antes de me esquecer dele, ainda pensei: ele foi para a cidade onde no Brasil primeiro se vê a luz do sol — uma pena ele não poder ver a luz fresca do sol. Mas ele a sentirá. Bem mais completamente, eu sei.
escrito em 31/01/2007

12.6.08

MEMÓRIA EMOTIVA

Quanto tempo dura uma emoção? Melhor: por quanto tempo a emoção de um momento pode ficar guardada dentro de nós? Será que durante toda a vida carregaremos os ecos de sensações que determinadas situações nos fizeram sentir? Se sim, seremos sempre passíveis de em certos instantes, sem muito aviso — às vezes apenas um gesto ou um cheiro —, sermos acometidos por elas novamente?

Mexendo na bagunça do meu quarto, eis que me recai nas mãos um livro que eu nem lembrava mais possuir. E junto com a lembrança da história que está contida nele ele me trouxe as recordações e emoções da situação em que o ganhei.

A letra meio trêmula com que a autora o ofereceu a mim num autógrafo se encarregou de evocar a data, registrada junto da assinatura: dez de junho de dois mil e cinco. Eu mal havia chegado à cidade, uma então grande amiga que já me aguardava, me ligou dizendo estar com as entradas para a exibição de Dançando no Escuro, que na época já não era mais lançamento, mas ainda não tínhamos visto e aquela amostragem era uma ótima oportunidade. Fomos eu, ela e seu então namorado. Ela se sentou entre nós dois e do meu lado direito a poltrona vizinha se manteve vazia, na seguinte, uma senhora a quem não prestei atenção.

Selma, a protagonista da história, sai da Tchecoslováquia para os EUA — país dos musicais que ela tanto amava assistir — para tentar conseguir fazer a cirurgia que impedirá seu filho de ficar cego devido a uma doença genética que já tirou dela quase toda a visão. Para isso ela trabalha exaustivamente, disfarçando para todos a sua quase total cegueira e seus objetivos. Disfarçando às vezes também para si mesmo seus próprios problemas, imaginando-se num grande musical, onde até mesmo os ruídos das máquinas em que trabalhava viravam música e todos dançavam. Economizava tudo o que pode para o tratamento. Seu vizinho, um policial que está devendo muito ao banco, desesperado e tendo conhecimento de sua deficiência, a rouba. Na tentativa de reaver o seu dinheiro, ela é forçada pelo próprio ladrão a matá-lo. Desacreditada e se privando de detalhar as circunstancias em que tudo aconteceu, acaba sendo condenada à forca. Enquanto espera a execução, até poderia ter recorrido e comutado sua pena, mas como para isso teria que usar o dinheiro que tinha juntado para a cirurgia do filho, prefere que ele se cure e veja os netos que um dia terá e aceita resignadamente a morte.

Mas quem já viu ao filme pode atestar: ele é muito mais do que isso. Só assistindo mesmo para sentir o peso do drama que massacra Selma. Eu chorei. Chorei muito. Não aquele choro de quando vemos um outro filme qualquer, cena de novela, ou mesmo notícias tristes no jornal. Foi um choro desenfreado, com soluços. Nunca passei e os céus me protejam de passar situação parecida. Mas ali era a realidade transfigurada em arte me fazendo provar da mesma agonia que ela sentia em ficar no silêncio. O desamparo com que ela seguia em sua luta. A dor de uma mãe disposta a dar sua vida pra iluminar os olhos do filho. — Maria crucificada em lugar de Jesus.

Fim de filme. As luzes do cinema se acenderam e eu ainda chorava. Minha então amiga e seu então namorado saíram na frente, percebendo que eu realmente precisava de mais um tempo ali sentado. Enxugava as lágrimas na blusa, fungando, procurando me recompor. Foi quando fui surpreendido pelo comentário feito em tom extremamente simpático pela senhora sentada na poltrona depois da vazia ao meu lado:

— Mas que rapaz sensível!

Olhei pra ela tímido, esboçando um sorriso e logo voltando a baixar o rosto.

— Nosso encontro aqui talvez não tenha sido por acaso. Acho muito bonito um jovem capaz de se emocionar assim. — Ela disse sorrindo. Continuou me olhando por uns segundos e mexendo em sua bolsa como quem procurava algo continuou. — Eu havia prometido dar isto a uma pessoa, mas acho que será bem melhor dar a você.

Era um livro. A Luz do Amor. Em outras circunstâncias eu teria pensado de imediato: que título cafona! Mas na hora, nada pensei. Apenas observei a capa e folheava suas páginas sem ler. Ela continuava me olhando com ar bondoso. E então me falou sobre o livro.

— Fui eu que escrevi esse livro. Ele conta a minha história e a história do meu filho. Quando engravidei dele tive uma espécie rara de rubéola que não foi identificada pelos exames médicos. Por conta dela meu filho nasceu prematuro e com múltiplas deficiências, inclusive cegueira. Os médicos lhe deram apenas dez anos de vida. Sofri muito. Sobretudo por conta do preconceito das pessoas. Mas hoje ele já tem catorze anos e todo o amor que eu e minha família damos a ele o faz se adaptar cada vez melhor ao mundo.

