8.8.09

A ALUNA

Ela era feia. Nenhum atrativo no corpo magro e franzino. E o rosto, como se não bastasse a ausência de beleza, denunciava, como é comum nas pessoas que assim o são, a leve demência que tinha. E era exatamente esse desconcerto de vida o que lhe dava a única graça que possuía. Era de uma simpatia insistente, parecia que nada era capaz de lhe irritar ou deixar de mau humor. Seus dentes, cheios de ferros do aparelho que usava, estavam quase sempre à mostra no sorriso que ela dava tantas vezes até ao nada. Sobretudo na escola, onde seu sorriso fazia coro com riso dos colegas de sala que, com crueldade típica da juventude, não davam nenhum desconto ao seu jeito de ser e constantemente caçoavam dela.

Ela tinha vinte anos e estudava o primeiro ano do normal médio. Queria ser professrora. Cheia de dificuldades com a maior parte das matérias – os colegas asseguravam, no entanto, que ela era boa em matemática, o que não é de se espantar, afinal, a matemática, embora ciência exata, precisa de todo o campo fértil da abstração, coisa tão simples para quem não está tão resignado ao que somente pode fazer sentido –, cheia de dificuldades, tentando sofridamente prestar atenção em tudo com seus olhos pequenos que ela espremia pra ouvir, já havia repetido de ano algumas vezes e, em outros, passou com a facilidade que alguns professores promoveram.

Na certa seria o que também acabaria por fazer aquele professor do primeiro ano. Muito embora ele, apesar de jamais conseguir ser hostil com ela, se impacientava facilmente com seu jeito. Às vezes ela enfiava a cara até onde podia nos basculantes de outras salas onde ele dava aula e, quando ele olhava em sua direção, toda carinhosa dizia: “querido professor, tudo bem?” ou “oi, meu professorzinho”, o que ao mesmo tempo em que lhe deixava consideravelmente irritado e constrangido, lhe impedia qualquer grosseria. Ele fazia o que podia para não interagir com ela, se sentia mesmo agradecido quando ela o esquecia, mas não conseguia não lhe chamar a atenção ou perguntar se ela estava mesmo entendendo quando ficava olhando fixamente pra ele, para a lousa ou para o nada, na hora da aula, com cara de perdida e a boca entreaberta. Tô entendendo tudo, professor, é que to com preguiça. E ria.

Não era uma pessoa amarga esse professor. Era bem jovem naquela época; a vida ainda teria muitas oportunidades de lhe machucar. Mas era precisamente por já saber que a vida, de uma maneira geral, não é boa, que ele há muito aprendeu a desconfiar do gratuito, do riso constante, das pessoas efusivas, dos amigos instantâneos, do “eu te amo” ladainha. Mantinha-se distante e superior a pessoas fáceis assim. Era de poucos amigos e com eles tinha alegrias esporádicas mas verdadeiras e profundas. Tinha um amor também; viviam em cidades diferentes, mas sempre quando dava se viam e era amor mesmo quando não se dizia. A felicidade verdadeira é o conjunto todo do de quando em vez, sim? Não era amargo esse professor, quase nunca deixava escapar uma oportunidade de estar feliz, para justamente dar o troco à vida, porque a ela ele não perdoava.

Mas a aluna? A aluna não estava entre as pessoas fáceis, a aluna não era gratuita. A aluna sorria como se necessitasse, como se fosse sorrindo que ela respirasse, mas era um sorriso, e, conseqüentemente, acompanhado de todo o benfazejo que ele faz ao corpo e à alma. Ela era feliz, era feliz o tempo todo, mesmo quando parecia melancólica e inclinava um pouco a cabeça, de boca fechada, piscando os olhos às vezes muito rapidamente, como se tivesse um cisco neles, mas daí bastava alguém perguntar o que tinha que ela botava os dentes metalizados pra fora e começava a falar toda solícita.

