26.4.09

NADA MAIS QUE A VERDADE

Se então um menino vem ao encontro de vocês, se ele ri, se tem cabelos de ouro, se não responde quando interrogam, adivinharão quem é. Então, por favor, não me deixem tão triste: escrevam-me depressa que ele voltou...
(O Pequeno Príncipe - Exupéry)


Às vezes sinto falta de meus tempos de criança. Não que eu ache que a infância tenha sido a aurora da minha vida, lamentando que os anos não a tragam mais. Estou mais para Hesse, que acredita que para trás não conduz a nenhum caminho, que nem mesmo as crianças são felizes e sim suscetíveis de muitos conflitos, de muitas desarmonias, de todos os sofrimentos. Sinto falta talvez por aquele tempo ser época em que, mesmo antes de me ser negado todo tipo de conhecimento, eu era realmente pequeno demais para compreender. Pois dentro de minha vontade grande de saber de todas as verdades, é só o não-entender que, ainda que momentaneamente, me conforma.

Fui, durante considerável tempo, criança trancada em casa com babá, porque meus pais saiam para trabalhar. A diferença de idade entre mim e meu irmão era, então, considerável para que ele fosse companhia em minhas brincadeiras. Recebia muito poucas vezes visita de amiguinhos em casa. Então meus brinquedos — que não posso me queixar, eram muitos —, em sua maioria, eram de brincar só mesmo. Tinha muitas peças de LEGO, criava vários robôs, carros e ambientes; lembro de uma série LEGO de tela para se construir desenhos com as pecinhas mais finas, acho que produzi desenhos suficientes para toda uma exposição. Também tinha a massinha pra modelar — eu era muito orgulhoso de mim com a superioridade de minhas esculturas, que quando feitas na escola, impressionavam os outros meninos.


Por ser ruivo, foi em criança que descobri que se paga um preço por ser diferente: na escola tinha vários apelidos hostis por conta de meus cabelos. Me zangava, as vezes queria brigar, mas eu era realmente o único de cabelos laranja ali, o que me restava senão achar que a culpa era mesmo minha?


Meus pais só se separaram quando eu já tinha onze anos, mas desde que me conheci, também tive que aprender a lidar com a falta de ter um pai. Não sei até onde ele tem culpa nisso. Afinal, se por um lado não há escola para essas coisas; por outro, há os que não aprendem nunca. Há fotos minhas bebê em seu colo, onde ele parece bastante alegre e orgulhoso do filho. Mas depois que tive idade suficiente pra reter lembranças na memória, ele nunca soube ser afetuoso. No entanto, me lembro com total clareza de dois momentos em que houve a tentativa. — Eu devia ter cinco ou seis anos, era cedinho e meu aniversário; acordei com o levíssimo rumor que ele fez ao entrar no meu quarto para pôr sobre os meus chinelinhos um trem elétrico que tenho até hoje. Não sei explicar. Não me lembro. Sei que fingi que ainda dormia e suportei firmemente a minha curiosidade em saber o que era que havia naquela caixona até a hora em que eu costumava acordar. Ao acordar, fiz toda a festa com o brinquedo novo. Lembro de minha mãe fingindo surpresa, me beijando, dizendo ser lindo o trenzinho, lembro de Maninho, um vizinho mais velho, vir me ajudar a montar pela primeira vez os trilhos, mas não lembro de qualquer gesto de meu pai. Numa outra vez, quando podaram as árvores dos canteiros que separam os sentidos mão e contra-mão da avenida que morávamos, a moda entre os meninos da rua com quem eu raramente brincava, era fazer arco e flecha com os galhos cortados. Meu pai, ao ver o quão era mal feito o que eu tinha construído para mim, pegou galhos e, lá no quintal, com uma faca, fez um arco fabuloso pra mim, bem resistente e flechas retinhas, lisas, sem casca da madeira. Fiquei tão orgulhoso! Fui brincar com os meninos. Mas não durou muito. Um deles, maior que eu, tinha um canivete e me convenceu de que eu devia deixá-lo apontar as flechas para que elas ficassem como as de índio de verdade. Eu não pude ir à casa dele com os outros meninos para vê-lo executar o favor. Quando eles voltaram, me disseram que na tentativa de apontar, as flechas quebraram, uma a uma. No início, bobo que eu era, acreditei, nem me zanguei com eles. Depois é que vi que eles quebraram tudo com inveja ou sadismo. E dos dois carinhos de meu pai em épocas que podiam me ficar na memória, só me resta o trenzinho que não sei mais montar.