Eu fiquei bobo! Ela tomou o livro de minhas mãos, escreveu uma dedicatória e pôs seu autógrafo. Agora era eu que olhava para ela que não parecia ter chorado nenhuma vez ao ver o filme. Naquele mesmo espaço de tempo eu tinha me aproximado de duas histórias diferentes, mas, de certo, com muitas dores parecidas. Uma da ficção e outra real. Duas mulheres que pagavam um preço alto demais porque, como diz Selma no filme, desejavam ter o prazer de segurar um filho nos braços. O que se seguiu eu não sei explicar de quem foi a iniciativa: nos abraçamos. Acho que era apenas isto: nós dois queríamos nos abraçar.

Li o livro de uma vez só na semana seguinte. Leitura fácil, sem se preocupar em fazer Literatura. É apenas o relato de alguém que realmente precisava dividir suas angústias, reflexões e as alegrias que ia conquistando com os progressos do filho. O compartilhar de uma história repleta de emoções que ela, forte que seja, não pode guardar sozinha. É preciso dividi-la com os que ela ama e os desconhecidos. Preferencialmente desconhecidos com a capacidade de se comover, como um rapaz que chora feito criança ao ver um filme.

Pessoas como eu! E não me elejo assim com intenção de me gabar. — Nesta vida o que não falta é motivos para nos comovermos. Seja por conta de tristezas ou de fragmentárias alegrias. Quem sente sabe: a alma às vezes cansa e não há tempo para se refazer. A vida é agora, agora e agora e agora... E amanhã, por mais filho de hoje que seja, pode não guardar nem um laço de parentesco. Duas semanas depois daquele encontro minha vida mudou completamente e um dia talvez eu também escreva um livro contando o que aconteceu. E foi mudando, mudando e só vagas semelhanças e momentos como o de agora em que seguro este livro atestam que o eu daquele dia é o mesmo de hoje. A então amiga já não tem mais seu namorado. Mesmo nós que nos gostávamos tanto nem somos mais amigos. Por onde anda a senhora e seu filho? Continuam bem?

E tudo vai passando. Só nos resta sentir muito. Sentir bem. Porque ao que parece, é só o que fica. E num certo dia, desavisadamente, um livro, ou um filme, ou uma foto, ou um gesto, ou um cheiro vai nos fazer lembrar.

escrito em 22 de janeiro de 2008


9.6.08

PARA ONDE VOU?

trecho de carta enviada à Ana Paula em maio de 2005


Mas para onde vou? Esta tem sido uma pergunta angustiante. Um texto de internet, atribuído a Shakespeare — e que provavelmente não deve ser dele — diz que quando não sabemos para onde vamos, qualquer lugar serve. — É inquestionável que seguir andando é fundamental para se chegar aos lugares, porém, qualquer lugar não me serve. Tenho pensado muito sobre isso já que nem do meu próprio lugar natal eu me sinta ou tenha aparentado ser. Digo isso primeiramente referindo-me ao desconforto que você sabe que sinto em estar aqui, depois por um fato que vez ou outra se repete: eu não parecer aos outros que sou daqui. Mas quando falo “aqui” não quero dizer exatamente ou somente a cidade onde vivo. Por repetidas vezes, seja em capitais ou interior, algum estranho (quando não mais de um) me faz a mesma pergunta: “você não é daqui, sim?”. De onde pareço ser então? Eu mesmo não sei. Bem como não sei para onde gostaria de ir. (...) É cada vez mais urgente descobrir qual é o meu lugar para que, quem sabe, me surjam mais ousadia e determinação para que a minha caminhada possa ter rumo certo. Quando eu e meu irmão nascemos, minha mãe, seguindo uma superstição de família, guardou em caixinhas enfeitadas com fita um pedaço do cordão umbilical de cada um de nós. Quando ultrapassamos os doze anos, ela nos entregou nossos respectivos umbigos dizendo que os enterrássemos no lugar que quiséssemos fixar raízes. Meu irmão se desfez do dele jogando-o no rio, e isso talvez tenha alguma relação com a vida que ele leva, sempre correndo como as águas de um; mesmo o trabalho dele o impele a estar sempre viajando, sempre correndo. Quanto a mim, ainda tenho o meu, guardando-o com cuidado, na espera mais e mais ansiosa de enterrá-lo. A faceta de estrangeiro não combina comigo e tampouco sou uma pessoa desbravadora, que empreende viagens, que está facilmente preparada para correr riscos. Tenho em mim necessidade de portos seguros, de estabilidade e controle, de tal maneira que acabei me tornando um alguém desconfiado e cheio de medos de me ferir, de ser enganado, de enterrar o meu umbigo e depois ser obrigado a me retirar ou de me abandonarem ali, porque sozinho no fim eu também tenho medo de ficar...

8.6.08

MAURA

— Vocês têm um real para inteirar minha passagem? — ela perguntou com cara e tom extremamente simpáticos, tirando a mim e minha amiga de nossa despretensiosa conversa de mesa de bar.