O professor não sabia de onde vinha essa irritação que lhe tomava quando ela lhe dirigia a palavra ou quando ela se aproximava. Na verdade ele não entendia que se sentia, de certa maneira, rebaixado quando perto dela. – Ele, sadio que sempre foi, sabedor de muitas coisas que se esforçou para saber, com sua cota de beleza, com seus cabelos cacheados e ruivos recebedor de elogios, com o respeito que tinha, era apenas normal, comum. Ela era a confirmação de que uma outra coisa era possível, de que uma outra forma de vida existia e que não era preciso estar tão distante deste mundo. Ela podia ser feliz o tempo todo, mesmo que lhe explicassem pormenorizadamente que lhe faziam sofrer. Não era inocente. Ela conseguiria entender. Mas não se importava. Continuaria rindo sinceramente. Se alguém lhe provasse que ela era feia e que ninguém a quereria, continuaria feia sem verdadeiramente se importar, sem nenhuma vaidade, de cabelos sempre presos e cheios de frizz como se os tivesse amarrado logo depois de acordar. Livre e sonhando em ser professora. Isso ofendia o professor, porque ainda que ele tivesse toda a compreensão disso, não estaria disposto a trocar sua vida segura e burguesa pela possibilidade de ter uma como a dela. Teria medo, porque mesmo para ser livre ele precisava de portos seguros.

E houve o dia em que ela, sem o menor esboço de aviso, abraçou subitamente o professor quando saia de uma das turmas. Ele ruborizou, testa e bochechas ardendo, invadido em seu espaço pessoal, constrangido. Todos ao redor olharam. Riram dela. Ele riu também, sem graça e a apertou sem muita força contra si. Ela saiu toda contente. Toda namorada. Toda filha. Toda irmã. Deu tempo dele ficar comovido com o gesto enquanto se dirigia à secretaria. Essa criatura vai mesmo com minha cara, ele pensou. Apesar dele não gostar dela. Ela sabia gostar dos outros sem a reciprocidade, o amor nela não era exigente, era amor sem antônimos. Então ficou ofendido e procurou esquecer o que aconteceu. Mas sempre alerta quando ela estava por perto para fugir antes de outro abraço.

No final do primeiro semestre, as provas. Era uma quarta-feira o dia da prova na sala dela. Ela chegou uns vinte minutos depois que o sinal havia tocado. Todos já estavam fazendo a prova. Ela entrou. Licença, professorzinho. Ele esticando a prova para ela: vá sentar na última cadeira dessa fila. E toda dramática, caricaturizando atriz de novela mexicana ela disse: ai, professor, aqui no fundão!? que humilhação. Todos riram, menos o professor: aí sim.

Depois daquela semana, férias. Então o professor, cansado que estava, queria se ver longe de tudo aquilo, sobretudo longe da escola, adiantou tudo o que pode, virou a noite corrigindo as provas na madrugada, entregou os resultados na quinta e viajou. Foi ver o seu amor. Foi se esquecer de um monte de coisa. Foi se divertir. Era bom estar desobrigado de tudo. Era bom não ser professor.

Mas então se acabam as férias e se volta a ser professor, porque há um monte de gente do mundo que ainda não sabe. E na hora da aula há chamada, porque se não os chamam, eles não vêm. Aí o professor chama o nome dela. Um aluno, todo jocoso, diz: essa daí foi transferida para outra vida. Os outros o repreenderam, o xingaram. O professor, sem muito acreditar, exige que façam silêncio. Uma aluna pergunta: o senhor não tava sabendo ainda? Ela morreu, professor, na sexta-feira daquela semana de prova.

Ele ficou atônito. O susto não era saber que ela havia morrido. O susto era que ela também podia morrer. Ele jamais havia lembrado. Era óbvio, claro, a gente morre, mas ela não era óbvia. Então contaram que ela há muito tinha o coração fraco. Que ela já chegou na escola, para o espanto de todos, se queixando de dores, de muita dor. Gritava. Pediu para ser levada para o hospital. Mas ainda assim ficou lá daquele jeito dela. Até morrer. Foi como descreveram. Contaram também que o pai dela era um homem severo, ríspido e lhe batia muito. O professor levou a mão para o campo de anotações no diário de sala. Ia escrever “falecida”, mas não conseguiu. Ficou alguns segundos perdido, olhando pra algum canto que não via. Quase se sentiu culpado por não ter gostado dela. Mas passou a página muito solene, como tornaria a fazer até o fim do ano, e chamou o nome seguinte.