Acho que de alguma forma foi essa solidão de criança que me fez aguçar a imaginação e criatividade. Pois não me lembro de naqueles tempos de ter consciência de não compreender algo. Não me era preciso muito para adivinhar as respostas. Eu explicava, por exemplo, que os raios e os trovões eram o resultado de uma nuvem se chocando com a outra, como quando batemos duas pedras e sai barulho e faísca. Eu achava que nuvem era gelo flutuando e que a chuva era esse mesmo gelo derretendo. Mas não me ocorria pensar em como um raio de fogo podia sair de duas pedras de gelo enorme se chocando. Pensar nisso pra quê? “Aleluia” era uma panela que ficava sempre em cima do fogão com leite. Achava que jornalistas de TV eram meio maus quando em notícia de desastre eles diziam: “morreram pelo menos dez pessoas”. E dez pessoas já não é muito?, eu pensava. Ainda sobre morrer, eu, criança do interior, ouvia o carro de som noticiar o falecimento de alguém e sempre no fim da nota o homem dizia: “a família desde já agradece a todos que comparecerem a este ato de fé e solidariedade cristã”. Daí eu lamentava: como morre gente nessa família Desdejá, meu deus! Quando ouvi pela primeira vez falarem de dengue e que pra evitá-la não podíamos deixar recipientes com água parada, se tivesse que beber água aos poucos, enquanto conversava com alguém, por exemplo, sempre dava um jeito de ficar chacoalhando um pouquinho o copo para a água não parar e eu pegar dengue. Uma vez meu tio, que morava numa casa perto de uns terrenos com muitas plantas e entulhos, trouxe pra casa um escorpião num vidrinho de maionese. Fique atordoado com aquele bicho e com o que ouvi sobre ele, que podia morrer de uma febre provocada pela ferroada. Pouco depois nos mudamos pra uma casa que na rua paralela tinha muito matagal, então morria de secreto medo de escorpião e mesmo em tempos de calor, pedia a minha mãe, que ficava sem nada entender, pra que me deixasse dormir com um cobertor grossíssimo que ela tinha. Uma prima me contou sobre o Negro D’água, uma lenda do rio São Francisco, que ele saía da água depois do crepúsculo e levava a gente pro fundo do rio. Daí eu passei a ter medo até da água da privada depois que o sol descia. Essa mesma prima me contou da Comadre Florzinha, que fazia todo mundo que invocasse seu nome no meio da mata se perder e ainda levava umas chicotadas. Só se safavam aqueles que carregavam fumo de rolo consigo. Eu, que nunca andava com fumo, ficava com medo de pensar na Comadre Florzinha até no jardim da casa de vovó, que era cheio de plantas.


É engraçado relembrar dessas coisas, desses medos. Medos que eu só tinha porque as verdades que eu sabia naqueles anos eram limitadas demais e me permitiam. Não sei precisamente quando foi que comi o fruto do conhecimento do bem e do mal. Acho que porque em adulto iria me tornar ateu, nunca houve deus ou anjo pra me avisar do perigo que é. Mas agora estou fora do paraíso desses tantos seres possíveis, almas do outro mundo e da simples paz de me contentar com minhas próprias explicações e conclusões.