Era uma dessas doidas que comumente encontramos por qualquer rua. Mas naquela rua do Recife em especial, que se chama Rua do Hospício, eu pensei que tínhamos uma quase obrigação de tratá-la bem. — Nós, tidos sãos, éramos clandestinos ali? Convidei-a para sentar-se conosco tendo a aprovação do olhar da minha amiga, ainda que não soubéssemos exatamente o que conversar com ela. Como a cédula de um real que logo lhe entreguei, sentar-se e ter um pouco de atenção era outra coisa que parecia desejar.

— Meu nome é Maura, como é o de vocês?

Respondemos sem saber ao certo se fomos entendidos. Mas sabendo que para ela isso pouco importava. Sentou sem fazer cerimônia e desandou a falar. Era uma doida mansa e feliz, eu posso garantir — dava para constatar nos sorrisos constantes de boca e olhos pisca-pisca que enfeitavam seu rosto arredondado e bochechudo, acima de um estreito pescoço que unia a cabeça ao corpo gorducho de matrona.

— Pois vocês fiquem sabendo que eu andei muito hoje, resolvendo minhas coisas e esse sapato aqui que estou usando me aperta os pés.

Era um par de sapatos preto, baixo, gasto, sujo de pó — não sei se dessas andanças de hoje, mas que pareciam realmente tê-la acompanhado por outras tantas. Combinavam com o restante de seu visual, montado por um vestido estampadinho, com aspecto envelhecido; coque que deixava alguns fios de cabelo soltos e desgrenhados e uns óculos de lentes e armação grossas. Carregava duas sacolas cheias de não sei o que, mas que deviam ser o suficiente para sua vida feliz e despreocupada de doida — eu que uma vez já quis entregar-me inteiramente à felicidade sei que basta carregar bem pouco. Porque naqueles dias em que estive disposto a largar todas as coisas que me sustentam e me equilibram na vida burguesa que tenho para viver doidamente o que meu coração pedia, eu ia precisar de menos do que ela carregava. Entretanto, a razão dessa felicidade não me queria como eu a queria. E hoje acumulo coisas que nem em sacolas cabem. Mas toda minha felicidade embalada apenas num saquinho de pipoca.

Ela ia nos contando vários fragmentos avulsos do seu dia e de sua vida, pulando de um para outro sem preocupar-se com qualquer coesão que os pudesse correlacioná-los. (Mas o que estou dizendo? Se ela se preocupasse com coisas do tipo eu teria o direito de chamá-la de doida? Isso se tivermos nós realmente esse direito de classificarmos o que é ou não loucura...). Maura me constrangia com sua total de liberdade de ser. Ela simplesmente não se preocupava. Enquanto nós — nós desperdiçamos muito do nosso tempo alimentando sonhos e desejos que talvez nunca sejam realizados porque já formulamos antes leis e convenções que nos reprimem. Maura poderia dançar nua naquela rua tão movimentada, rindo gostoso ao som de sua encantadora música imaginária até que alguém repletamente envergonhado — sobretudo porque não teria tal coragem — a faria parar. São Paulo já havia dito há muito tempo em uma de suas cartas aos Coríntios que Deus escolheu as coisas loucas do mundo para envergonhar os sábios.

— Eu gosto muito de cerveja. Lá na minha casa tem um freezer cheio!

Desculpe-me, Maura, por não ter pedido um copo para você beber conosco. Até cogitei fazê-lo, mas achei melhor não. Mesmo porque você não precisa. Nós que nos dizemos normais é que precisamos da cerveja e de outras tantas substâncias para podermos entrar de quando em vez nesse mundo que você vive. Todos nós de uma maneira ou de outra lhe invejamos.

Ela nos contou que sua mãe a odiava e queria lhe fazer o mal:

— Se um dia vocês virem na capa do jornal: “Maura morreu”, podem saber que foi ela quem me matou.

Impossível que sua mãe, sendo viva, a odeie. Difícil crer como alguém não possa gostar de um ser como a Maura, tão agradável e alegre. E eu poderia ter ficado o resto do dia ali ouvindo-a falar, vendo-a rir. Mas o relógio, invenção dessas das mais doidas de gente séria que quer pôr rédeas no tempo, me avisou que já era hora de ir. Chamei minha amiga, que estava igualmente encantada com nossa companhia, pagamos a conta e nos despedimos de Maura, que só pareceu entender que já nos íamos quando nos viu levantar das cadeiras. Então também levantou, agradeceu, se despediu dando tchauzinho com a mão e saiu andando em direção oposta a que seguimos.

Eu e minha amiga nunca a esquecemos e vez ou outra quando estamos juntos comentamos: “lembra daquela tarde da Maura?”. Claro que sim! Maura nossa amiga doida predileta.

E se alguém que me lê agora vir um dia por aí em algum jornal a notícia de que Maura morreu, por favor, me avisa para que eu possa chorar por mim.

escrito em 24/08/2006