13 comentários:

Rodrigo disse...

Consigo relacionar a feia com uma colega de trabalho, burra que só, que faz tudo às avessas com uma capacidade de outro mundo. Tenho pencas de oportunidades de virar pra ela e dizer "Como vc é tapada, sua ignorante!", mas sobe um sentimento estranho, não de pena, ou de pena revestida de outra coisa qualquer, que me impede. Penso que ela deve levar patadas demais da vida já, ou começo a imaginá-la aos prantos, magoadíssima com a revelação de que é uma topeira, uma besta quadrada. Acabo humanizando a burrice da monstra numa relação esquisita, num misto de raiva e compaixão, meio que como o teu relato. E acabo levando da mesma forma, no final das contas.

C. L. DeMedeiros disse...

Sei
não
mas se o Walter Salle ler isso
vai querer fazer uma versão cinematografica

ou o Heitor Dhalia

BarelyEly disse...

tipo um soco no estômago...
desagradável é pouco.
bem melodramático e talvez real... prefiro não saber.
sempre bom passar por aqui...

Cefas Carvalho disse...

Belo texto, rapá. Vou colocar seu blog como link nos meus favoritos. Abração e quando vier para estas bandas natalenses entre em contato.

danilo kato disse...

bom... eu não ia comentar, mas como você tinha pedido, mesmo sem saber muito como organizar as tantas coisas que passaram pela minha cabeça agora, eu vou falar que deu vontade de falar com você sobre tudo o que eu li e quais foram as minhas impressões, pra você saber quais foram elas na hora que eu disser e não só depois de um tempo, vendo um recado deixado na sua página. é que é maior do que isso. eu simplesmente não deixaria um recado na sua porta. eu esperaria você chegar e falar: 'tava aqui esperando você... pra falar da sua história. porque eu vejo muitas coisas, sabe? várias criações. só algumas, bem poucas, dá vontade de falar pra pessoa como é linda' mas não se resume só em linda. bom, como você é capaz de escrever histórias assim... me deu motivo de querer falar com você aquele dia, e de querer falar com você agora. bom... acabou virando um recadinho e não um comentário propriamente dito sobre o texto, mas isso eu te falo depois. então, até lá.

mc disse...

forte!

Anônimo disse...

pois é caramigo bissexto.Esse foi o primeiro passo pra sair das trevas e me torna um pouco melhor. Tá , não é autoajuda, mas travou na garganta.
Tam

Maurileni Moreira disse...

lindo blog! é de encher os olhos. dá vontade de ter um igualzinho para falar de devaneios!!!!


abraços.

. disse...

ele não foi mais ou menos humano.
simplesmente foi.


as sensações que tenho com os seus textos podem ser traduzidos com aquele ditado...besta, mas muito sábio: um colírio para os meus olhos.

:)

Desopilando disse...

Deve ter sido um choque...posso imaginar.

Renan disse...

Ainda não conheço Filipe pessoalmente mas já nos "entrevemos" pela internet, graças a questões de trabalho. São os laços - mesmo frouxos - armados pela Vida.
Confesso sinceramente: esse Filipe é nada menos que um escritor já pronto, um homem de letras à intimidade clariceana, a primeira pessoa com quem me comunico que faz uso legítimo do talento literário.
O prazer é meu...

Pedro Henrique disse...

Possível.
Adorei a demência residente na feiura!
Muito bom!

Géssica disse...

Olá,
Não sabia como entrar em contato com vc ,então resolvi reever o seu blog p matar a saudade e olhando p sua foto desejar-lhe Parabéns e tudo de melhor na sua vida e saúde principalmente mental para continuar escrevendo seus contos e passando tão brilhantemente todo o seu conteúdo.

Um abraço bem apertado como no dia em nos despedimos lá na cerimônia da formatura...

Com eterna admiração,

Gláucia Maria Alves Pereira Melo