Fui saindo sem ver. Sem sentir. Nunca tinha pensado nessas coisas; nunca tinha dado por minha transformação mesmo depois de já estar trabalhando, ganhando meu próprio dinheiro. Comecei por dar aulas a crianças e adolescentes. Julgava não ser tão considerável a diferença do meu espírito do deles. Até o dia que, como um amigo quer compartilhar uma leitura com outro, pedi a os meninos da sétima série que lessem O Pequeno Príncipe, livro que li e reli incontáveis vezes quando tinha a idade deles e até um pouco mais. Pedi, para começar, que eles, após lerem, respondessem a ficha de leitura que acompanhava a edição. Então resolvi reler a obra mais uma vez, depois de tanto tempo, para ter mais confiança na correção dos trabalhos. Foi um choque. Eu já não conseguia mais ver o elefante engolido pela cobra. Era difícil não ver ali um chapéu. Não conseguia ver além da caixa. Não conseguia ver o carneiro. E, no fim, quando ele diz que se acreditarmos que em algum lugar do céu há um planetinha e nele um menino com uma rosa e três vulcões, as estrelas serão guizos e se não acreditarmos, as estrelas serão só lágrimas, olhei pro céu e constatei que, há muito, as estrelas nem mais tinham o formato pentacular que eu costumava desenhar quando tentava pintar o horizonte. Não mais o formato da estrelinha da turma da Mônica, amarelinha, sorridente, que piscava da palma da mão e me enchia de emoção, apesar de ser um brinquedo tão estático. Nem tampouco podiam abrigar menino, rosa ou vulcões tão disciplinados. Eu chorei. Chorei muito trancado no banheiro. E foi meu último choro da criança que eu já não mais era.


E agora? Bem, agora, na verdade, é somente a verdade.

15 comentários:

Alarife Ermo disse...

Me identifiquei bastante com o texto que, na verdade, é parte de sua vida e também parte da minha.
Quando olho pra trás e sinto que minha infância e adolescência passaram rápidas, me dou conta de que a verdade é que eu não as vivi suficientemente, assim como pareço não viver suficientemente minha fase adulta.
Pra mim, parece que as estrelas sempre foram, e pra sempre serão, lágrimas, por mais que a lua pareceça sorrir algumas vezes.
No fundo, acho que ainda somos crianças...

Acho que devemos ter a coragem e a obstinação do Pequeno Príncipe em desbravar o universo em busca daquilo que ele acredita.
A rosa precisa ser protegida a qualquer custo, e por maiores e imponentes que sejam os baobás, eles terão que sucumbir.

Gabriela. disse...

Amor, ótimo essa de Família Desdejá, criança tem mesmo umas genialidades!
AH da dengue então!!! Criança tem dessas genialidades.

Como a minha priminha paulista na fazenda, no curral:
- Vó, não tomo leite de bicho, só de caixinha.

Literalmente esse texto me arrepiou. Fantástico como vc pesa, sopra e pesa.

Lindo, lindo, lindo.
E agora estou com medo de reler O pequeno príncipe.

. disse...

algumas coisas são perdidas em linhas do tempo.
outras ficam guardadas em uma alguma caixinha...
tantas permanecem...

eu me identifico tanto com essas palavras.
me sinto em uma roda gigante sem pausas...

Doutora Foligata disse...

Que texto lindo! Mas fiquei melancolicaaaaaa...
Não faço parte da sua infancia, faço parte de uma coisa nova - parte da sua vida virtual! Estranho, né?!
Quando vc for apresentar Maninho, irá dizer que é seu amigo de infancia. Qdo for me apresentar, dirá: minha amiga de web. Que bom que as coisas mudam, porque onde raios eu iria te encontrar nessa vida se não fosse assim?!?!
E, se deixar, ajudo a montar o trenzinho! Vou amar!
Um bjo grande

mc disse...

dificil escrever um comentario, quando é voce que ta escrevendo o texto!!! sei lah, parece que tudo soa "menos"...

texto lindo. mas eu ainda acredito que voce tenha olhos de criança! talvez soh voce nao o perceba...

xêro, moço ruivo!

