9.6.08

PARA ONDE VOU?

trecho de carta enviada à Ana Paula em maio de 2005


Mas para onde vou? Esta tem sido uma pergunta angustiante. Um texto de internet, atribuído a Shakespeare — e que provavelmente não deve ser dele — diz que quando não sabemos para onde vamos, qualquer lugar serve. — É inquestionável que seguir andando é fundamental para se chegar aos lugares, porém, qualquer lugar não me serve. Tenho pensado muito sobre isso já que nem do meu próprio lugar natal eu me sinta ou tenha aparentado ser. Digo isso primeiramente referindo-me ao desconforto que você sabe que sinto em estar aqui, depois por um fato que vez ou outra se repete: eu não parecer aos outros que sou daqui. Mas quando falo “aqui” não quero dizer exatamente ou somente a cidade onde vivo. Por repetidas vezes, seja em capitais ou interior, algum estranho (quando não mais de um) me faz a mesma pergunta: “você não é daqui, sim?”. De onde pareço ser então? Eu mesmo não sei. Bem como não sei para onde gostaria de ir. (...) É cada vez mais urgente descobrir qual é o meu lugar para que, quem sabe, me surjam mais ousadia e determinação para que a minha caminhada possa ter rumo certo. Quando eu e meu irmão nascemos, minha mãe, seguindo uma superstição de família, guardou em caixinhas enfeitadas com fita um pedaço do cordão umbilical de cada um de nós. Quando ultrapassamos os doze anos, ela nos entregou nossos respectivos umbigos dizendo que os enterrássemos no lugar que quiséssemos fixar raízes. Meu irmão se desfez do dele jogando-o no rio, e isso talvez tenha alguma relação com a vida que ele leva, sempre correndo como as águas de um; mesmo o trabalho dele o impele a estar sempre viajando, sempre correndo. Quanto a mim, ainda tenho o meu, guardando-o com cuidado, na espera mais e mais ansiosa de enterrá-lo. A faceta de estrangeiro não combina comigo e tampouco sou uma pessoa desbravadora, que empreende viagens, que está facilmente preparada para correr riscos. Tenho em mim necessidade de portos seguros, de estabilidade e controle, de tal maneira que acabei me tornando um alguém desconfiado e cheio de medos de me ferir, de ser enganado, de enterrar o meu umbigo e depois ser obrigado a me retirar ou de me abandonarem ali, porque sozinho no fim eu também tenho medo de ficar...

4 comentários:

Bel_la_Dona disse...

Há um dito popular que diz: "pra quem tá perdido, qualquer caminho é rumo." Mas aí,vem Sêneca com sua frase célebre: "nenhum vento sopra a favor de quem não sabe para onde vai".
À parte minha memória falha para transcrever frases, eu diria que nem sempre o vento a favor é o melhor rumo... Bom ousar,de vez em quando,na contramão.

Doutora Foligata disse...

Se eu já era sua fã, a partir de agora vou receber qual denominação????!!!!! Adoradora?! Fanática??? Perseguidora mesmo?!?
Que bom que vc resolveu nos presentear com seus pensamentos! Pura filantropia!!!!!!!
Doc

mc disse...

Que lindo... engraçado é que eu me sinto bem assim também. =/

lulu disse...

que lindo!

sabe o que eu pensei? que agora o seu cordão umbilical está na escrita.