12.2.09

DOZE DE FEVEREIRO DE DOIS MIL E NOVE

E mais uma vez, desde quando foi inventada a contagem do tempo, é dia doze de fevereiro. E pela vigésima sétima vez, a contar de mil novecentos e oitenta e dois, é doze de fevereiro para mim, que nasci — ai de mim. É mais um ano que passa ou mais um por vir? Não sei. Então, humano que sou, fico a temer o desconhecido. Em pequeno, uma vez, me ocorreu: vou morrer quando tiver vinte e sete anos. Exatamente hoje eu posso dizer: eu já tive vinte e sete anos para morrer e não morri. Mas também hoje eu pergunto: a contagem agora é regressiva? Todo dia é dia para se morrer, a gente sabe. Mas, às vezes, a certeza da morte, que é a que dizem ser a única que se tem da vida, me acomete com impacto de novidade e, muito embora eu não tenha medo da morte mais do que tenho sentir dor em sua hora, fico fortemente angustiado com a dúvida: será que estou desperdiçando minha vida? Que estou repleto dela a ponto de não caber mais eu sei e sinto — tantas coisas eu quero vivenciar mas não posso, tantas coisas poderia ser mas não é permitido, tantos lugares quero ir mas não há como, tanto tenho pra dar mas não querem... Se por um lado as intempéries não chegaram a impedir o crescimento das uvas, elas parecem estar destinadas a apodrecer no galho por não serem de boa safra para o vinho. Hoje é meu aniversário e comecei por falar de morte. É que não sei quase nada sobre a vida a não ser que, como alertou Guimarães Rosa, viver é muito perigoso. E eu não tenho nenhum preparo. Vou vivendo de improviso. Não sei planejar o futuro. Já é quase carnaval e nem mesmo alegria suficiente para um carnaval eu consigo ter. Mas eu já tive para bem mais, eu juro. Tudo é tão passado. Mesmo eu neste momento pareço ser antes de Cristo. Como Quéops, Quéfren e Miquerinos, que mesmo estando de pé ainda hoje não dá mais pra serem de agora. E como se não bastasse hoje ainda fico mais velho. Tenho medo também de envelhecer. Sim, eu sou vaidoso. Suspeito com muito risco de certeza que é balela toda essa história de que há beleza na velhice. O que quando muito pode haver é paz. E também não sei dizer se a paz de eterno silêncio pra cochilo e bandeira branca hasteada é céu. Espero não estar parecendo ser amargo. Quem me conhece sabe que não sou. Mas não dá pra negar que estou triste, mesmo agora eu choro de tristeza. Mas é sem desespero. Há tristezas dulcíssimas. Já aprendi a sofrer. E hoje só aceito que o sofrimento venha se for para sofrê-lo bem, não dá mais pra sofrer muito. Sofrer muito exaure demais uma pessoa. Minha força é de ocasiões. Mas acaba de me ocorrer uma coisa: se eu morrer mesmo com vinte e sete anos, vai ter certa graça. Vai ser até literário, como foram tantas outras coisas que me aconteceram. E vai ser uma pena eu não estar aqui pra escrever.

12 comentários:

Wagner Beethoven disse...

é bom pensar que 27 anos hoje em dia muita gente ão chega como vc chegou, ou seja, arrasando demais!

. disse...

ah, Filipe quanta verdade em suas palavras. acho até que morri um pouquinho por dentro...não sei...todo dia é dia de morrer aos pouquinhos. sem muita beleza tantas vezes.

a gente se perde nos planos e nas tentações futuras. nossos ideais ficam assim espalhados pelas mentes e corações de outros... tudo soa com tanto significado e no fundo soa como amargo. resumindo com palavras piegas: "faz parte". e é detestável tentar entender todo esse mundo de nossa velhice precoce como "faz parte". hehehe.

lindos os seus textos.

:)

Anônimo disse...

Certa vez, numa conversa super informal e bem-humorada com Bibi Ferreira, que no alto dos seus então 83 dias disse algo a se referir aos jovens que nunca mais esquecerei: "minha velhice é uma realidade, não nego. A juventude dos outros, entretanto, é passageira."
[zusie], envelhecer é ser réu do Tempo, algoz voraz da juventude. Mas, por outro lado, morremos toda vez que aniquilamos nossos sonhos de sucesso por medo do fracasso. Comemore! Espoque champãs! E mantenha-se lííííííínda com 25 ANOS, idade limítrofe![:P]
ABU!4ever

Linda disse...

esse blog é uma bosta! nem li!

charbak disse...

concordo com o morrer um pouco todos os dias, mas esse morrer não é negativo, não para mim, que acredita que erros e acerto vêm para o bem e isso só revigora.

lendo isso, lembrei do meu irmão que também faz aniversário no dia 12 de fevereiro. acho que te falei, não? bem, mas ele é muito diferente de você e com com certeza não está preocupado com nada disso escrito aqui.

beijo, querido.

Diego Ponciano disse...

bom te ler.

Luana Silva disse...

parabéns! simplesmente me apaixonei pelo seu jeito de escrever. o tipo de texto que me prende na cadeira por horas e horas; e acima de tudo, com sentimento. voltarei aqui mais vezes, se me permitir. parabéns atrasado, por sinal. rs

Aspásia Mariana disse...

sabia que existia poesia no zusé!

Clari... disse...

filipe! que fera teu blog! Vou ler sempre e colocar no meu o link, pode crer! E sobre o post, toda contagem é progressiva ou regressiva, dependendo de quem vê, assim como todo copo pode estar meio cheio ou meio vazio...

Henri B. disse...

do ponto de vista solar, 27 translações, sem sair da órbita!
realmente motivo de comemoração.
bacana o blog
abraço

Anônimo disse...

também já passei por isso, mas não comemorei, a natureza comemorou por mim... ou vocÊ se cura ou se entrega para o amor, à doença, à dor, ao sentido etra do que é interno, à fome, à miséria, ao fim, fim de tudo que é quando você se desfigura de tanto gozar: o amor, a doença, a dor, a "pré- morte", a fome, a miséria, o inverno, enfim o começo da Anunciação. Parabéns!!! comemore pela segunda vez hoje e amanhã e depois, ou então a natureza comemorará por vocÊ...

Anônimo disse...

Sabe, gosto da forma que escreve. Da sua forma de expressão! Saindo desse post e olhando pro orkut ou outros posts, acho você muito criativo, muito autêntico.

Aqui fala um menino de 18, que mora a kilômetros de distância!

Beijos.