Henri B. disse...

Muito bacana seu texto, de verdade!
A infância é um grande laboratório, não saber e ao mesmo tempo ser empírico.
Tentativas e erros.
Ver tudo como se fosse a primeira vez, se espantar, encantar, assustar...
Eu aprontei várias na infância, uma delas foi alimentar os peixes de um aquário gigante que meu tio tinha. Dei prá eles "meu prato preferido": leite com achocolatado!
e um pouquinho de leite condensado tbm! heuehue
eles morreram...
Qual seu orkut ou facebook?
Abraço

Gustavo disse...

as vezes esqueço que você escreve tão bem.
nossa.
me emocionei. e eu nunca me emociono lendo textos de blog.
nem quando digo que me emocionei pra agradar.

mas tu é diferente, nem preciso agradar.
:)

Ana T. disse...

Simplesmente d+,
Verdades ou contos são coisas absolutas e sinceras.
Genial!

Bjos!

Aspásia Mariana disse...

nossa...nossa...li e reli esse livro, como vc mesmo diz, 64783489207 de vezes e agora me deu um medo de uma releitura.

danilo k. disse...

eu adoro as histórias de quando éramos crianças. e os medos também. e essa coisa do não saber é exatamente isso, a gente fica meio perdido... mas tem verdades que depois que sabemos passada a infância, são verdades que pensamos: "por que precisei saber disso?", né. aí, queremos ser criança de novo. quando criança, queremos ser adulto. nunca conformamos.

...

eu gostei daqui.
posso voltar mais?

BarelyEly disse...

Fiquei emocionado com sua sinceridade, temos coisas em comum.

Gostei do estilo, enfim, eu me emocionei mesmo.

♥ Janinha ♥ disse...

Fantastico.
Seu texto me fez viajar e consegui vizualizar cada cena descrita por ti.
Eu adoro o Pequeno Principe, e acho que temos que ser crianças pra sempre, não em nossa totalidade, mas tem que existir um pouco da inocencia, da fé, da simplicidade como veem a vida. Não podemos perder isso jamais.
Ás vezes fico observando as crianças e sinto inveja de tudo que elas ainda não sabem, de todas as dores que ainda não sentiram, do pouco que elas precisam pra se sentirem felizes.
Enfim.
Virei leitora.

Parabens

Beijos

Vânia disse...

Essa da dengue foi ótima!rsrsrsrs lembrar da infância é inevitável,das brincadeiras,da escola,dos amiguinhos,das brigas e das festinhas de anivesário.É um passado indelevél,afinal como era ''bom'' aquele tempo!Mas,aproveitemos o hoje, o máximo que pudermos,pois ele também será passado,então pensemos no futuro(o eterno desconhecido)é nele que está parte de nossos sonhos,nossa glória.Quantas coisas queremos do futuro.E pensar que ele também se tornará passado.tudo passa.O que permanece são as eternas lembranças e o que nos tornamos ao longo do tempo.parabéns!!!!!!!!!

Vânia disse...

Essa da dengue foi ótima!rsrsrsrs lembrar da infância é inevitável,das brincadeiras,da escola,dos amiguinhos,das brigas e das festinhas de anivesário.É um passado indelevél,afinal como era ''bom'' aquele tempo!Mas,aproveitemos o hoje, o máximo que pudermos,pois ele também será passado,então pensemos no futuro(o eterno desconhecido)é nele que está parte de nossos sonhos,nossa glória.Quantas coisas queremos do futuro.E pensar que ele também se tornará passado.tudo passa.O que permanece são as eternas lembranças e o que nos tornamos ao longo do tempo.parabéns!!!!!!!!!

diko disse...

Realmente.
Acredito que nos identificamos com o texto porque em tese, buscamos esse mundo perdido da infância.

Parabéns! Além de passar suas ideias com muita clareza, escreves muito bem.